Uma nova chance

Uma escola voltada para jovens que abandonaram o ensino médio

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Ana Teixeira
O abandono da escola básica antes de sua conclusão passou a ser, nas últimas décadas, objeto de uma crescente apreensão entre educadores e políticos franceses. A democratização do acesso à escola secundária, os estudos sobre o caráter desigual das oportunidades escolares do sistema público retirou a certeza de que a “culpa” pelo “fracasso” deveria ser imputada ao aluno, às suas características pessoais ou a seu entorno social. A escola foi chamada a assumir sua parcela de responsabilidade em relação àqueles que a abandonam. Suas respostas, contudo, têm sido tímidas. Em geral, elas se limitam a repetir as condições e procedimentos que levaram ao abandono ou a propor uma formação aligeirada para os que não se mostraram capazes de responder às suas exigências; quase sempre com resultados pífios.


Nesse panorama deserto de ideias e esvaziado de coragem política, o Clept (www.clept.org) – uma escola voltada para jovens que abandonaram a escolarização antes da conclusão do ensino médio, mas desejam uma nova oportunidade – parece ser um oásis. Nada que lembre um curso supletivo de segunda qualidade; tampouco os procedimentos e pressupostos das escolas abandonadas. A começar pela crença, atualizada em seus atos, da igualdade como princípio pedagógico e direito político. Ora, é pela fidelidade ao princípio da igualdade que os professores do Clept se comprometem com a diversificação de práticas pedagógicas; sem abrir mão do ideal de oferecer a todos o acesso aos saberes, conteúdos e práticas característicos da instituição escolar.


A “butique da escrita”, por exemplo, recusa o uso escolarizado – e os hábitos pedagogizados! –  de uma escrita formal e anódina, sem abdicar da busca pela beleza da forma ou pela clareza na expressividade. Eles sabem que os jovens que os procuram têm uma história de dificuldade com a versão escolar da cultura letrada; eles sabem que o gosto e a familiaridade com a leitura e a escrita exigem dedicação e tempo. Mas creem na capacidade de fazer da escrita uma experiência simbólica a partir do momento em que, mais do que um exercício escolar, ela se transforma num objeto compartilhável; numa criação que revela algo daquele que a cria, de suas angústias, de seus sonhos, de suas vivências.


A “butique da escrita” foi criada e é desenvolvida por um grupo de professores. Assim como o módulo de reintegração, o projeto interdisciplinar de ciências. É nesse sentido que o Clept é experimental: as práticas pedagógicas se transformaram para seus professores em objeto de reflexão e proposição coletivas; de novas tentativas, nem sempre exitosas. E talvez por isso aqueles que antes não tiveram êxito lá se sintam tão à vontade. Como dizem seus educadores, “eles se sentem autorizados”. Do Clept não emanam receitas a serem cristalizadas, mas um princípio: no campo da educação a “experimentação” não é a comprovação da superioridade de um procedimento, nem a prova da eficácia de uma metodologia de trabalho. Ela é simplesmente uma forma pela qual tornamos visível e público um princípio de ação pedagógica e os procedimentos por meio dos quais o realizamos. Ela atesta a viabilidade de uma forma de se conceber e realizar o ato educativo. Mas atesta também a capacidade humana de desafiar o que se cristalizou e a ele opor um novo começo.


Para que se criasse algo de novo e inesperado; para que pudesse haver um “initium”, dizia o filósofo cristão Agostinho, “o homem foi criado”. Talvez não haja melhor lição para aqueles que se dispõem a recomeçar suas vidas escolares do que presenciar numa escola essa capacidade humana de iniciar algo de novo.


*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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