“Retomar a tranquilidade da escola não é fácil”

Liziane Diaz, diretora da escola onde Isadora Faber estuda, fala à Educação que o Diário de Classe foi bom para mobilizar os alunos, critica a cobertura da imprensa e faz ressalvas sobre a distribuição de verbas para as unidades de ensino

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Na Escola Básica Maria Tomázia Coelho, a poucos metros da praia do Santinho, em Florianópolis (SC), o portão verde está aberto. Para entrar, basta puxar um dos lados. Logo na entrada, uma placa orienta o recém-chegado a pedir informações na secretaria, à esquerda. Outro cartaz, o maior, pede a colaboração de todos para preservar a escola limpa – o que ela está. Em uma primeira impressão, a pintura também foi colocada em dia e nada parece quebrado, cinco meses depois do mutirão da Secretaria de Educação do município para consertar os defeitos que a aluna Isadora Faber mencionou em publicações no Facebook.


Do lado direito, também perto da entrada, aproximadamente 10 alunos usavam a biblioteca naquela tarde de novembro. Outros estudantes da turma da manhã aproveitavam o contraturno para fazer algum trabalho ou conversar em grupo e circulavam pelo pátio, cujas paredes estão revestidas com cartolinas de avisos sobre apresentações do coral, o período de rematrícula e o torneio de futsal na quadra, pintada no fim do ano, enfim. Sentados do lado de fora, na mureta que separa escola e rua, três alunos do primeiro turno conversam tranquilamente.

“Lizi, essa moça quer falar com você”, anuncia uma das duas secretárias, talvez imaginando que se tratasse de uma mãe de aluno. Apenas dois minutos se passam até a diretora Liziane Diaz, 30 anos, receber Educação em sua sala para dizer que poderia conceder uma entrevista três horas mais tarde, pois estava com a agenda cheia naquele dia. Enquanto consultava seus compromissos marcados, recebeu um tablet confiscado de uma aluna em sala de aula. Esboçou pesar, já que o uso de aparelhos eletrônicos na classe é proibido por lá, e agradeceu a funcionária. Na lista de tarefas de Liziane, havia a entrega de documentos para a Secretaria de Educação e uma reunião com o grêmio estudantil.


No horário marcado, Liziane ainda estava ocupada com os alunos do grêmio, mas atendeu a reportagem em seguida. Durante uma hora de conversa, foi interrompida por um telefonema de dez minutos sobre uma solicitação de materiais para a escola, por duas alunas que pediam dispensa para participar de uma apresentação do coral e por alunos que batiam à porta e, vendo a diretora ocupada, diziam que voltariam depois. Um dia agitado.


Na entrevista abaixo, a diretora da escola que ficou conhecida em todo o país depois do Diário de Classe admite que a iniciativa da estudante teve um saldo positivo: a mobilização dos alunos para cuidar do ambiente escolar. No entanto, ela diz que o Diário, “como foi feito”, esgotou seu propósito. Liziane, que ocupa cargos de gestão há quase cinco anos, também faz uma crítica à descentralização da verba na rede municipal pela Secretaria de Educação, que repassa o dinheiro para a Associação de Pais e Professores da escola para fazer a manutenção predial – processo que se torna difícil, em sua visão, devido à pouca participação dos pais.

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Como foi lidar com a repercussão que o Diário de Classe teve?
Ficamos sabendo pela mídia. Em um primeiro momento, a página da escola recebeu uma mensagem inbox das meninas que fizeram o Diário, pedindo para que curtíssemos. E quando vimos, percebemos que havia fotos de alunos. Nós falamos que segundo o nosso regimento não é permitido tirar fotos em sala de aula, não pode usar o celular e não seria interessante que continuassem com a página. A partir daí nós não acessamos mais e não sabíamos que estava tendo continuidade.


No dia em que eu estava em uma reunião, a administradora da escola me ligou dizendo que essa aluna responsável pela página estava filmando a aula e os alunos chamaram para que eu tomasse uma providência, porque eles sabiam que ela estava colocando em uma página na internet e eles não estavam de acordo com isso.


Então foi a administradora, que estava assumindo minhas funções na minha ausência, quem chamou a aluna e fez o que está previsto no regimento: a advertência por usar o celular na sala de aula. Nós utilizamos a Lei 14.363, que restringe essa utilização. E então chamou os pais para conversarmos sobre o assunto e fazer os esclarecimentos de porque não poder usar imagens de alunos e professores em sala de aula.


Depois disso, no período da tarde, em que eu não estava mais em reunião, o pessoal me esclareceu o que tinha acontecido e no dia seguinte a mãe da Isadora veio aqui para conversarmos. Eu perguntei se ela já conhecia o regimento e ela disse que não, que tinha lido no dia anterior, não tinha visto ainda que não podia usar o celular.


Então fui olhar a página, que continha questões sobre a estrutura, que realmente são um problema. Toda escola passa por momentos em que são necessárias reformas ou retoques. Eu disse que as reclamações são legítimas. E de fato existem espaços na escola para que possamos discutir isso e tomar providências, espaços estes que não foram utilizados. Eu disse que a única coisa que não concordo e não vou apoiar é a utilização de imagens. Não tem como trabalhar em cima disso porque vai contra o que a escola propõe.


Nem fora da sala?
Na verdade, o que a lei diz? A 14.636, que é uma lei estadual, que diz ser proibida a utilização de celular e aparelhos eletroeletrônicos dentro de sala de aula, não fala nada de corredores. Por isso eu disse: foto de porta, de fechadura, isso tudo para nós não é problema. É uma realidade com a qual convivemos e a escola precisa de manutenção. O que eu falei desde o início: não posso concordar com a exposição de pessoas. Tem professor que, se algo for falado, ele não vai entrar na página para falar nada, até porque se resguarda o direito de nem ter Facebook. Essa foi uma das questões discutidas.


Mas logo isso tomou uma proporção muito grande. Não sei como foi a divulgação, a influência da mídia, mas tomou uma proporção muito grande. Para nós, foi agitado, conturbado, porque começou com dois problemas: as questões de estrutura, como portas, maçanetas, tampas de bacias que foram postas, e a questão específica do professor de matemática, que vinha apresentando muita dificuldade. Mas que nós já vínhamos fazendo a avaliação. Infelizmente nós não tínhamos quase relatos e reclamações em relação a esse professor.


Por quê?
Porque a participação da comunidade é pequena. Nós vemos, por exemplo, um número mínimo de pais nos conselhos de classe. Até mesmo poucos alunos, porque é um horário que tiramos só para a reunião. Nós fazemos uma ata de pré-conselho. No pré-conselho, a equipe pedagógica se reúne com os alunos de cada turma e eles sempre colocam as demandas, o que eles estão percebendo em relação às disciplinas, à aprendizagem, à estrutura da escola, às equipes que trabalham na escola, tanto direção como equipe pedagógica, o atendimento do pessoal da limpeza, da cozinha. Eles têm esse momento para falar sem a presença do professor, só com a equipe pedagógica. Às vezes eles se sentem constrangidos: “ah a gente vai falar que a aula do professor não está boa”. Então, nenhum professor permanece, apenas a equipe pedagógica, que não trabalha diretamente em sala de aula, faz esse trabalho de organização da escola.


Então nós chamamos o conselho de classe, onde são chamados pais, alunos, todos os professores e toda a equipe pedagógica da escola. Infelizmente não conseguimos parar toda a escola. Então a equipe de limpeza e cozinha continua trabalhando e nós discutimos sobre todas as reclamações.


Quais são as dificuldades de reunir a comunidade escolar?
Existem as questões de horário. Nós já tentamos diferentes horários, mas mesmo assim a participação é muito pequena. Os únicos momentos em que temos uma participação mais efetiva da comunidade é na reunião de início de ano, em que contamos com aproximadamente 150 pais enquanto temos 637 alunos. É representativa, mas está bem distante do que seria o ideal. E nas entregas de boletim nós temos conseguido trazer mais pais. Até porque nós restringimos: o boletim tem uma data para ser entregue e apenas para os responsáveis, porque é o momento de tirar dúvida, de ver porque a nota foi baixa, de ver o que a criança está precisando.


Mas vemos que os momentos de conselho de classe, que são para discutir, porque a discussão não é tão individual do aluno, mas do todo da escola, a participação é muito pequena. Os pais vêm mais quando há um problema com o “meu” filho, mas quando há um problema com a sala ou geral eles não vêm para discutir.


Isso ainda é um nó para nós, porque não é de agora que se discute a gestão democrática, mas fazer com que ela se efetive não é tão simples assim. Nós precisamos de uma democratização participativa e não apenas representativa. Nós temos as instâncias que representam, mas a participação não é a ideal ainda.


Qual foi a reação da escola?
Nós levamos um susto. Vimos a nossa escola exposta. Até porque mais do que tudo ali eram colocados os problemas e quando a população acaba conhecendo a escola só em função dos problemas, ela não tem a noção de toda a realidade. Isso foi triste para nós, porque mesmo havendo um problema de estrutura, existe a parte pedagógica que nunca deixou de acontecer. E isso foi posto em xeque também em função das questões de estrutura. Então foi um choque para nós, porque pensamos: como vamos lidar com isso?


Porque se formos ver, as postagens da Isadora não são um problema, de forma alguma. Porque ela relata algumas coisas que acontecem na escola. O problema são as pessoas que formam opinião sem ter o conhecimento da realidade, apenas lendo aquilo. Isso que é o preocupante para nós. Porque a nossa escola esse ano conseguiu ir para a final de dois concursos educacionais, o trabalho tem sido feito, no Ideb nós atingimos a nossa média para 2019 (Veja os índices da escola em “Diário de Isadora Faber – uma versão”). Então existe um trabalho pedagógico sendo feito e acabou que as pessoas em função de problemas estruturais específicos passaram a perceber nossa escola como uma escola problemática.


Quais são os prós e contras do Diário de Classe na sua visão?
Eu acho que algumas coisas foram feitas de uma forma meio conturbada, mas não negamos que beneficiaram a escola, como exemplo a estrutura. Há muito tempo questionamos o fato de se repassar verbas diretamente para a escola. Porque, na verdade, a escola não recebe nenhuma verba. Quem recebe é a APP. Mas, se estamos em uma escola onde a comunidade não é participativa, não temos pessoas que possam fazer a utilização dessa verba. Sem contar que quando pensamos em verba pública, existe uma série de documentos e é muito difícil termos as pessoas para fazer a utilização desse dinheiro. Esse foi o nosso nó. Não tínhamos mais uma APP ativa, então não tinha como usar esse dinheiro. Existe também uma verba descentralizada na nossa rede, onde a Secretaria de Educação passa um dinheiro que, ao invés de a própria Secretaria fazer a utilização, eles passam para que a APP faça, para a manutenção predial. O ideal seria que o próprio departamento responsável na Secretaria fizesse isso, mas acaba vindo para a escola. O que poderia ser bom em alguns momentos acaba sendo conturbado, porque o dia a dia da escola já tem muitas coisas a serem resolvidas. Nem sempre existe tempo para pararmos e discutirmos questões de manutenção. Até porque as pessoas que trabalham na escola com formação específica de pedagogia e licenciatura não têm essa qualificação para discutir material de construção. Então isso para nós é um nó, algo que é difícil sem a participação dos pais que tenham conhecimento.


Mas, para mim, o que houve de mais positivo nisso tudo foi a questão da sacudida que deu nos alunos. Os alunos se sentiram muito tocados por ver a escola sendo exposta de uma forma negativa. Eles pensaram “a nossa escola tem problemas, mas nossa escola é boa, não queremos sair daqui”. Então eles se preocuparam com esse movimento de mostrar que tem problema, mas se nos unirmos vamos conseguir melhorar. Essa tomada de consciência e de trabalhar coletivamente foi muito legal.


Como a escola trabalha o acesso às redes sociais?
Até pouco tempo, lidávamos com internet com filtro. Então, sites de relacionamento não podiam ser usados na rede municipal. Hoje é liberado, porque o filtro deixava a rede muito pesada. Isso é muito complicado, porque acabamos permitindo que a informação circule muito rápido. E essa informação acaba muitas vezes chegando de forma descontextualizada. Foi o que aconteceu com algumas situações aqui da escola. Por exemplo, alunos comendo na aula de história. Pra quem via era um absurdo, mas não era relatado que os alunos estavam degustando os pratos típicos que eles trouxeram de uma pesquisa de etnias. Existe uma grande diferença na forma como isso foi colocado.


Isso foi no Diário?
Foi no início do Diário. Foi uma das coisas que eu pedi que retirasse. Eu acho que a maior preocupação que a escola tem e que não vai conseguir esvaziar essa discussão tão cedo é a forma de como hoje em dia é preciso ter uma responsabilidade muito grande sobre qualquer informação que vai ser veiculada. Como a informação é muito rápida, a responsabilidade com tudo o que se publica é muito grande, porque ela pode causar danos muito sérios. Essa informação vai se transformando e chega uma hora que você não reconhece mais aquilo que você publicou. Essa é a nossa preocupação, porque, quando são relatadas as postagens feitas pela nossa aluna, não existe problema. O problema são as coisas que são comentadas sem conhecimento da realidade de fato.


Acredito que se nós, profissionais da escola, formos nos posicionar no Diário de Classe, não vai ser saudável para nenhum de nós pela proporção que a coisa tomou. Sinceramente eu não acompanho o Diário de Classe. As páginas que eu acompanho são a minha pessoal e a página da escola, onde relatamos tudo o que vem sendo realizado na escola.


Acho que saímos de um ano muito cansativo, porque lidar com a exposição não é fácil. Quando pensamos em um ambiente de escola ideal, pensamos em tranquilidade, num espaço onde as crianças possam interagir e nós tivemos nossa escola muito invadida durante um tempo. Retomar a tranquilidade da escola não é fácil. Então às vezes tem educação física, mas tem que parar tudo, porque tem alguém filmando no corredor. Então chega. Já esclarecemos o que tinha de ser esclarecido. Queremos retomar nossa tranquilidade, porque existe muita demanda na escola. Ainda é um trabalho árduo, mas pensamos que em meio a tudo isso nós temos uma equipe que se manteve em pé.


Na página existem elogios a professores e à estrutura da escola. Não são só negativas. Mesmo assim, há um mal-estar entre os professores a Isadora?
Se formos pensar, a Isadora em si é uma menina extremamente tímida, que pouco fala. Em sala de aula ela pouco fala com os alunos. Eu percebo na fala dela – ela uma ou outra vez veio me procurar – que há mais dos próprios colegas uma “perseguição” do que dos professores. Querendo ou não, a comunidade educativa não aceitou muito bem o Diário. Porque ele iniciou muito bem, mas depois, o que o pessoal vinha relatar é que tinha virado um campo de guerra. E que se a ideia era ajudar a escola, não deveria ter sido levado por esse caminho e sim juntar todo mundo e ver o que pode ser feito para melhorar.


É triste quando percebemos que algumas relações estremecem, mas acho que foi muito mais entre alunos do que com os profissionais. De vez em quando eles vinham me falar não de coisas que a Isadora tenha escrito, mas comentários que surgiram de algo que ela postou, mas a escola procurou manter uma postura ética e profissional. Houve momentos em que os alunos queriam fazer alguma coisa para mostrar que basta, a escola tem problemas, mas é boa. Nós percebemos que eles tiveram essa angústia.


Pelo que você falou, o Diário ajudou a dar uma sacudida nos alunos. Você acha que ela deve continuar o Diário? Se deve, como, na sua opinião?
Existem espaços para se discutir cada coisa. Eu acho que um Diário é um recurso onde esgotamos as possibilidades da forma como foi feito. Porque ele começou primeiramente direcionado para os políticos. Legal que os políticos vejam, porque nós nunca recebemos a visita de um vereador, por exemplo. Só que tendo os problemas ali resolvidos na questão de estrutura e de professor, começaram a surgir outras demandas, que nunca paramos para falar antes dentro da escola e que foram postas lá. E quando foram postas lá, o público geral formou uma opinião sobre aquilo sem saber de fato o que era.


E a escola tem as suas regras. Eu não concordo e vou continuar não concordando com a exposição de pessoas.


Acho que existe um espaço para se discutir tudo e instâncias. Eu acho que os diários de classe deveriam existir, sim, mas feitos de uma forma coletiva com a escola. Eu acho que é isso o que falta. Se é um diário, relatar a escola dando voz a todo mundo que quer falar. Acho que isso seria interessante.



A Isadora tem um senso crítico aguçado e outros alunos com quem conversei também. Como você avalia isso? Não é algo positivo?
É extremamente positivo, porque quando falamos em formar um cidadão crítico e participativo, nós estamos conseguindo atingir. A única coisa que nós procuramos é que não seja a crítica pela crítica, mas a crítica para construir algo melhor. Se tem a crítica, o que vamos fazer a partir daí? Acho que esse é o ponto principal e que todos os diários têm de pensar.


Querendo ou não nós recebemos críticas em relação ao Diário. Recebo ligações de pessoas dizendo “quando vocês vão dar um fim nesse Diário?” Nós convivemos com isso até hoje. Nós dizemos que nunca vamos tolher a liberdade de expressão. As pessoas têm direito. Aqueles que não estão confortáveis, nós convidamos para conhecer a escola. Esse é um convite que fizemos abertamente e aí as pessoas tiram suas próprias conclusões. 

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