Primeira universidade do mundo baseada na tecnologia blockchain é lançada

Novidade tecnológica surge na Inglaterra e coloca novamente em discussão o modelo tradicional de formação acadêmica

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Blockchain é um termo cada vez mais frequente na imprensa, mercado financeiro ou TI, só que poucos sabem realmente o que  significa.

Menos ainda entendem como funciona a tal “cadeia de blocos”, em tradução literal.

Resumidamente, o conceito pode ser entendido como um livro de registros digitais compartilhado por muitos computadores diferentes.

Os registros só podem ser atualizados após consenso da maioria dos participantes do sistema.

As informações contidas neste livro, uma vez “escritas”, nunca podem ser apagadas, ficam registradas em todos os computadores que fazem parte da rede.

Em outras palavras, a tecnologia blockchain é uma ferramenta extremamente segura de manter e atualizar dados compartilhados.

E é essa segurança que está atraindo bancos, empresas e agora também instituições de ensino superior.

Woolf University

Sem alarde, foi lançado em março deste ano na Europa um projeto que pode chacoalhar o ensino superior global: a Woolf University, a primeira universidade do mundo baseada na tecnologia blockchain.

Joshua Broggi, fundador e diretor da instituição, conta que teve a ideia conversando com um de seus alunos — ele é professor de filosofia da Universidade de Oxford.

“Tive um estudante em 2017 que me sugeriu, brincando, evitar toda a burocracia da universidade e me pagar diretamente em criptomoedas. Isso me interessou! Comecei a estudar alguns dos protocolos usados pela tecnologia blockchain e fiquei fascinado.”

Levantando dados sobre o ensino superior, Broggi constatou que hoje, no Reino Unido, há 206.870 professores universitários e 212.840 funcionários administrativos.

Outra informação que chamou sua atenção foi o fato de a maioria dos acadêmicos nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha trabalhar sob contratos temporários, de meio período ou como professores adjuntos (designação para os que não fazem parte do corpo docente fixo).

Gerando estabilidade

Somente na Universidade de Oxford, 63,7% dos professores estão em regime de contratos temporários, e mais de 80% das suas pesquisas são conduzidas por estes docentes.

Esse sistema de trabalho acaba sendo ruim para todos: universidades, professores e alunos. Mudar essa realidade foi o objetivo inicial para criar uma IES que vem sendo chamada na imprensa britânica de “Uber para estudantes e Airbnb para professores”.

Broggi diz que há semelhanças, mas não concorda totalmente com a definição. “Ao contrário dos negócios citados, a Woolf será uma instituição democrática sem fins lucrativos. Vamos procurar criar emprego estável para acadêmicos e oportunidades educacionais de alta qualidade para os estudantes.”

As semelhanças residem no fato de os estudantes pagarem, sem intermediários, diretamente aos seus professores; e estes podem oferecer seus conhecimentos e cursos para a Woolf — desde que se enquadrem no projeto pedagógico da instituição, é claro.

Todos os cursos que serão oferecidos pela Woolf são projetados para serem realizados on-line ou pessoalmente. Alunos e professores devem usar o aplicativo Woolf para iniciar um tutorial ou enviar um trabalho, mas esse processo funciona de forma idêntica se o ensino é on-line ou presencial.

Woolf University

A universidade produziu vídeos e relatórios para apresentar ao público seu modelo de ensino (foto: divulgação)

Mas afinal, como funciona

Com o uso do blockchain, a plataforma da Woolf vai operar praticamente sozinha, por meio de contratos automáticos “com segurança em nível bancário”, reduzindo drasticamente os custos administrativos.

“Vamos reforçar a conformidade regulatória, eliminar ou automatizar processos burocráticos e gerenciar a custódia segura de dados financeiros e pessoais confidenciais. Isso beneficia estudantes, acadêmicos e reguladores.”

A economia feita com gastos extra-acadêmicos sera usada para “desenvolver uma experiência de ensino altamente personalizada”, explica.

A Woolf adota o ensino tutorial, prática que reúne pequenas turmas de um ou dois alunos estudando diretamente com um professor.

“As aulas são rigorosas e os resultados da aprendizagem incluem habilidades de pensamento independente, análise lógica, resolução de problemas e flexibilidade intelectual”, diz Broggi.

O ensino tutorial já é amplamente utilizado na Universidade de Oxford e serve tanto para as ciências exatas quanto nas humanidades.

Com dois ou três dias de antecedência, o aluno deve ler cerca de 100 páginas de material didático e preparar um trabalho escrito — seja um problema matemático ou um ensaio.

Depois, ele deve discutir e defender seu trabalho diretamente com um professor por 75 minutos. Ao final do tutorial, o professor prepara a próxima tarefa personalizada, focando as deficiências e potencialidades do aluno.

“Na Woolf, como em Oxford, fazendo isso duas vezes por semana conseguimos obter resultados pedagógicos muito bons, com um nível alto de aprendizado e reflexão.”

Projeções nebulosas

Como acontece com quase todos os projetos inovadores, a Woolf tem desafios consideráveis para enfrentar.

Alex Grech, professor da Universidade de Malta e um dos autores do estudo “Blockchain na Educação”, para a Comissão Europeia de Ciência.

Publicado em 2017, o material explica as vantagens e limitações da tecnologia e lista oito possíveis usos na área da educação.

Grech crê que parte dos problemas da Woolf são os mesmos enfrentados pelas startups que operam na arena blockchain.

“O blockchain está em seus estágios iniciais de desenvolvimento, há ainda muito receio. Por isso, a Woolf precisará construir uma plataforma robusta e confiável para suas operações”, pensa o especialista.

Outro problema a ser encarado diz respeito à gestão do negócio.

“A Woolf pode precisar suplementar a excelente equipe de fundadores, todos eminentes acadêmicos, por uma diretoria executiva profissional. Uma gestão eficiente precisa de pessoas com habilidades de negócios e marketing, aptas a gerenciar redes globais de educadores e estudantes.” E isso, claro, tem um preço que pode impactar o financiamento da operação.

Há ainda, no Brasil e no mundo, desconfiança em relação aos cursos on-line em muitos setores profissionais e acadêmicos.

“Existe ainda esse temor do mercado em relação ao EAD, talvez até um certo preconceito”, pensa Sidney Ferreira Leite, pró-reitor acadêmico do Centro Universitário Belas Artes.

Alternativas para a consolidação

De acordo com ele, a Woolf deve eventualmente caminhar para um ensino híbrido, mezzo on-line, mezzo presencial.

Por mais que as relações digitais estejam sendo ressignificadas, ganhando novos contornos, elas não substituem as relações reais e pessoais.

“A experiência de se estar em universidade é única. As relações que fazemos com colegas e professores marcam definitivamente nossa vida. E isso o ensino 100% on-line tem dificuldade de entregar”, avalia Ferreira Leite.

Prestes a abrir suas portas, a Woolf University está tentando obter sua aprovação com os órgãos reguladores britânicos antes de iniciar seu primeiro curso, um Mestrado em Estudos Mediterrâneos e Europeus.

“Não há uma data de início precisa, embora estejamos preparando toda a documentação para nosso credenciamento institucional o mais rápido possível. Depois que conseguirmos nossa licença para operar, pretendemos expandir nossas ofertas”, disse Broggi.

Usos do blockchain

No Brasil, o uso do blockchain no ensino superior ainda engatinha, mas há exemplos promissores. A Faculdade Impacta Tecnologia, de São Paulo, é pioneira no país ao oferecer aos seus alunos uma certificação validada por meio de blockchain. Em formato de “medalha virtual” (badge, no termo em inglês), o aluno aprovado poderá demonstrar e comprovar a conclusão de uma determinada atividade ou curso.

Uma vez com o badge, o estudante poderá associá-lo às suas redes sociais (LinkedIn, Facebook) ou até mesmo à assinatura de e-mail.

As medalhas digitais equivalem a um certificado, permitindo a verificação dos conhecimentos adquiridos durante o curso e podendo ainda ser um instrumento para empresas atestarem a formação e especialização de seus funcionários ou candidatos.

Rupturas educacionais

Alex Correa, presidente da empresa Manual Blockchain, diz que esta é a tecnologia “mais disruptiva desde o surgimento da internet”, e a trajetória da Woolf servirá de guia para outras experiências no setor.

Para ele, os sistemas blockchain podem resolver problemas que as empresas de educação enfrentam hoje em dia, como: maior transparência sobre frequência dos alunos; redução de custos com materiais didáticos; processos administrativos menos burocráticos e, consequentemente, redução do valor da mensalidade.

Já para Maurício Garcia, vice-presidente de Ensino e  Inovação da Adtalem – grupo que detém 18 instituições, entre elas o Ibmec, e mais de 110 mil alunos – o uso do blockchain na educação tem potencial para “modificar completamente o modelo de negócio da educação superior”.

Além de eliminar um aparato administrativo pesado e caro, os cursos universitários podem se tornar cada vez mais descentralizados. Por exemplo, um estudante de graduação teria de cumprir determinados créditos obrigatórios e outros eletivos para se formar.

Uma vez implantado um amplo sistema de blockchain, esse aluno poderia pagar e fazer cursos em diferentes instituições, e cada uma delas emitiria um certificado digital via blockchain comprovando que o aluno concluiu a disciplina.

Assim, os alunos teriam liberdade na escolha de disciplinas, de faculdades e até de professores, pois sua carteira de créditos seria válida para todas as IES que participassem dessa rede de ensino.

Caminhos positivos com as transformações

Outra possibilidade de uso da tecnologia na educação que seria “muito interessante e inteligente”, avalia Garcia, seria na construção de um sistema on-line de emissão de diplomas.

O Brasil tem um problema de falsificação de diplomas, muitas vezes com a conivência ou participação de funcionários corruptos de algumas instituições.

Para combater isso, o MEC tem um projeto que obrigaria as IES a numerarem e reportarem todos os seus diplomas oficialmente emitidos no Diário Oficial da União.

“Uma plataforma usando blockchain tornaria as emissões de diploma mais seguras para todas as IES e facilitaria inclusive o trabalho do MEC”, pensa o VP da Adtalem.

Isso porque falsificar uma informação em uma rede blockchain implicaria convencer a maioria dos seus usuários a fazer isso, já que todos os registros são alterados em consenso e ao mesmo tempo em diferentes computadores.

Essa forma de fraude ao sistema seria praticamente impossível.

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Licenciaturas se reinventam para formar o professor do futuro

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