Wilson Falcão, o “superprofessor”

Se o leitor procurar no You Tube o canal do “SuperProfessorWilson”, encontrará uma boa demonstração de como usar, de maneira criativa, o audiovisual no …

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Se o leitor procurar no You Tube o canal do “SuperProfessorWilson”, encontrará uma boa demonstração de como usar, de maneira criativa, o audiovisual no cotidiano escolar. Professor de história na Escola de Referência Jornalista Trajano Chacon, em Recife (PE), Wilson Falcão  convida regularmente seus alunos de ensino médio a produzir vídeos que abordem conteúdos do programa, mas também aspectos comportamentais da adolescência. A única regra para as produções é… não ter regras.
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Qual a origem do seu trabalho com o audiovisual na escola?
Lá pelos idos dos anos 1990, quando comecei essa jornada de professor da rede pública, possuía para uso doméstico um aparelho de videocassete. Daí para uso em sala de aula foi algo em que eu não precisei pensar. Exibia A Guerra do Fogo, por exemplo, para falar de pré-história. Essa primeira experiência foi constituída a partir do desejo e menos da apropriação de como trabalhar o audiovisual na escola. Os alunos apenas assistiam, depois de uma breve introdução. No final, promovíamos uma pequena roda de conversa e ficava por aí. Não elaborávamos ficha, nem mesmo havia uma preocupação de entender o cinema e o filme como produto cultural de massa, com sua linguagem e sua indústria. Havia o encantamento e um certo engajamento ao se apropriar da representação para reforçar conceitos de justiça e luta social. Aquilo alimentava um inconformismo, e apontava para algo que marcaria mais adiante minha relação com a escola, e principalmente minha relação com os alunos.


Em que momento ocorreu o salto para um uso mais intenso do audiovisual?
Quando eu percebi que a escola era um espaço de desumanização, e que ela cuidava de tudo, menos das pessoas que estavam ali. O recurso do audiovisual despertava possibilidades: a fala, a representação, a emoção, o outro. O humano que havia sido sufocado pelas carteiras escolares nascia daquelas imagens e sinalizava uma subversão de ordem escolar, de currículos, de secretarias de Educação, de gerências e da visão tecnicista-burocrática. Mas era apenas um tímido (e também ingênuo) despertar para as possibilidades dessa linguagem. Em 2009, participei de uma seleção para trabalhar numa escola semi-integral, com uma enorme dificuldade de entender esse tempo de controle, que ia desde o preenchimento de cadernetas, reducionismo homem-nota, aos excessos de avaliação de aluno e professor. Uma parafernália de papéis que, desesperados, queriam, sem poder, dar sentido à escola e a seus atores. Surgiu a ideia de abrir um canal no YouTube e produzir aulas lúdicas com temas variados de história. Vídeos de aproximadamente três minutos. Isso contribuiu para aproximar o audiovisual do aluno e esse do seu professor.


Houve alguma contribuição externa?
Sim. Estava lançado o namoro com a produção, o fazer, mas nos faltava algo que pudesse contribuir para uma apropriação mais adequada dessa produção e o que ela representaria para nós. Foi quando recebemos na escola a ação cineclubista por meio do projeto CineCabeça [promovido no âmbito da Secretaria de Estado da Educação], em 2012, e começamos a discutir a possibilidade de manipulação desse material, o estudo dos gêneros e escolas de cinema, o contexto de produção, os aspectos sociais e políticos, o uso disso tudo como afirmação de poder, de vanguarda e tradição. Descobrimos que dessacralizar esse distante mundo da produção audiovisual era o belo, que perder as ilusões não era perder a beleza. Podíamos aparecer nos espaços do vídeo, contar algo sobre nós, trazer uma voz que aparece pouco nas políticas públicas e na imprensa, a do professor na discussão da educação, da escola enquanto espaço de atores vivos e do estudante que se expressa nesse espaço-escola que esqueceu a delicadeza.

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