A transformação pode vir das startups

Estima-se que apenas 10% dos empreendedores que atuam no segmento educacional estão voltados para o ensino superior. Apesar disso, a oferta de serviços é diversificada e há boas oportunidades de parceria

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Considerando as transformações sociais que estamos vivendo, o grandioso volume de dados disponível no universo digital e o alto nível de conexão instantânea, o uso de tecnologia dentro de uma instituição de ensino superior não pode ficar restrito à oferta de EAD, à adoção de dispositivos eletrônicos e à automatização de alguns processos administrativos.

Seu potencial vai além e quem mostra isso são edtechs, como são chamadas as startups dedicadas ao segmento educacional. De acordo com Thiago Chaer, da Future Education, as soluções que estão sendo desenvolvidas pelos empreendedores à frente desses negócios podem ser estratégicas para IES que estão buscando inovação. Em sua opinião, não faltam oportunidades de parcerias, já que os serviços podem ser aplicados à gestão, ao marketing, à administração e, claro, ao ensino. Uma startup de BlockChain, por exemplo, tem a oportunidade de gerar e verificar certificações, o que poderia ajudar as instituições a se internacionalizar.

“E com certeza ainda pode haver uma série de demandas dentro dessas instituições que ainda não foram mapeadas e que podem, inclusive, trazer um resultado financeiro melhor”, acredita Chaer, cofundador e CEO da organização que se apresenta como a primeira da América Latina focada no desenvolvimento de startups de educação, escolas inovadoras e educação disruptiva.

As edtechs também podem ajudar as instituições a falar a língua do seu público. Há alguns anos, o ensino superior vem recebendo os nativos digitais, aquele público que já nasceu, se desenvolveu e se educou em contato direto com tecnologias de todos os níveis. Em muitos casos, porém, eles estão chegando à graduação e deparando com um modelo educacional conservador e enferrujado, dissociado não apenas da realidade desse jovem estudante como da realidade do mercado de trabalho.

Novas demandas

Além de modernizar o setor educacional, algumas edtechs também estão olhando para o mercado de trabalho do qual elas fazem parte. Muitas, inclusive, foram criadas para formar profissionais qualificados para atuar em startups ou com tecnologias mais recentes, como inteligência artificial, realidade virtual e Big Data, uma demanda que várias instituições têm dificuldade de suprir. As próprias startups fazem parte de uma geração mais recente da era digital.

“Há apenas uns sete anos começamos a falar desse mercado de edtechs no Brasil. Elas cresceram e estão com dificuldade de contratar porque as IES não entendem ainda esse setor e simplesmente não se preparam para ele. São profissões que nem existiam 10 anos atrás”, relata Rafael Ribeiro, diretor-executivo da Associação Brasileira de Startups (ABS).

“O Brasil é um terreno muito favorável para tecnologias em educação. Pelo tamanho e pelos problemas”, avalia Paulo Tomasino, consultor de inovação educacional. Tomasino exemplifica citando a necessidade, entre outras, de uma plataforma que reúna as startups para educação e disponibilize meios de conhecê-las e contratá-las, o que, segundo ele, já existe há tempos nos Estados Unidos.

“Facilitaria e baratearia o esforço de venda. Num país continental como o nosso, é muito caro para uma pequena empresa enviar um executivo de venda a todos os estados para vender uma solução. Depois da venda, fica inviável enviar pessoal técnico para implantação e integração da solução aos sistemas que o cliente já usa. A conta não fecha, o que força uma atuação local, e, sem escala, inviabiliza muitos negócios”, aponta o consultor.

Resistência

Apesar de as IES serem vistas como celeiros de inovação e muitas delas abrigarem o início de muitas startups, sendo o Facebook o exemplo mais emblemático, várias ainda não consideram essas plataformas e soluções como parte integrante de suas atividades, sejam acadêmicas ou administrativas.

Enquanto as escolas de educação infantil, fundamental ou de ensino médio se adiantam em buscar soluções inovadoras para suas práticas, o segmento superior parece acompanhar essas novidades em ritmo mais lento. Em parte isso se deve ao perfil do segmento, mais tradicional e conservador, e que é percebido pelas startups, que acabam, por sua vez, não priorizando o segmento.

De acordo com levantamento da ABS, das 367 edtechs, apenas 10% delas oferecem soluções para o ensino superior e grande parte está concentrada em São Paulo. “Uma das dificuldades de crescer no setor é que hoje ele concentra grandes grupos – logo, ganhar mercabilidade fica mais difícil”, avalia Ribeiro, diretor-executivo da ABS.

A associação faz questão de destacar a dificuldade de mapear esses números, tanto pela alta volatilidade de atuação das startups em geral, como pela própria história dessas empresas, ainda bastante recentes. De qualquer maneira, os dados apontam que há um vasto campo a ser explorado por elas e que o movimento de aproximação entre as instituições e as edtechs já está acontecendo.

“Justamente o ensino superior é quem deveria liderar as mudanças na educação”, diz Fabio Reis, diretor de Inovação Acadêmica e Redes de Cooperação do Semesp. Para ele, as IES devem se aproximar das edtechs, pois são poucas as que estão fazendo esse diálogo.

“Temos de superar isso, não só por competitividade, mas para adaptação e alinhamento com o que vivemos, com o mundo real e que é o mundo que se apresenta aos jovens, um mundo tecnológico.” E o diretor é otimista com o setor: “acreditamos que há boas soluções, com benefícios financeiros, de qualidade, de tecnologia educacional, da própria gestão, e de engajamento de estudantes”. Confira algumas a seguir.

Dream Shaper

Ensinando a empreender no dia a dia

Ferramenta ajuda os alunos a trabalhar com projetos e, inclusive, a montar novos negócios

Competências empreendedoras são valorizadas no mercado de trabalho, mas muitas instituições de ensino superior ainda têm dificuldades em formar essas habilidades, começando pela pouca familiaridade de muitos professores com o tema. A Dream Shaper, fundada em 2015 com uma história que tem início em Portugal, parte desse cenário para oferecer sua metodologia para qualificação em empreendedorismo. “Utilizamos o empreendedorismo mais como meio do que como fim”, diz João Borges, um dos sócios fundadores. Entre as habilidades trabalhadas estão liderança, tarefas em equipe, disciplina, busca por inovação e planejamento. Por isso, a atuação da Dream Shaper tem sido forte dentro de projetos de conclusão de curso. “A plataforma otimiza o tempo do professor, auxiliando-o a oferecer uma experiência mais prática e relevante ao mesmo tempo que deixa o aluno mais autônomo”, explica o executivo. De acordo com ele, 90% dos graduandos escolhem um TCC empreendedor. Borges revela que a Dream Shaper vem aumentando sua presença na educação a uma taxa de 300% ao ano e quer continuar crescendo no segmento do ensino superior. Para ele, a qualificação em empreendedorismo é positiva não só para criar novos negócios, mas principalmente melhorar a eficiência no setor privado.

Csanmek

Corpos virtuais para curas reais

Tecnologia substitui o uso de cadáveres no estudo da anatomia

A utilização de cadáveres no curso de Medicina é uma prática cara e complicada. O aperfeiçoamento da tecnologia 3D e da realidade virtual, contudo, está ajudando a resolver essas e outras questões, além de contribuir com a superação daquela que é uma das maiores deficiências na educação em saúde hoje: preparar o aluno para fazer uma leitura assertiva de imagens médicas.

Os simuladores digitais da Csanmek combinam tecnlogia e metodologia de ensino para o estudo da anatomia humana e todas as suas variações baseados em casos clínicos reais, com clones virtuais ou reproduções em tamanho real de resultados de tomografia e ressonâncias, permitindo a análise de imagem de estruturas danificadas, de tumores, tecidos e toda a região ou corpo afetados para melhor estudo de caso, além de simuladores de arritimias, engasgos e dissecações, por exemplo.

“O sistema permite ainda conexão com hospitais e assim o aluno já vai se ambientanto com as tecnologias que ele vai encontrar no mercado de trabalho”, diz Claudio Santana, fundador da Csanmek. De acordo com o executivo, a solução não é utilizada apenas na educação, já que faz parte do planejamento cirúrgico no ambiente hospitalar. A startup brasileira está presente hoje em salas inteligentes dentro de 300 cursos de Medicina do Brasil, Peru, México e Estados Unidos e planeja estar atuando em mais uma dezena de países até o final deste ano.

Paple

Gestão terceirizada com inteligência artificial

Ao cruzar dados de diferentes fontes, solução fornece diagnósticos administrativos e acadêmicos

Nem todas as startups que querem revolucionar a educação atuam diretamente no ensino. A catarinense Paple, por exemplo, aplica inteligência artificial para otimizar a gestão e o planejamento no marketing das IES. A partir de dados coletados nos sistemas digitais da instituição, a solução analisa o comportamento dos alunos, a situação dos cursos em termos de rentabilidade e preenchimento das vagas, por exemplo, e o desempenho dos demais setores da IES. “A partir do cruzamento desses e de outros dados, conseguimos entregar para as instituições informações muito claras, como potencial de evasão e possibilidade de fortalecer vínculo com os estudantes mesmo depois de concluído o curso. Isso ajuda no planejamento desses cursos e impacta as receitas das instituições ao informar as possibilidades de novas ‘vendas’ para esse aluno”, explica Yuri Calazans, CEO da Paple.

Kanttum

Tutoria e formação de professores

Aulas gravadas em vídeo para os docentes se autoavaliarem

Pablo Sales, fundador da Kanttum, logo revela: queria criar a Netflix da educação ao gravar aulas para que os alunos pudessem revê-las. Mas questões práticas, legais e burocráticas impossibilitaram a continuidade do projeto. Isso não signficou o descarte definitivo da ideia e a Kanttum se voltou para a educação de professores.

Com a ferramenta de gravação de aula, os professores podem desde fazer uma autoavaliação até receber feedback de mentores sobre sua performance em sala. “A gente entende que a educação está mudando e o professor precisa mudar também. Queremos ser o principal aliado dele nessa transformação”, afirma Sales. Outra possibilidade da ferramenta é identificar como os diferentes métodos impactam o aprendizado. São 10 mil professores na base da Kanttum e a startup prevê triplicar esse volume até o final do ano.

A solução da Kanttum conta com especialistas em pedagogia para a formação de professores e é utilizada por instituições brasileiras como Insper e o Grupo Ânima e ainda participa de um consórcio com insituições brasileiras em parceria com o Centro Lemann na Universidade Stanford para uma pós-graduação em matemática com foco em professores brasileiros.

BetaEQ

A fórmula para construir a ‘casa da engenharia química’

Plataforma que moderniza o ensino da disciplina atrai milhões de alunos e profissionais

Os estudantes de engenharia química, da graduação à especialização, são o foco da BetaEQ, uma plataforma que oferece virtualmente informações, dados, cursos, palestras, workshops e todo o vasto mundo da química, sendo a maior plataforma disponível atualmente sobre a carreira. “Nosso objetivo é democratizar o ensino da engenharia química”, afirma Kaique Santos Teixeira, fundador da BetaEQ que batiza a plataforma como ‘a casa ou a família da engenharia química no Brasil’. Kaique diz ainda que a democratização também se dá pela metodologia alternativa empregada, em que o processo de troca e aprendizado entre os participantes é, além de interativo, horizontal, fazendo com que todos sejam protagonistas nesse processo.

Além disso, a interdisciplinaridade entra na plataforma para formar além do conteúdo técnico. “Muitos engenheiros químicos exercem no mercado uma função na área comercial e há uma alta demanda para cursos que complementem o currículo tradicional”, explica Kaique. A edtech tem planos ambiciosos após impactar diretamente 50 mil alunos e profissionais, com 2 milhões de acessos ao site ao longo de cinco anos. O plano da BetaEQ agora é a internacionalização até 2019, começando pela América Latina.

QueroEducação

Facilitando o acesso aos bolsistas

Startup faz a intermediação entre as IES e os alunos para preencher vagas ociosas

De um lado instituições com vagas ociosas, de outro alunos buscando acesso ao ensino superior a valores mais acessíveis – necessidade que cresceu com a redução do Fies. A QueroEducação entra nesse problema com a plataforma QueroBolsa, facilitando que os dois lados se encontrem, fazendo a etapa de pré-inscrição para as IES e auxliando os vestibulandos a encontrar um curso e uma mensalidade que se encaixem no perfil de cada um, com possibilidade de bolsas de até 70%. Desde 2012, mais de 300 mil alunos já foram atendidos. A plataforma tem parceria com quase 80% das ofertas no ensino superior brasileiro. “O nosso diferencial é a tecnologia, o que nos permite oferecer mais assertividade na escolha do curso – e da maneira mais conveniente possível”, explica Thiago Brandão, um dos sócios da plataforma.

Com uma média de crescimento de 120% ao ano, a QueroEducação já inicia a ampliação de serviços para as IES, com o QueroAluno, com conteúdo sobre as melhores práticas para a captação de alunos, como conversão de visitantes em inscritos ou utilização de CRM, além de análises sobre as ofertas mais procuradas ou aquelas que não despertam interesse.

Semantix

Desafios reais dentro do campus

Solução faz a ponte entre empresas que estão buscando soluções inovadoras para seus problemas e instituições de ensino

Com o aumento da demanda por profissionais na área de inovação e a necessidade constante de preparar os graduandos para as necessidades do mercado, a Semantix leva projetos reais para dentro das salas de aula. “É um desafio encontrar pessoas qualificadas para trabalhar com tecnologia de ponta e inovação e depois mantê-las no mercado brasileiro”, relata Anderson Paulucci, diretor de tecnologia da edtech.

A aproximação entre mercado e academia ocorre por meio de uma plataforma que conecta instituições públicas e privadas para compartilhamento de pesquisas no campo tecnológico, como inteligência artificial, Big Data e internet das coisas, para serem aplicadas em projetos reais de desenvolvimento de produtos e serviços. Paulucci avalia que as IES oferecem boa formação e pessoas qualificadas, mas que muitas vezes acabam subutilizadas e boa parte delas acaba emigrando, deixando novamente uma lacuna no campo da inovação no país.

“Quando o aluno tem uma experiência com os problemas práticos de mercado, contribuímos tanto para os projetos de pesquisas que estão sendo desenvolvidos na academia como com o conhecimento para a aplicação prática. É uma experiência positiva para o pesquisador, para a academia e para o mercado. ”

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