Sobre o riso

Ou a construção de uma pedagogia bem-humorada

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De vez em quando me anunciam como conferencista que vai pronunciar uma "aula magna". Eu me assusto, porque "aula magna" é coisa solene, de terno e gravata, onde os risos são proibidos. Aí tenho de corrigir a bem intencionada apresentação e confessar que não sei dar aulas magnas. O que sei fazer é conversar… Conversa é coisa leve cheia de riso.

O que faço é conversar com meus alunos… Essa é a minha filosofia da educação: ensinar fazendo rir. O riso faz bem à inteligência. E como nunca li texto pedagógico que falasse sobre a relação entre a inteligência e o riso – o que não quer dizer que não haja – resolvi escrever este textículo para fazer os educadores meus amigos rirem e pensarem…

Começo citando três aforismos do meu filósofo favorito, Friedrich Nietzsche. Ele amava o riso, a dança, a leveza…"
Ridendo dicere severum

": rindo, dizer as coisas sérias…
"Não é com o ódio que se mata, mas com o riso…" "De toda verdade que não é acompanhada por um riso, pelo menos deveríamos dizer que é falsa…"

Esses aforismos me consolam porque eles me dizem que não estou sozinho… E não resisto à tentação de citar outros homens sérios que riam para pensar e pensavam para rir…

Leszek Kolakowski, que teve a coragem de propor a "filosofia do bufão":
"A filosofia do bufão é a filosofia que, em cada época, denuncia como duvidoso aquilo que parece ser inabalável. Declaramo-nos a favor da filosofia do bufão – aquela atitude de vigilância negativa frente a qualquer absoluto. Declaramo-nos a favor dos valores anti-intelectuais inerentes numa atitude cujos perigos e absurdos conhecemos muito bem. É uma opção por uma visão de mundo que oferece possibilidades para uma reorganização vagarosa e difícil daqueles elementos que, em nossa ação, são os mais difíceis de serem organizados: bondade sem que isto signifique tolerar tudo, coragem sem fanatismo, inteligência sem apatia, e esperança sem cegueira. Todos os outros frutos da filosofia são de importância secundária."

E Octávio Paz, escritor maravilhoso que compreen­deu a relação entre o pensamento e o humor.
"Os verdadeiros sábios não têm outra missão que aquela de nos fazer rir por meio de seus pensamentos e de nos fazer pensar por meio de seus chistes."


O riso brota do prazer da surpresa. "As roupas novas do rei", não? Tudo terminou quando um menino entrou em cena. Ignorava as etiquetas e respeitabilidades. Mas tinha bons olhos. E berrou, para todo mundo ouvir:
"O rei está nu"

. Esse menino sonhou tornar-se filósofo. Não conseguiu. Seus possíveis colegas eram sérios demais, levavam-se a sério demais, não sabiam rir. Descobriu, então, que eles não eram os companheiros de brinquedo que desejava. A cada brinquedo que sugeria, eles diziam que era coisa de criança. Percebeu, então, que era ele que não desejava tê-los como companheiros. Muito melhor a companhia das crianças, e das crianças que moram dentro dos adultos. Numa de suas anotações, escreveu: "Gosto de me assentar aqui onde as crianças brincam, ao lado da parede em ruínas, entre os espinhos e as papoulas vermelhas. Para as crianças eu sou ainda um sábio, e também para os espinhos e as papoulas vermelhas."
Quem sou eu? "Sou apenas um bufão! Sou apenas um poeta!"
É isso que eu gostaria de ser…


Rubem Alves



Educador e escritor



rubem_alves@uol.com.br

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