Rumos novos, velhos vícios

Sobre formas bem-humoradas de cumprir o sagrado regulamento

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São quase 7h30 da manhã e o cenário é kafkiano. O horário de entrada é o mesmo para todos os alunos, igual em todas as escolas do bairro, como se não existisse algo chamado biorritmo e uma ciência que dá pelo nome de cronobiologia. Uma fila de ônibus deposita na calçada sonolentas crianças. Estridentes buzinas ecoam na rua lotada de viaturas. Trânsito interrompido, rostos crispados…. Que criaturas estranhas são aquelas, que amam engarrafamentos? Serão sadomasoquistas?

Na única sala de aula de porta aberta, observei um professor lendo slides, enquanto alguns alunos cochilavam. Com ele conversei. Desabafou: “É a primeira aula do dia e já estou cansado. Já faltei o que pude faltar, não posso faltar mais, porque me descontam no salário. Sabe como é. Os alunos chegam cheios de sono. E é difícil dar aula numa turma da manhã, quando nos exigem que ensinemos alunos repetentes da tarde”.

“Alunos repetentes da tarde”, “alunos da manhã”… Não entendi a arenga, mas nem pude pedir esclarecimento. O professor saiu correndo pelo corredor que conduzia ao “marcar o ponto”. Apossou-se de mim um sentimento misto de tristeza e impotência. Que solidariedade poderei exercer num contexto de uma escola assim organizada? Poderá haver alunos responsáveis, se os professores se funcionarizaram, se dependem do controle de um livro de ponto?

Por via de uma denúncia anônima, uma escola que bem conheço teve o desprazer da visita de um fiscal do ministério. O zeloso funcionário ordenou que a escola retomasse o uso do livro de ponto. De nada valeu aos professores dizer que nunca faltavam ao serviço ou que o livro de ponto atentava contra a sua dignidade profissional, pois se consideravam educadores autônomos e responsáveis. Se o fiscal ordenou, estava ordenado, teria de ser cumprida a lei. E os regulamentos! Para constar, redigiu a ordem no livro de registro de visitas de fiscais.

A ordem foi cumprida… com criatividade. As assinaturas no livro eram multicoloridas: laranja, vermelhas, amarelas… de modo que, se as folhas fossem olhadas a mais de um ou dois metros de distância, assemelhavam-se a pinturas de Van Gogh.

O fiscal voltou, para verificar o cumprimento da ordem. Pareceu escandalizado e pretextou que não se podia assinar o ponto com tais cores. Foi-lhe perguntado se estava escrito na lei que regulamentos não se podiam assinar a vermelho e amarelo. Não respondeu. Pediu o livro de visitas, rasgou a folha em que havia redigido a ordem, jogou-a no lixo e disse para dar sumiço ao livro de ponto. Na despedida, pediu que não constasse que ele havia estado naquela “escola de loucos”. Não havia entendido que aqueles “loucos” cocriavam uma “comunidade de aprendizagem”, na prática de uma educação integral, emancipatória.

Rumos novos, velhos vícios…  Na escola do lado, obedecendo ao toque da campainha, o professor entrava na sala de aula e, em perío­dos de 50 minutos, tentava transmitir saberes superficiais e fracionados. Registrava a presença de alunos que, supostamente, haviam decorado a informação “transmitida”. Escrevia os sumários no banco de dados da secretaria. Marcava o ponto.

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