Visão global

Internacionalizar o currículo, oferecer cursos em língua estrangeira e promover estudos comparados são práticas que inserem os alunos em um contexto multicultural – ainda que não haja mobilidade

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Em tempos de lenta recuperação econômica e real desvalorizado em relação ao euro e ao dólar, muitos brasileiros estão deixando de participar de programas de mobilidade internacional. Isso foi apontado em uma pesquisa de 2017 realizada pela agência Study Travel, uma das maiores do mundo no ramo de intercâmbios. No entanto, o mercado continua cobrando das instituições de ensino a oferta de experiências internacionais ou, ao menos, de vivências que capacitem os estudantes a entender os fenômenos de uma perspectiva global.

Essa forte cobrança foi intensificada com a atualização dos instrumentos de avaliação de cursos. As IES, já a partir deste ano, terão suas iniciativas de internacionalização analisadas. A ausência de programas nesse campo poderá claramente impactar o resultado do Conceito Institucional (CI).

Diante desse cenário, a inserção das instituições em um contexto global e multicultural se tornou imperativa. E uma das respostas a essa demanda está na “internacionalização em casa”. Como bem definiu a especialista Susana Gonçalves (leia a entrevista completa na pág. 38), da Escola Superior de Educação de Coimbra (Portugal), o conceito se refere ao conjunto de todas as iniciativas que não envolvem mobilidade de estudantes, o conhecido intercâmbio.

São exemplos de atividades que se encaixam nesse conceito: internacionalização dos currículos, o acolhimento de alunos de outros países, a oferta de cursos em língua estrangeira, a promoção de estudos comparados, a participação em projetos colaborativos e consórcios internacionais, os programas de educação a distância envolvendo docentes e discentes estrangeiros, a contratação de professores visitantes, a organização de palestras e eventos com professores ou profissionais estrangeiros.

O custo de muitas dessas medidas é inferior ao do envio de alunos e professores para o exterior, o que as torna mais viáveis. Seu alcance também é diferente, pois atinge uma parcela maior de alunos. “A internacionalização tem de ter uma presença transversal, permear as IES como um todo, ser oferecida para todos os alunos e não apenas para poucos selecionados”, avalia Renée Zicman, diretora-executiva da Faubai (Associação Brasileira de Educação Internacional).

“Claro que não dá para comparar a verba ou as ferramentas disponíveis de uma pequena faculdade interiorana com uma IES tradicional de uma capital ou com uma grande universidade pública, mas todas podem se internacionalizar”, diz Renée.

Sem atrativos turísticos, sem praia

O caso de sucesso da Unievangélica, de Anápolis, interior de Goiás, é emblemático nessa discussão. Com um projeto iniciado em 2014, o retorno já é expressivo: a instituição tem parcerias com instituições espalhadas nos cinco continentes e em mais de 50 países, segundo a professora Marisa Espíndola, coordenadora do Núcleo de Assuntos Internacionais.

São dezenas de estudantes estrangeiros que vão todos os anos estudar no centro universitário, que criou um espaço com quinze apartamentos — lotados o ano todo — para abrigá-los. Outros estudantes ficam locados em residências de seus colegas brasileiros. Para receber os novos alunos, os professores passam por treinamentos e minicursos. Os estudantes brasileiros também são orientados quanto ao acolhimento dos colegas.

Um dos projetos de que a coordenadora mais se orgulha é o programa de pesquisas conjuntas. Em uma delas, professores e alunos de Agronomia trabalham em conjunto com colegas portugueses da Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro para pesquisar quais substratos são menos agressivos ao meio ambiente para o plantio de soja e feijão. “Portugal tem um problema de poluição com o rio Douro. E uma das formas de minimizar isso é promover uma agricultura menos agressiva na região do rio”, diz Marisa. Em outra frente de trabalho, brasileiros e colegas da Universidade da Colômbia estudam maneiras de melhor aproveitar as muitas toneladas de pneus velhos que são descartados anualmente em centros urbanos. Há ainda uma pesquisa na área social que agrega alunos da Unievangélica e da Bluefield College, do estado da Virgínia (EUA). “Os estudantes brasileiros não precisam sair do Brasil para participar dessas pesquisas. Fazem tudo on-line e sempre com a orientação de professores nossos e das universidades internacionais parceiras”, detalha.

A Unievangélica oferece ainda um curso de extensão de 15 dias para estudantes internacionais passarem 10 dias estudando o bioma da Amazônia e os demais cinco brasileiros, no Cerrado. O projeto atrai muitas universidades americanas. “O sucesso é devido ao formato do curso, que é rápido, mas intensivo. Não é passeio, tem pesquisas, trabalho de campo, mais de 80 horas de aulas, visitas a institutos como o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), entre outros”, diz a professora.

Com isso, alunos e professores brasileiros convivem com seus colegas estrangeiros formando laços acadêmicos e profissionais. A professora Marisa Espíndola é sincera ao falar sobre os recursos oferecidos aos estrangeiros: “não temos aqui em Anápolis atrativos turísticos ou praia, mas os alunos internacionais vêm por causa da qualidade do ensino”.

Certificados estrangeiros

Para os brasileiros, há a oportunidade de fazer cursos de extensão internacionais sem sair do Brasil. Nessa linha, a Unievangélica tem uma parceria com o Hospital Metodista de Houston e a Cornell University, nos EUA, para oferecer um curso on-line na área de neurocirurgia. Os alunos brasileiros ganham ainda um certificado internacional. Marisa ressalta que esse trabalho só é possível graças à importância que a IES também dá ao aprendizado de um segundo idioma.

“Se o aluno brasileiro não desenvolver a segunda língua, não vai funcionar”, admite. Por isso, a Unievangélica mantém um centro de línguas de qualidade (é o polo aplicador do TOEFL — Test of English as a Foreign Language —, o principal exame de proficiência em inglês) com preços subsidiados para seus alunos. “Os nossos estudantes não são obrigados a estudar um segundo idioma, mas são fortemente incentivados”, conta a professora.

Parte do esforço da IES em promover a internacionalização em casa também está presente nas disciplinas em inglês que são oferecidas. A coordenadora admite que as disciplinas em inglês do curso de Direito atraem um número reduzido de alunos, mas crê que o fato de existir essa possibilidade na Unievangélica já é um grande incentivo.

O próximo desafio da instituição será estruturar uma coordenadoria específica para a área de pesquisas internacionais. Assim, a IES quer participar de editais de financiamento e captação de receitas internacionais para pesquisas acadêmicas. “Já nos sentimos aptos para dar esse passo, que será muito importante para a instituição e nossos alunos”, finaliza Marisa.

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