Vamos alforriar o Brasil?

Não conseguimos perceber que temos cá dentro tudo aquilo de que precisamos?

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Morreu um dos grandes educadores do século XX. Páginas inteiras de jornais deram notícia do encontro de um estrangeiro com o ministério e a presidência; nem um canto de página de jornal deu notícia da morte de Lauro de Oliveira Lima.


Temo que sejam raros os brasileiros que sentirão a inestimável perda. Estão mais atentos àquilo que de fora vem do que aos extraordinários tesouros que o Lauro, a Nilde, o Agostinho e muitos outros nos legaram. E não citarei os nomes dos excelentes educadores brasileiros vivos, condenados a morrer no anonimato.


Há alguns meses, as crianças do Projeto Âncora prestaram uma homenagem ao Mestre. A filha do Lauro foi portadora de uma caixa repleta de cartas dos nossos alunos para um homem cuja vida foi uma lição de amor pela infância. Imaginamos que terá sido grande a alegria do Lauro perante provas de gratidão das crianças. Mas não poderíamos prever que seria a derradeira homenagem, que lhe poderíamos prestar.
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Admiro o modo como o Brasil acolhe os estrangeiros. Considero úteis alguns dos contributos que esses estrangeiros nos legaram. Mas será preciso reconhecer que a injeção desses contributos nas escolas brasileiras sempre se saldou pelo insucesso. Foram modas passageiras vindas do norte e que, no norte, também se revelaram inúteis. Talvez porque todas essas modas não interpelaram a velha escola, apenas a enfeitaram com construtivismos mal assimilados, pseudotécnicas de gestão, qualidades totais equivocadas, novas tecnologias instrucionistas. Nenhuma logrou tirar o Brasil do fundo do ranking do Pisa, ou propiciar uma saída para a tragédia dos 24 milhões de analfabetos que a velha escola produziu.  


Nos últimos 30 anos, visitei e trabalhei em centenas de escolas de três continentes. Foi no Brasil que encontrei as melhores escolas. Foi no Brasil que conheci os melhores teóricos da educação.


Não me foi concedido o privilégio, que o meu amigo Celso teve, de ser aluno do Lauro. Mas, há alguns anos, fui ao Rio, para encontrar o Mestre. Evoco o deslumbramento da leitura das suas obras. A surpresa de ver anunciadas as “comunidades de aprendizagem”, conceito caro aos anglo-saxónicos, que creem tê-lo criado há quase  anos, mas que Lauro criou há mais de. 50. O pioneirismo de criticamente divulgar Illich e McLuhan. A contundente e fundamentada crítica da velha escola, no tratado de pedagogia que dá pelo nome de A Escola Secundária Moderna. O desgosto de não encontrar os livros do Lauro nas faculdades de Pedagogia…  


Andaremos tão distraídos que não consigamos perceber que temos cá dentro tudo aquilo de que precisamos? Não será tempo de alforriar a Educação do Brasil? Sem enjeitar a “importação” de ciência, tomemos ciência de que também poderemos “exportar”. Talvez haja um caminho do meio entre a nefasta ação dos burocratas da educação, que importam modas e novidades, e os excelentes projetos que o poder público brasileiro ignora ou despreza.

*José Pacheco
Educador e escritor, ex–diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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