Universidade como modelo

Para aproximar os jovens do mundo acadêmico, escolas se inspiram no ensino superior e adotam monografias e trabalhos de conclusão de curso

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Testar conhecimentos, pesquisar e colocar em prática as habilidades desenvolvidas durante todo o ano letivo. Esses são alguns dos propósitos de um trabalho de conclusão de curso, o famoso “TCC”, desenvolvido, principalmente, por alunos matriculados em instituições de ensino superior. Para aproximar os jovens alunos das etapas anteriores da educação básica das práticas acadêmicas, algumas escolas adotaram esse tipo de projeto para estudantes dos ensinos fundamental e médio. No estado de São Paulo, o Centro Paula Souza, responsável por projetos educacionais, implantou em 2007, nos cursos técnicos ministrados nas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs), um trabalho que envolve uma pesquisa empírica (entrevistas ou visitas técnicas) e bibliográfica, para dar base prática e teórica à realização do TCC.

“O aluno fica em contato com situa­ções reais da habilitação em que está matriculado”, conta Ivone Ramos, responsável pela coordenadoria de Ensino Técnico. Um exemplo interessante foi realizado por alunos da Etec João Gomes de Araújo, em Pindamonhangaba, interior do estado. Os estudantes de mecânica desenvolveram, para a Associação de Pais e Amigos de Excepcionais (Apae), que irá adotar o sistema, um acesso para deficientes em uma piscina destinada à fisioterapia. “São projetos reais e muito importantes para a aplicação dos conceitos, além de proporcionar experiência na resolução de problemas”, diz Ivone.

A Etec Jorge Street, em São Caetano do Sul, ABC paulista, mereceu destaque nos trabalhos feitos durante 2007. Lá, o processo, coordenado pelo professor Salomão Choueri Junior, ocorre há mais de dez anos e vem apresentando bons resultados. “Durante todo esse tempo, a escola foi se adaptando, criando ambientes de trabalho e formando parcerias. Hoje, todas as habilitações técnicas têm o TCC na grade curricular”, diz Choueri Jr. No início do trabalho, os alunos se dividem em grupos e escolhem um tema de comum interesse, sempre com acompanhamento de um professor orientador.

Como conclusão, os grupos apresentam os projetos para uma banca formada por professores e representantes de empresas. Os trabalhos validados são apresentados à comunidade na Exposição Cultural e Tecnológica (Excute), ao final de cada semestre. Além da apresentação prática, o TCC é documentado em forma de monografia e fica disponível para consultas na biblioteca da escola. “Os elementos essenciais para o sucesso do trabalho são a motivação dos alunos e o desenvolvimento de competências e habilidades complementares aos cursos, como aprender a trabalhar em grupo, dividir tarefas e, principalmente, a respeitar as diferenças”, afirma Choueri Jr.

Para Fernanda Alves, coordenadora pedagógica da Escola Dinâmica, de Florianópolis/SC, além de auxiliar na escolha da carreira, os TCCs contribuem para desenvolver o hábito de fazer pesquisas concretas, não apenas simples consultas. “Os professores se queixam muito de que, atualmente, os alunos fazem pesquisas sem nenhuma preocupação com a seleção, nem com a análise dos resultados” conta.

Foi pensando nisso que a Escola adotou alguns métodos desenvolvidos em universidades. No início de 2007, as turmas do ensino fundamental II aprenderam, durante as aulas de ciências, a importância da metodologia científica na organização e na produção de pesquisas. Já os estudantes do 6º ano estão produzindo um dicionário ilustrado de matemática, trabalho que exige tempo e dedicação dos alunos.

Para a pedagoga Marilda Mussarra, especializada em educação infantil, a produção de conhecimento é o principal benefício do desenvolvimento de trabalhos mais elaborados durante a vida escolar. Leo Fraiman, psicoterapeuta especializado em orientação profissional, também afirma que o contato dos alunos com esse tipo de atividade é fundamental. “A formação de uma ponte entre a escola e o mundo adulto é essencial para o amadurecimento do aluno, além de ajudá-lo a escolher qual profissão deve seguir”, diz.

No Colégio Anglo – Unidade Leonardo Da Vinci (com filiais em Osasco, Alphaville, Taboão da Serra e Granja Viana, todas na Grande São Paulo), os alunos aprendem a conviver com esse tipo de atividade desde cedo. O projeto começa no 9º ano do ensino fundamental e termina apenas no final do 3° ano do ensino médio, com elaboração e desenvolvimento de trabalhos científicos semestrais.

Durante três anos e meio, a disciplina “Projeto de Pesquisa” faz parte do currículo dos estudantes e os aproxima de metodologias científicas, tendo como base os padrões da Associação Brasileira de Normas Técnicas  (ABNT).  A cada semestre, um professor diferente propõe um trabalho de pesquisa em sua área específica de conhecimento, utilizando uma variedade de recursos, como pesquisas bibliográficas e elaboração de material técnico.


Salomão Choueri Junior, da Etec Jorge Street: elementos para o sucesso do trabalho são a motivação dos alunos e as competências e habilidades complementares aos cursos

O projeto é desenvolvido há oito anos no colégio, mas só em 2007 ganhou um novo formato, o TCC, que passou a exigir um pouco mais dos alunos. “Eles estranharam um pouco, pois julgaram a tarefa “árdua” demais, principalmente alegando que estavam sobrecarregados com o vestibular”, diz Crislaine de Toledo, professora de projetos curriculares do ensino médio. Apesar de trabalhoso, o fato de inserir algo novo no currículo dos alunos é desafiador. “Em 2008, a aceitação será um pouco melhor, pois a idéia é que o TCC vá se tornando mais natural”, conta.

No Rio de Janeiro, na Escola Eliezer Steinbarg/ Max Nordau, aconteceu exatamente a trajetória oposta à que se verifica em outras instituições. José Guerchon, professor de química do colégio, implantou um projeto interdisciplinar no 2° ano do ensino médio. Durante o processo, os alunos realizaram pesquisas sobre temas relacionados às matérias química e física – com a ajuda de recursos tecnológicos, como internet, projetores e lousa interativa -, colocaram seus conhecimentos em prática nos laboratórios e apresentaram um relatório no final do trabalho. Após excelentes resultados na Escola, Guerchon, que também dá aulas na Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ), implantou o projeto para os estudantes da universidade. “Durante o trabalho é possível analisar de que forma os alunos lidam com uma situação nova. Eles vêm apresentando bons resultados, tanto na escola, quanto na PUC”, conta Guerchon.

Se no Rio de Janeiro a experiência deu certo, em São Paulo, a situação não é diferente. No Colégio Equipe, as monografias são realizadas desde 1986, individualmente, com total acompanhamento dos professores e coordenadores. “É um trabalho que concretiza todos os objetivos educacionais da escola, além de fazer com que o aluno exerça sua autonomia intelectual”, diz Ausônia Donato, coordenadora pedagógica.

Segundo ela, o envolvimento dos estudantes com as monografias impressiona os educadores. “Eles são muito dedicados”, conta. Durante a realização do projeto, os alunos registram suas angústias, medos e descobertas em um diário de bordo. Nele, os professores comentam, esclarecem dúvidas e transformam folhas de papel em um importante meio de comunicação. A aluna Marcela Pereyra Paez, de 17 anos, desenvolveu o trabalho intitulado “Dança: arte ou cultura?” e, com o diário, pôde expressar suas inquietações. “Estamos voltando de férias e não posso dizer que fui tão produtiva quanto pretendia, mas o tempo foi importante para refletir e me preparar para esse semestre. Quero me superar nessa monografia. Tratar de um assunto de  que eu gosto me emociona e transforma o trabalho em um objeto de amor.” O trecho acima faz parte do diário da aluna, que demonstrava entusiasmo em desenvolver o projeto.

Antes de começar a fazer a monografia, o estudante assiste a seminários sobre o uso de metodologias científicas. Depois disso, parte para a pesquisa, que inclui reuniões semanais com os orientadores. “Com o TCC, o aluno exercita todas as atividades que aprendeu durante sua vida escolar. É uma síntese, que, para nós, não é apenas um resumo, mas um desafio, pois ele tem de ser um bom leitor, saber discutir o tema escolhido e redigir. São os principais aprendizados que a educação básica deve favorecer para qualquer um”, diz Luís Marcio Barbosa, diretor-geral da equipe.

A aluna Nina Hotimsky, de 17 anos, fez uma monografia sobre literatura infanto-juvenil contemporânea. “Escolhi um tema de que sempre gostei e que só agora tive a oportunidade de aprofundar teoricamente”, diz. Nina acredita que o trabalho de conclusão irá ajudá-la em seu futuro profissional, pois um dos cursos para o qual ela prestará vestibular é licenciatura em letras.

“Com o projeto, estudei como as crianças se desenvolvem e entrei em contato com assuntos que irão me ajudar mais para a frente”, conta. A aluna diz que enfrentou inúmeras dificuldades, como falta de tempo, dúvidas sobre os padrões da monografia, a preocupação em desenvolver um texto atraente e pesquisar com maior profundidade, mas ficou satisfeita com o resultado e se considera mais bem preparada para entrar na vida acadêmica. “Não foi fácil, mas muito prazeroso e repleto de descobertas”, relembra.

Assim como Nina, Daniel Sales, de 15 anos, estudante da 8ª série do Colégio Pentágono, em São Paulo, classificou 2007 como um ano de conquistas. Uma delas foi aprender a fazer uma monografia, cujo tema proposto foi “Visões do fim do mundo”. A partir daí, desenvolveu um trabalho sobre o elemento fogo e sua relação com o conflito entre o Oriente e o Ocidente. “Pudemos testar nossos conhecimentos sobre atualidades e história”, conta Daniel.


Marilda Mussarra: a produção de conhecimento é o principal benefício do desenvolvimento de trabalhos mais elaborados durante a vida escolar

Regina Elizabeth Bomtempo, professora de geografia e uma das responsáveis pelo projeto, conta que todo o processo do projeto foi realizado em sala de aula. Os professores explicaram as normas, como elaborar os textos e fazer as pesquisas. “O acompanhamento foi especial, seguimos todos os passos”, diz Regina. A professora acredita que, com o trabalho, os alunos sairão preparados para o ensino médio e, principalmente, para a escolha profissional.  Daniel pensa da mesma forma e fica orgulhoso ao relembrar de tudo o que aprendeu durante o desenvolvimento do projeto. “Antes, se alguém falasse em monografia perto de mim, eu nem saberia o que significava. Hoje, posso dizer que me saí bem e que, quando entrar na faculdade, já vou ter uma boa noção do que é realizar uma pesquisa”, conta.

Para a pedagoga Marilda Mussarra, caso o trabalho seja aplicado por um professor bem preparado para a tarefa, o aluno terá mais informação e clareza sobre qual profissão deve seguir. “É uma maneira de o jovem chegar a uma universidade e não se deparar com uma carreira de que não gosta ou com a qual não se identifica”, diz.

Já o psicoterapeuta Leo Fraiman acredita que esse tipo de atividade contribui de maneira significativa para o desenvolvimento de um cidadão capaz de trazer valores para o mundo. “Formar um jovem com condições de ingressar no mercado de trabalho é uma das principais atribuições de uma instituição de ensino”, afirma.

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