Uso de tecnologias digitais ajuda a melhorar entendimento de processos científicos

Disciplinas científicas se beneficiam da possibilidade de exemplificar conteúdos para além da bidimensionalidade

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© Gustavo Morita
Aula do Colégio Bandeirantes, em São Paulo: uso do celular pode ajudar no entendimento de fenômenos científicos

Quando Leandro Costa, professor de biologia no Colégio Estadual Edmundo Costa, em Teresópolis, interior do Rio de Janeiro, quis explicar aos alunos o polidactilismo, liberou o uso de celulares e apareceram diversos exemplos nas mãos dos estudantes. “Não havia projetor na escola pública. Os alunos, independentemente do que apresentamos em sala de aula, já conhecem muita coisa. Por vezes, lançamos um desafio em sala para que busquem determinado assunto na rede”, afirma Leandro. Nesse caso específico, os alunos encontraram uma profusão de imagens ligadas ao polidactilismo, vídeos no canal You Tube e entrevistas em páginas e blogs diversos.

Muito mais do que o uso do celular, a estratégia de Leandro mostra como os conteúdos digitais têm mudado o ensino nas escolas brasileiras. Especialmente em disciplinas científicas, que se beneficiam da possibilidade de exemplificar conteúdos para além da bidimensionalidade das imagens no quadro de giz, ou no livro didático. Os desenhos que os professores faziam na lousa para ilustrar o funcionamento celular, ou a aceleração de um objeto em linha reta, estão perdendo espaço para novas dimensões.

A imagem repleta de vetores ou setas indicando as partes representadas que, apesar do esforço do professor, frequentemente não eram capazes de transmitir ideias ou sistemas mais complexos, estão dando lugar a imagens em movimento de processos físicos, químicos ou biológicos, trazendo um grande potencial de apreensão. O exemplo mostra ainda como essas possibilidades não estão necessariamente atreladas à infraestrutura da escola, mas dependem mais dos caminhos escolhidos pelo professor.

Ver para crer

Talvez a escolha de Leandro guarde relação com uma visita recente que ele fez à Inglaterra, onde reparou que a tecnologia é usada de maneira bastante eficiente. Em sua opinião, mesmo com muitos aparatos tecnológicos, ainda há falta de entendimento, no Brasil, sobre as reais capacidades de mudança nas relações de ensino e aprendizagem trazidas pela tecnologia. “Por aqui, há professores que usam o quadro inteligente como se fosse uma versão mais moderna da antiga lousa”, diz, lembrando que ainda há quem proíba os celulares em sala de aula. Para ele, o celular com conexão à internet é uma realidade dos alunos das salas de aula brasileiras, inclusive nas escolas públicas. Resta, portanto, o desafio de pensar sobre como utilizar a tecnologia da melhor maneira possível. “Temos de nos perguntar como usar essa tecnologia para promover o conhecimento”, indaga Leandro Costa.

Na escola pública onde Leandro trabalha, a falta de acesso a programas e softwares mais caros é compensada por uma televisão, o tablet do próprio professor, e programas de visualização de imagens em três dimensões baixados de graça na internet.

Para Luciana Baptista, do Ciep Carlos Drummond de Andrade, também no Rio de Janeiro, a grande oferta de mecanismos que permitem a visualização de processos biológicos em meios digitais vem afetando as práticas pedagógicas. As imagens em movimento, diz ela, proporcionam um melhor entendimento de processos científicos. O uso de tecnologias de visualização pode suprir, frequentemente com custo baixo ou médio, necessidades de laboratórios já equipados com objetos muito mais caros, avalia a professora.

Além disso, a conectividade permite acesso a revistas científicas eletrônicas, vídeos e leitura interativa. Isso vem transformando a relação entre professor e aluno nas salas de aula, reforçando o papel de mediação do professor, enquanto os estudantes aprendem a levantar informação relevante na rede. Os aplicativos para visualização de processos científicos estão sendo utilizados em escolas públicas e privadas de toda a Educação Básica, de escolas de elite em São Paulo a redes públicas inteiras, como as de Fortaleza e Pernambuco.

Robótica e aplicativos

Em escolas com acesso à tecnologia mais avançada, o recurso da visualização pode vir aliado à possibilidade de tocar e manusear determinados instrumentos, para compreender conceitos científicos. No Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, a dificuldade que os professores do Fundamental 1 tinham em tratar os movimentos de translação e rotação da Terra, bem como o movimento da Lua em torno de nosso planeta e deste em torno do Sol, inspirou o uso de engrenagens e robótica com os alunos pequenos. “Seria muito mais difícil mostrar isso a eles com lousa e giz”, afirma Renata Pastore, diretora de tecnologia educacional do Porto Seguro, que utiliza a tecnologia desde a educação infantil até o ensino médio.

Outra escola que faz uso de tecnologias avançadas é o também paulistano Bandeirantes, onde simuladores, jogos, laboratórios virtuais e visitas virtuais a museus fazem parte do dia a dia, desde o 6º ano do fundamental. Cristiane Assumpção, diretora de tecnologia educacional, dá o exemplo de um aplicativo usado para estudar o corpo humano e nutrição, com alunos do 8º ano. “Os estudantes anotam tudo o que comem em uma semana para depois ver isso num gráfico. Nessa idade (12 ou 13 anos), eles comem bastante besteira. A escolha dos aplicativos se dá com base no currículo e objetivos de aprendizagem”, afirma.

Metodologia científica

“Algumas tecnologias permitem trabalhar sozinho, ao invés de somente ouvir o professor falar sobre um assunto que você não sabe ao certo como funciona”, diz Sofia, 16 anos, aluna do Bandeirantes. Ela cita simuladores de processos como a fotossíntese e atividades extracurriculares, como a Band Forense. Talvez uma das maiores transformações que vem acontecendo em sala de aula, quando se trata do ensino de ciências e disciplinas como física, química e biologia, se refira à metodologia adotada. Cada vez mais se trabalha com projetos, laboratórios e experimentos em que os alunos formulam hipóteses e depois as testam. A tecnologia ajuda nesse processo, pois oferece meios para testar hipóteses de maneira mais precisa.

“Usamos laboratórios virtuais para trabalhar experimentos, assim os alunos podem ver diversas variáveis. Com os simuladores, pode-se trabalhar com dados reais, como se fosse em uma universidade, mas sem expor as crianças a riscos. Isso porque há experimentos que podem usar radiação ou reagentes tóxicos, portanto impossíveis de se realizar em uma escola”, afirma Cristiane Assumpção.

Renata Pastore, do Porto Seguro, acrescenta que o contato concreto com o assunto estudado torna os alunos protagonistas na aquisição de conhecimento, pois identificam um problema, levantam hipóteses, validam essas hipóteses e fazem o link com os problemas que atingem as comunidades onde vivem. Recentemente, alunos construíram o protótipo de uma balsa levadiça para lidar com problemas de alagamento do rio Tietê. Essa abordagem frequentemente se beneficia ainda da interdisciplinaridade.

André Roberto de Andrade Correia, professor e coordenador de ciências no Ensino Fundamental II do Porto Seguro, trabalha com os experimentos com alunos as partir do 6º ano. Muitos são realizados com auxílio de tecnologias como simuladores, programas de edição, de animações, filmes e tablets. “Há mais dinamismo em sala de aula, facilidade de pesquisar e consultar um problema surgido em classe. Além disso, a interatividade entre professor e aluno acontece em tempo real”, ressalta Correia.

Outra vantagem, para os docentes, é a possibilidade de o professor monitorar os experimentos virtuais dos alunos, tendo acesso em tempo real ao desempenho de cada estudante, o que torna o acompanhamento do professor mais personalizado.

Em tempo: o polidactilismo, mencionado no início da matéria, é uma anomalia genética que altera a quantidade de dedos dos pés ou das mãos.

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