Sob pressão

Para estudantes chineses, o vestibular local – o gaokao – é uma oportunidade de ascensão. Por isso, são pressionados pelas famílias desde pequenos

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Estudantes chineses em feira de empregos em Pequim, no último mês de dezembro: exigência de alta qualificação e disputa acirrada


A idéia de que a primeira infância deve ser preservada do mundo competitivo não é muito popular na China. Lá, a pressão escolar sobre as crianças começa já no maternal. Um fenômeno ligado ao número elevado de alunos e à política do filho único, que faz com que as famílias não se dêem o direito de errar. A finalidade: passar no gaokao, o vestibular chinês, prêmio supremo para os estudos superiores.

Aos cinco anos, Wang Xiaoyou já tem uma agenda de ministra. Além da escola maternal, ela faz aulas de patins, natação, inglês e está matriculada num "MBA júnior", programa pelo qual aprende a se exprimir em público, no palco, filmada e com um microfone na mão, a fim de vencer a timidez. Sua mãe, Lu Wei, funcionária de um instituto de urbanismo de Shangai, gostaria de ver a única filha estudar, mais tarde, numa das melhores universidades do país. Decidiu apostar tudo na menina, desde a mais tenra idade. E reconhece: "Se os pais vêem que um amigo de seu filho está num curso de música, eles pensam imediatamente: por que não o nosso filho?".

Os alunos levam nos ombros as esperanças de pais dispostos a qualquer sacrifício para que os filhos alcancem os objetivos estabelecidos por eles, pais. O sistema educativo chinês só faz exacerbar essa pressão. Do colégio à universidade, os estabelecimentos são classificados em três categorias, segundo a qualidade do ensino. Obrigatória dos seis aos 15 anos, a escolaridade do jovem chinês é balizada por exames, até a última prova, para os melhores: o
gaokao

, "prova comum de seleção dos colegiais", porta de entrada das universidades.

As taxas de admissão ao vestibular chinês aproximam-se dos 55%, mas, ao final, apenas 15% dos alunos de uma classe chegam ao ensino superior (na França, mais de 60% deles passam no vestibular). Mais do que um exame, o
gaokao

é um verdadeiro concurso. As universidades abrem suas portas a um número limitado de alunos e segundo suas próprias cotas, fixadas no nível de cada província e de cada disciplina.


Trampolim ou abismo


Entre 7 e 9 de junho de 2008, 11 milhões de jovens chineses realizaram as cinco provas que compõem o exame: chinês, inglês, matemática, uma opção dominante literária ou científica, e uma prova de síntese transdisciplinar. Para muitos, os três dias do que apelidam de
Black june

(junho negro) são os mais importantes de suas vidas.

Segundo uma sondagem do Ministério da Educação chinês e do
Jornal da Juventude da China

, 89,6% dos colegiais estimam que seus destinos podem mudar em função dos resultados do concurso, que representa o único trampolim para os jovens do campo.

"Era a faculdade ou ser chofer de táxi", estima Lu Da, funcionária administrativa numa universidade de Shangai, que, por milagre, passou em 1999 no gaokao, já que vinha de uma província – a Mongólia interior – com pouca reputação. O problema crescente do desemprego dos novos diplomados não muda nada (60% entre eles penaram para encontrar um trabalho): o concurso continua a ser percebido como uma passagem obrigatória para o sucesso social. Toda a escolaridade de um jovem chinês – em particular nos anos de colegial – é voltada para o "prêmio" tão desejado. Essa preparação sai freqüentemente do quadro escolar para invadir a vida particular, e as aulas particulares e outras revisões substituem os passeios.

Zhu Ge, 19 anos, aprovado no
gaokao

em 2008, lembra: "Desde os 3 ou 4 anos, eu estava matriculado em diversas atividades de estimulação, como aulas de piano. Mas na escola decidi me preparar para o exame sem aulas particulares, contrariamente a muitos de meus colegas. É muita pressão, pois durante três anos, milhões de jovens chineses fazem todos a mesma coisa ao mesmo tempo e com o mesmo objetivo. Antes de todo simulado, cada um tenta saber  o tempo que os outros levam para revisar e para saber quem trabalha duro, e assim calcular suas chances".

Ao sol, na grama de um campus universitário de Shangai, Xiang Xi, uma jovem arquiteta, lembra-se das palavras dos professores do colégio: "Não é uma competição com seus colegas, mas com os estudantes de seu país".

Restabelecido por Deng Xiaoping em 1977 (depois da Revolução Cultural), o seletivo
gaokao

, ao lado da política do filho único instaurada dois anos mais tarde, permitiu à China dotar-se de uma elite, hoje em seu comando.

Não sem efeitos colaterais: o suicídio é a principal causa de morte entre os chineses de 15 a 34 anos. A forte taxa de depressão entre os jovens parece resultar do aumento do estresse ligado às mutações rápidas da sociedade chinesa, em que pressão e concorrência estão onipresentes. Em 2007, um estudo conduzido pela universidade de Pequim indicava que 20% dos 140 mil estudantes interrogados já haviam pensado em se suicidar e que 6,5% continuavam pensando nisso.

(Tradução: Mônica Cristina Corrêa)

Da ciência à advocacia

Chen Hanyang, 20 anos, passou no gaokao em junho de 2008, em Shangai. Três anos antes, seu pai, professor na universidade da província vizinha de Jiangsu, pediu transferência a fim de oferecer-lhe uma educação melhor.

Ambos foram para a megalópole onde a taxa de sucesso no gaokao é de 80%. Enquanto isso, a mãe de Chen Hanyang ficou na cidade de que são originários. Como as universidades concedem cotas de admissão maiores nas províncias de nível de ensino bem conceituado, o estudante precisava de uma nota sensivelmente mais alta do que seus antigos colegas de Jiangsu para entrar na mesma universidade. Chen Hanyang pôde avaliar sua nota no último ano do colégio. Durante vários simulados, o aluno estimou que conseguiria 510 pontos de um total de 630. O índice seria insuficiente para atingir os 560 exigidos no ano anterior pelas melhores universidades de Pequim. Chen Hanyang então se voltou às universidades de Shangai, difíceis também, porém mais acessíveis, com uma média em torno de 540 pontos.

Como a maioria dos jovens chineses, o estudante sempre sonhou tornar-se cientista. No entanto, alguns meses antes do exame, e depois de longas conversas com seu pai e muitos cálculos estratégicos, ele finalmente optou, na inscrição, pelo departamento de automobilística da universidade Tongii, em Shangai, pois essa carreira era menos concorrida. Hoje, Chen Hanyang é estudante de direito. Era sua segunda opção.

Sob pressão

Quase 50% dos professores brasileiros apresentam sintomas de estresse ou depressão. Os mais jovens são os que têm mais dificuldade para lidar com os problemas da profissão; muitos optam por abandonar o ofício

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O professor está doente. Excesso de trabalho, indisciplina em sala de aula, salário baixo, pressão da direção, violência, demandas de pais de alunos, bombardeio de informações, desgaste físico e, principalmente, a falta de reconhecimento de sua atividade são algumas das causas de estresse, ansiedade e depressão que vêm acometendo os docentes brasileiros.


Profissionais de saúde e de educação dão cada vez mais atenção a fatores que afetam a saúde psicológica do professor. Ainda que pouco seja feito em termos de políticas públicas e educacionais para prevenção, acompanhamento e tratamento de casos genericamente classificados como de estresse, pesquisas começam a identificar a origem do mal e a apontar caminhos para mudanças.


Em artigo publicado em 2005 na revista Educação e Pesquisa, da Faculdade de Educação da USP,  as pesquisadoras Sandra Gasparini, Sandhi Barreto e Ada Assunção, do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, citam estudos realizados em várias localidades – Belo Horizonte e Montes Claros (MG), Vitória da Conquista e Salvador (BA), Santa Maria (RS) e Campinas (SP), entre outras – para aferir as condições de saúde do professor, a incidência dos pedidos de licença médica e suas motivações.


Partindo da hipótese de que as condições de trabalho – excesso de tarefas e ruídos, pressão por requalificação profissional, falta de apoio institucional e de docentes em número necessário, entre outras – geram um sobreesforço na realização de suas tarefas, o estudo conclui que os resultados aferidos nas diversas cidades são convergentes e que os professores estão mais sujeitos que outros grupos a terem transtornos psíquicos de intensidade variada.


Muitos desses elementos de pressão são fruto de uma reconfiguração do mundo do trabalho, que não foi realizada a contento no que diz respeito a suprir as necessidades do professor na mesma escala em que é cobrado. "O sistema escolar transfere ao profissional a responsabilidade por cobrir as lacunas existentes na instituição, a qual estabelece mecanismos rígidos e redundantes de avaliação profissional", diz Sandra Gasparini.


Um dos problemas mais comuns na atividade de educador é a síndrome de burnout (veja texto). Suas causas estão na ocupação profissional, principalmente entre trabalhadores que lidam diretamente com pessoas e demandas variadas. É comum entre médicos, enfermeiros, policiais e, é claro, professores.


Vista como epidemia no meio educacional, essa síndrome não é exclusividade brasileira. Estudos na década de 1980 já apontavam altíssima incidência do problema entre os docentes norte-americanos. Entretanto, por estar sendo estudada há relativamente pouco tempo, ainda é difícil avaliar o desenvolvimento do burnout nas diferentes atuações profissionais. De qualquer maneira, as mudanças sociais das últimas décadas – que, para ficarmos no caso brasileiro, alteraram a cultura e os interesses do alunado, aumentaram a violência nos centros urbanos e diversificaram e intensificaram o acesso à informação – entraram na escola e tornaram-se fatores motivadores de estresse entre os professores.


A Universidade de Brasília (UnB) realizou, a partir de um acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), uma grande pesquisa nacional no final da década passada sobre o burnout com 52 mil trabalhadores em 1.440 escolas. Esse trabalho foi publicado no livro Educação: Carinho e Trabalho (Editora Vozes, 434 páginas). Os resultados mostraram que 48% dos entrevistados apresentavam algum sintoma da síndrome.


Para a pesquisadora Iône Vasques-Menezes, da UnB, desvalorização da carreira docente concorre para o aumento dos problemas psíquicos dos professores

A coordenadora do Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB e uma das pesquisadoras envolvidas no estudo, Iône Vasques-Menezes, destaca no meio desses números preocupantes que, de certa forma, o profissional está mais sujeito ao burnout, pois a situação da sociedade é outra. Ela lembra que até o início da década de 1960 o professor era valorizado.


Uma pesquisa mais recente, de 2003, feita pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) apresentou resultados semelhantes: 46% dos professores já tiveram diagnosticado algum tipo de estresse – entre as mulheres esse número chega a 51%.


No Mato Grosso do Sul, segundo dados da CNTE e da Federação dos Trabalhadores em Educação do Mato Grosso do Sul, mais de 60% das licenças médicas concedidas aos trabalhadores em educação no Estado são para professores. Do total de licenças, 38% estão relacionadas a transtornos mentais e comportamentais, o principal motivo dos afastamentos.



A deterioração


Celso dos Santos Filho é médico residente do setor de psiquiatria do Hospital do Servidor, em São Paulo. Ele diz que atende a um número considerável de professores que buscam ajuda psiquiátrica com os mais diversos transtornos. "Há uma desvalorização gradual do papel do professor. Ele se sente cada vez menos valorizado, o que afeta a prática profissional e a auto-estima", conta. Tais perturbações deságuam em "dificuldade para ir ao trabalho, insônia, choro fácil". O médico nota que as reclamações mais comuns desse sentimento de depreciação da atividade apontam para a falta de autoridade sobre os alunos e para a ausência de apoio institucional e das famílias dos alunos.


Existem dados que balizam a fala do psiquiatra: a Unesco fez, em 2002, uma grande pesquisa sobre o perfil do professor brasileiro. Em uma das questões sobre a percepção que tinham do próprio trabalho, 54,8% afirmaram ser um problema manter a disciplina em sala de aula; 51,9% mencionaram as características sociais dos alunos; e 44,8%, a relação com os pais. Outros pontos críticos estão relacionados com o volume de trabalho e a falta de tempo para preparar aulas e corrigir avaliações. De todo modo, as questões que envolvem relações humanas, que são a essência da educação, demonstram ser obstáculos difíceis para os professores.



A síndrome do esgotamento profissional,conhecida como síndrome de burnout,foi batizada nos anos 70. O nome vem da expressão em inglês to burn out, ou seja, queimar completamente, consumir-se.



"A gente deixa de fazer o trabalho para ficar chamando a atenção de aluno para tirar o pé da cadeira e para fazer silêncio. Isso os pais deveriam ensinar", revolta-se uma professora da rede pública paulista. "Nas reuniões, os pais dos alunos que não têm problemas aparecem; os que têm, raramente vão." A psicóloga e professora da PUC-Campinas, Marilda Lipp, concorda com a professora: "As crianças estão mal-educadas.  Mas ao mesmo tempo em que os pais desvalorizam os professores, passam a eles a responsabilidade de educar os filhos".


Marilda, que também é diretora do Centro Psicológico de Controle do Estresse e autora e organizadora de diversos estudos sobre o assunto – como o livro O Estresse do Professor (Papirus, 146 páginas), acredita que problemas semelhantes ocorram em várias ocupações. "Mas o dano que um professor pode causar é muito maior, pois o estresse é emocionalmente contagiante."


De acordo com uma pesquisa orientada pelo psicólogo e professor da UERJ, Francisco Nunes Sobrinho, um fator determinante do burnout é a idade do professor. Pelos resultados, educadores mais jovens fazem uso exagerado de "controle aversivo". "Eles, por exemplo, gritam mais com o aluno para tentar controlar a disciplina. Se o professor ameaça demais, ele também pode criar um clima de estresse", explica.



Problema abrangente


A deterioração da atividade docente não acontece apenas no ensino público, o privado também sofre de mal semelhante. "A relação entre professor e aluno se transformou em relação professor-cliente", condena Rita Fraga, diretora do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP). Apesar de trabalhar com profissionais da rede particular do Estado, ou seja, que supostamente figuram entre os mais bem remunerados do país e com uma boa infra-estrutura de ensino disponível, o sindicato nota um aumento do estresse no seu público. Rita avalia que muitos professores são pressionados pelos interesses mercadológicos da escola e, assim, muitas vezes não têm suporte da instituição em situações de enfrentamento com os alunos. "Com medo de perder o emprego, ele se sujeita a esse tipo de situação."


A psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Alexandrina Meleiro, demonstra


Medo de perder o emprego gera submissão de docentes, alerta Rita Fraga, do Sinpro-SP

que esse problema de instituições privadas existe nos casos que atende, principalmente de professores do ensino superior: "Em algumas (instituições), os alunos fazem um motim contra o professor e a escola prefere demitir o profissional a ficar do lado dele", relata.


Entretanto, ela identifica que a maior quantidade de casos está no ensino fundamental. "São professores com problemas somáticos – depressão, ansiedade, às vezes síndrome do pânico – e, em alguns casos, se houve um assalto na escola, por exemplo, depressão pós-trauma", diagnostica. De acordo com Alexandrina, "entre 30% e 40% acabam desistindo da profissão, o que caracteriza que o problema é decorrente da ocupação".


O tratamento, segundo a psiquiatra, varia muito. "Dependendo do grau de desgaste, a pessoa pode passar somente por psicoterapia, ser medicada temporariamente com ansiolítico ou antidepressivo e, às vezes, tem de ser deslocada para uma função burocrática ou passar a trabalhar com outros tipos de alunos."



48% das pessoas que trabalham em escolas apresentam algum sintoma de estresse, segundo pesquisa realizada em âmbito nacional pela Universidade de Brasília



Uma preocupação de Alexandrina é com a violência. Chaga dos grandes centros urbanos do país, a violência é apontada por muitos pesquisadores como um fator estressor importante que atinge comumente os professores que lecionam em escolas situadas em regiões de risco, com altos índices de criminalidade e, em alguns casos, presença do tráfico de drogas. Ainda que a violência possa atingir direta ou indiretamente qualquer um, "a gente tem de dar um enfoque maior para a escola, pois ela lida com a criança e com o adolescente que serão cidadãos, e é nesse meio que a violência é cultuada", alerta a psiquiatra.



Origens múltiplas


"O burnout é uma síndrome multideterminada, ou seja, uma combinação de fatores facilita o surgimento dela", explana Iône Vasques-Menezes, da UnB. Dessa maneira, ainda que as dificuldades com disciplina, desvalorização da atividade e exposição à violência despontem como seus principais causadores, não se pode desprezar outros motivadores das doenças psicossomáticas dos professores.


Para a psicóloga Marilda Lipp, ao mesmo tempo em que desvalorizam os professores, pais confiam a eles a educação dos filhos

Marilda Lipp, da PUC-Campinas, cita o tecnoestresse, que seria o contato cada vez mais freqüente com tecnologias em sua atividade escolar, o que demanda conhecimento de processos e, em muitos casos, um aumento da carga de trabalho para fazer relatórios via rede, por exemplo.


Francisco Nunes Sobrinho, da UERJ, tem como referencial a ergonomia. "Você pode ficar estressado, dentro da ergonomia cognitiva (disciplina que estuda os processos cognitivos em situações de trabalho), pelo excesso de informação que recebe. Isso pode provocar uma descompensação, pois o problema maior é não saber o que fazer, não ter uma resposta para a situação", explica. Ele adverte  também que o ambiente físico é um estressor. O incômodo gerado pelo ruído excessivo ou pela temperatura elevada podem contribuir bastante para o desenvolvimento de um estresse crônico entre os professores.



Por onde começar?


Como as causas dos problemas psicológicos dos professores têm origens distintas, os caminhos para sua solução também são variados. A presidente da CNTE, Juçara Vieira, lembra do que é óbvio para começar a valorizar a profissão, mas que costuma ser esquecido com assustadora regularidade: o salário. "O importante é se ter um piso salarial que permita, por exemplo, trabalhar para apenas uma escola", comenta.


Ela cita também a necessidade de ter uma escola democrática que fortaleça as relações interpessoais e de aplicar políticas públicas de formação permanente. Nunes Sobrinho corrobora a tese de que é preciso preparar os professores. "A mudança do cenário passa pela formação das pessoas, por começar a incorporar no currículo algumas questões de comportamento." O psicólogo dá um exemplo que presenciou: "Trabalhei em uma escola de periferia em que a criança levava um bilhete chamando o pai para uma reunião, e ela era espancada antes mesmo de o pai saber do que se tratava. Isso demonstra que a professora só trabalha com o lado negativo. O pai só é chamado para ouvir crítica. O professor ainda não aprendeu que tem de chamar o pai também para fazer elogios. Quando começaram a chamar alguns pais para elogios, as crianças queriam que os seus pais fossem chamados também".


Para Iône, há na atividade a sensação de que se dá muito, mas não se recebe nada em troca, o que provoca insegurança e desânimo. Ela acredita que o professor precisa de afeto para transmitir conhecimento. "Se ele não gostar dos alunos, não conseguirá transmitir nada." A psicóloga da UnB acha difícil estabelecer uma única linha de atuação para diminuir o burnout. "Se é uma síndrome de trabalho, teria de mudar a organização do trabalho dependendo das condições em que ocorre naquela comunidade". Ela esclarece que em uma cidade pequena, ainda que a infra-estrutura da escola seja inferior quando comparada à de um grande centro desenvolvido, a proximidade com a sociedade local acaba compensando e o professor fica menos exposto. "É mais fácil identificar fatores que protejam contra o burnout do que os causadores – controle sobre o trabalho, suporte social, ligação da escola com a comunidade, reconhecimento social."



55% dos professores brasileiros ouvidos em pesquisa da Unesco afirmaram ter problemas para manter a disciplina em sala de aula



Com uma abordagem menos voltada para a idéia de síndrome trabalhista, a professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), Sandra de Almeida, avisa que o professor se apresenta com uma expressão de grande sofrimento psíquico e um mal-estar visível. Ela baseia suas afirmações em pesquisas realizadas com docentes na complementação pedagógica para professores do magistério no Distrito Federal, dos quais "cerca de 20% têm licenças médicas motivadas por estresse".


Isso tem como conseqüência o absenteísmo, ou seja, os professores faltam muito. "Eles fazem pedidos de transferência para secretaria, fazem de tudo para não estarem presentes em sala de aula", relata. "Quando nada mais funciona, utilizam o recurso da licença médica."


Sobre as críticas de diversas secretarias de educação de que muitos professores querem licenças simplesmente para matar trabalho, a psicóloga retruca: "é claro que muito disso pode ser ‘mais ou menos fingido’, mas tem um valor psíquico para o sujeito. Por que ele se apresentaria como um sofredor? Podemos chegar à conclusão de que isso não se configura como depressão, mas pode ser um estresse".


Sandra destaca que o professor não é escutado no ambiente escolar. Na opinião dela, esse profissional convive muito tempo com os alunos e lida com demandas diversas e contraditórias e não tem com quem conversar. "Assim, o médico é a figura que pode ajudar e que, em último caso, pode afastá-lo da sala de aula, e isso pode aumentar ainda mais a sua angústia."


Sandra de Almeida, da UCB: "Por que se apresentar como um sofredor? O fingimento também tem valor psíquico"

"A leitura que faço é de como podemos intervir no âmbito da formação de pessoal", explica. Sua proposta é resgatar a memória educativa desse professor para entender como alguns expostos às mesmas condições conseguem fazer algo criativo e outros caem na depressão. Identificar sua história como estudante, ideais educativos. Fazer com que ele perceba que não é o único a ter problemas psicológicos e que pode encontrar soluções por meio de relações interpessoais. "Ele precisa se interrogar, caso contrário, não há o que fazer."


Vale a pena tentar entender o que aflige e adoece o professor brasileiro, esse indivíduo difícil de ser explicado. Afinal, segundo a pesquisa realizada pela UnB, esse trabalhador, com todos os problemas que enfrenta, ainda pertence a uma categoria que apresenta índices de satisfação profissional próximos de 90%.



 

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