Todo cambia

A velha escola parece estar a parir uma nova educação

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O Brasil foi incapaz de levar às últimas consequências as nobres intenções de dois manifestos, consentindo a perenização de uma tragédia educacional hoje traduzida em 30 milhões de analfabetos e numa profunda crise moral. Mas estamos “de novo convocados”!


Partilhei o lançamento do terceiro manifesto. Foi, como alguém disse, um “ato de amor”. E, confesso que, em muitos momentos da Conferência, a emoção me traiu e deixou mudo. Ainda sob o efeito da Conane, evoco versos cantados pela Mercedes: Cambia lo superficial / Cambia también lo profundo / Cambia el modo de pensar / Cambia todo en este mundo. No decurso da Conferência, a diversidade dos projetos apresentados deu a entender que a velha escola parece estar a parir uma nova educação, embora acredite que as dores do parto venham a ser intensas, enquanto a tecnocracia e a burocracia continuarem a invadir onde deveria prevalecer a pedagogia.
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A velha educação prevalece, travestida de “novo”, no discurso de economistas, jornalistas e outras criaturas desprovidas de conhecimento pedagógico, crentes de que as escolas podem ser geridas como são geridas as padarias. Vêmo-los em eventos, onde vendem caro as besteiras que proferem, e na mídia, que os classifica de “especialistas”. A ignorância pontifica numa revista brasileira de grande tiragem onde, ao serviço de ocultos interesses, insultam a memória de Freire, criticam uma progressão continuada que nunca existiu, e apelam ao regresso a um passado de onde a educação brasileira nunca saiu. Talvez o tempo desses “especialistas” esteja a chegar ao fim, porque já o Fernando nos dizia que o sonho é ver as formas invisíveis / da distância imprecisa, e, com sensíveis / movimentos da esperança e da vontade, / buscar na linha fria do horizonte. Em boa hora o MEC tomou a decisão de criar um grupo de trabalho, que acompanhe e avalie projetos em curso, que provam a possibilidade do verdadeiramente novo. Todo cambia… Até o MEC pode mudar.


Podereis chamar-me utópico, que não me ofendo. Se o poder público decide conferir estatuto de visibilidade a escolas, que já vinham afirmando múltiplas possibilidades de mudança, este é um momento histórico. Essas escolas serão acompanhadas e estudadas, será testada a qualidade e utilidade dos seus projetos.


São projetos como muitos outros, que provam a vitalidade da componente saudável de um sistema doente. Que mostram caminhos e apresentam reivindicações: a dignidade de um estatuto de autonomia; a prática de uma educação integral; uma universidade que se distancie de práticas de formação incompatíveis com necessidades educacionais do século XXI; o reconhecimento público dos profissionais da educação; o fim do desperdício decorrente de más políticas públicas; a substituição da reprovação e da aprovação automática pela prática de uma avaliação capaz de permitir que o aprendizado caminhe junto com o desenvolvimento do pensar, etc.


Lo que cambió ayer tendrá que cambiar mañana. O Brasil dispõe de produção científica e de práticas que provam a possibilidade de uma escola que a todos acolha e a todos dê condições de realização pessoal e social, base da construção de uma sociedade solidária, justa e sustentável. E, num país onde o tempo da educação talvez tenha chegado, temos tudo aquilo que é preciso: gente, projetos, esperança.


*José Pacheco
Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br 

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