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Instituições de ensino apostam em campanhas de conscientização e na atuação dos professores para reduzir a incidência de plágios

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Aproveitei só um pedacinho do texto’, ‘troquei seis por meia dúzia’ e ‘copiei e colei tudo junto e misturado’. Estas frases bem que poderiam ser confissões de alunos pegos por apropriação indevida de ideias alheias, ou seja, plágio. Porém, neste caso em particular, o reconhecimento do mea-culpa faz parte de um contexto mais virtuoso. As sentenças foram divulgadas em cartazes, banners, anúncios e faixas espalhadas dentro e fora do campus da PUC-Rio, que ao longo de 2017 realizou uma campanha para reduzir a incidência do copia-e-cola.

Problema antigo e bastante conhecido das instituições de ensino, o plágio é uma pedra no sapato dos gestores do meio acadêmico, pois suas consequências podem ser altamente danosas à reputação dos envolvidos e da própria escola.

A má conduta não se restringe a grupos sociais específicos e nem mesmo a determinados países. Um dos casos mais recentes ocorreu na Alemanha e abalou o governo da chanceler Angela Merkel. Dois de seus ministros – Karl-Theodor zu Guttenberg, da Defesa, e Annette Schavan, da Educação – foram acusados de cometer plágio e tiveram seus títulos de doutorado revogados pelas Universidades de Bayreuth e de Dusseldorf. Além de causar extremo mal-estar ao Executivo da quarta maior economia do mundo e às respectivas instituições de ensino, os dois envolvidos perderam seus cargos.

Por aqui, as fraudes também preocupam as autoridades. Especialistas acreditam que dois fatores contribuíram, nos últimos anos, para a ampliação da má conduta. A primeira causa alegada é o crescente número de trabalhos científicos publicados no país, o que dificulta a verificação das fontes não citadas no texto final.

A segunda, e a mais significativa, advém da internet, que fornece acesso irrestrito a uma infinita gama de informações. A resposta para este problema não é simples e, na opinião dos entrevistados, deve passar por ações pedagógicas, conscientização dos alunos, utilização de mecanismos de checagem e maior engajamento dos professores.

A campanha iniciada pela PUC-Rio em 2017, e que foi renovada para este ano, segue a linha da prevenção educativa. Com o título de Copiou, colou e não citou: dançou. Seja dono da sua ideia. Plágio é crime, o movimento foi viabilizado pela agência de comunicação interna. Ou seja, foram os próprios alunos que compuseram as peças publicitárias divulgadas.

Uma das pessoas à frente da campanha, a professora e assessora da Câmara de Ética em Pesquisa da PUC-Rio, Ilda Lopes, conta que o movimento gerou grande interesse e repercussão entre professores e estudantes, e que acabou por elucidar o conceito de plágio.

“Percebemos, em alguns alunos, certo espanto. Eles não entediam que isso [o plágio] era um comportamento inadequado; não se davam conta de que era algo que infringia a regra ética”, avalia Ilda.

Eles também sequer imaginavam que a fraude em trabalhos acadêmicos pode afetar até mesmo o bolso das instituições de ensino. Nesta última década, os principais órgãos de fomento públicos do país criaram uma série de medidas para fiscalizar o andamento das suas pesquisas financiadas. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) instaurou, em março de 2012, a Comissão de Integridade na Atividade Científica, órgão responsável por coordenar ações preventivas e educativas e examinar situações em que haja dúvidas quanto à integridade da pesquisa realizada.

Mural da vergonha

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) seguiu o mesmo caminho e, antes mesmo do CNPq, em 2011, lançou o seu Código de Boas Práticas Científicas. O documento classifica o plágio como uma ‘má conduta grave’ e indica medidas punitivas a serem aplicadas, que vão desde o envio de cartas de repreensão – para os casos mais leves – até a suspensão e a devolução dos recursos concedidos. Além disso, como sinal de transparência da aplicação do dinheiro público, a fundação mantém em seu site uma espécie de mural da vergonha com os processos e os nomes dos ‘fichas sujas’.

Um dos casos mais graves publicados no portal é o de um bolsista de pós-doutorado do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP), que recebeu financiamento entre 2012 e 2013. Foi constatado que 30% do relatório do pesquisador havia sido copiado de uma tese de mestrado e, após ser julgado culpado, foi impedido de receber novos auxílios da fundação por dois anos.

O Código de Boas Práticas da Fapesp também dedica um capítulo exclusivo às instituições de ensino e pesquisa. O texto destaca que todas elas devem ter em seu organograma um órgão encarregado de promover a cultura de integridade em pesquisa e de investigar casos em que haja suspeita de má conduta científica.

O que em tese seria batizado como ‘Escritório de Integridade Acadêmica’, na prática, segundo o próprio autor do código e coordenador adjunto da área de ciências humanas e sociais da Fapesp, Luiz Henrique Lopes dos Santos, estaria mais para um departamento com ao menos uma pessoa responsável pela verificação das boas práticas.

“Nas instituições particulares, o processo é muito mais fácil. Muitas vezes é o próprio diretor de pesquisa quem se encarrega disso. A Fapesp só quer saber quem é o responsável para poder cobrar depois”, explica o dirigente.

Passados quase sete anos do lançamento, Santos conta que a maioria das universidades, entre públicas e privadas, já aderiu ao código. “A Fapesp não costuma ameaçar as pessoas”, diz o coordenador. Esta frase de tom mais áspero, dita em forma de réplica, responde a uma matéria publicada pela Folha de S. Paulo, em 2017, que afirmava que a Fapesp bloquearia as verbas de instituições que não adotassem medidas antiplágio, o que, segundo ele, não é exatamente verdade.

“Nós queremos que as instituições saibam que existe um problema e que ele deve ser enfrentado com educação e formação de uma cultura de respeito. Pouco a pouco, as instituições estão se adequando. O que ocorreu [à época] é que me perguntaram o que aconteceria quando uma instituição desrespeitasse os termos do contrato, e disse que ele estabelece a perda do direito ao orçamento”, resume.

O antídoto

A construção de uma cultura de respeito à pesquisa acadêmica, mencionada por Santos, é de vital importância para a própria credibilidade da ciência e ganha suporte, em grande parte das IES, na atuação dos docentes. “Uma das ferramentas mais efetivas é o professor conhecer o repertório de seus alunos. Ele ativa um sinal de alerta com base no tipo de escrita do estudante e consegue detectar o problema”, comenta o gerente acadêmico da Escola de Negócios da FMU, Arnaldo Vhieira.

Essa relação mais íntima entre esses dois atores é, segundo Vhieira, o melhor mecanismo para a produção de um trabalho de qualidade, e por consequência, para a redução das más práticas. “Na FMU apostamos nesse diálogo para alcançar bons resultados a cada semestre e o índice de plágio tem diminuído conforme a relação entre professor e aluno é fortalecida”, comenta.

A PUC-Rio, que colocou o tema em pauta através de suas campanhas, segue uma linha muito parecida com a da FMU em relação ao papel do docente. A assessora Ilda Lopes explica que o professor é o primeiro na linha de combate. “Fazemos tudo a partir do professor. Ele tem de lidar com essas ações. Não adotamos softwares de verificação. Preferimos tomar medidas pedagógicas”, conta.

Postura diferente tem a Universidade Presbiteriana Mackenzie, que disponibiliza e incentiva o uso de ferramentas antiplágio para a revisão de Trabalhos de Conclusão de Curso e dissertações de pós-graduação. “A utilização das ferramentas vai depender do feeling do orientador. Não é obrigatório que todos os trabalhos sejam submetidos a programas de verificação”, diz Milton Pignatari, coordenador de processos seletivos.

Já nos cursos de pós, a fiscalização é mais intensa para evitar a publicação de trabalhos problemáticos. Para evitar isso, a solução foi criar equipes de varredura em cada um dos seus programas. O time, formado por professores, analisa conjuntamente os textos e busca indícios de cópias. “Fazemos um cronograma de verificação. No período de entrega dos trabalhos, não tem atendimento na pós. Quando a demanda é muito grande, professores de outros programas são recrutados”, detalha.

A checagem é feita de forma on-line pela força-tarefa dos docentes utilizando programas como Copyleaks, Plagius ou ainda o site Farejador de Plágio, que identificam similaridades com textos já publicados. Porém, cabe ao professor a análise final dessas informações, que é feita de forma manual e tendo como base a própria experiência acadêmica. Milton Pignatari explica que os orientadores se concentram em alguns sinais de alerta que podem sugerir a cópia indevida, entre eles, citações que não combinam com a estrutura do trabalho e mudanças repentinas na forma das construções textuais.

A diferença da base de dados

Esse número pode parecer grandioso, mas um software americano afirma que, nos primeiros meses de sua utilização por uma instituição de ensino superior, mais da metade dos trabalhos analisados pela plataforma alcança índice superior a 50% de similaridade com outros textos. Ou seja, sugere fortemente a existência de algum tipo de plágio.

Presente em 15 mil instituições de 140 países, o Turnitin tem como ponto forte sua gigantesca base de dados: 165 milhões de artigos científicos, 700 milhões de trabalhos e monografias e 62 bilhões de páginas de internet.

Com equipe sediada no Brasil, o Turnitin já opera em cerca de 25 IES, como a Fundação Getulio Vargas (FGV), a PUC-RS e o Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). O diretor comercial da empresa no Brasil, Laércio Dona, explica que o programa funciona de forma integrada com plataformas digitais já existentes, como Canvas e Moodle, e tem como diferencial a sua velocidade de análise. “Em softwares concorrentes chega a passar de 30 horas. No Turnitin leva entre cinco e 10 minutos”, diz.

Apesar de identificar resultados negativos nas primeiras utilizações, Laércio Dona comenta que a redução dos percentuais de similaridade nos textos costuma ser gradativa e que após dois anos de uso os índices de originalidade sobem bastante. O que impede a utilização mais massiva do produto são as licenças anuais. As instituições que podem fazer o investimento, contudo, o fazem para combater a apropriação indevida de ideias e, junto com as demais medidas mencionadas, fortalecer a cultura da originalidade acadêmica.

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