Universidades reúnem o que há de melhor na inteligência do país, mas modelo precisa ser repensado

Avaliação é do escritor e ex-professor Cristovão Tezza, autor do recém-lançado “A tirania do amor”. Para ele, ensino médio é outro grande entrave

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bom professor na sala de aula

Cristovão Tezza: experiência de duas décadas em sala de aula transparecem na obra do premiado escritor (foto: Guilherme Pupo)

Quando, em julho de 2007, lançou O filho eterno (Record), romance ganhador de oito prêmios nacionais e traduzido em diversas línguas e países, Cristovão Tezza tinha deixado a docência já havia sete anos. Em 2000, após concluir a pesquisa de doutorado sobre o filósofo e lingüista Mikhail Bakhtin (1895-1975), achou que o professor e o escritor não eram mais conciliáveis.

Hoje, quase duas décadas após essa decisão, tem produzido, além de ficção, obras de reflexão sobre a literatura e suas relações com outras dimensões do conhecimento. E  reconhece que as marcas do professor ainda estão presentes, como no recém-lançado A tirania do amor (Todavia, 2018), livro com fortes tons da realidade brasileira atual em que o protagonista abandonou a academia após o fracasso de uma tese. Leia, a seguir, a entrevista que o escritor concedeu por e-mail, sobre sua obra e a vida universitária no Brasil.

Você julga ter sido um bom professor?

Difícil julgar em causa própria, mas penso que sim. Do ponto de vista prático, nunca faltei às aulas sem aviso prévio ou descumpri datas. Li e corrigi literalmente milhares de textos de alunos. Preparei meu próprio material didático (que resultou em dois livros com a parceria do linguista Carlos Alberto Faraco, meu mestre de muitos anos: Prática de texto e Oficina de texto, pela editora Vozes). Criei um bem-sucedido programa de leitura literária, em paralelo às aulas de língua portuguesa; até hoje vejo comentários no facebook de ex-alunos sobre a “lista de livros do professor Tezza”. Mas na virada do ano 2000, ao voltar do doutorado, percebi a passagem do tempo; a empatia com a novíssima “geração celular” já não foi a mesma. Comecei a me sentir cansado da sala de aula, e com o projeto acadêmico mais ou menos esgotado. A ficção começou a tomar conta da minha vida. Ou eu entraria no programa de pós-graduação (e não havia sentido em ficar fora dele), e então seria completamente absorvido pelo trabalho, ou sairia da universidade. Não dava mais para conciliar o escritor com o professor. Pedi demissão (faltavam dez anos para a aposentadoria), e não me arrependo. Fiz a coisa certa no momento certo.

Quais os atributos essenciais de um bom professor?

Não há um modelo único de bom professor. A aprendizagem, que tem sempre mão dupla, é um processo variado, bastante idiossincrático, intuitivo. Digamos assim, genericamente: gostar do que faz, como em tudo na vida. Uma boa formação acadêmica. Equilíbrio entre empatia, alguma generosidade e distância formal. Método, organização. Enfim, estou elencando traços culturais relevantes em qualquer profissão ou trabalho, alguns princípios civilizadores. É preciso considerar também a faixa docente: em vários aspectos, as qualidades de um professor do ensino fundamental não serão exatamente as mesmas de um professor de pós, por exemplo.

Em O professor, vemos em meio à narrativa alguns dos vícios da vida universitária brasileira: criação de feudos, excessiva ideologização, burocratismo, vaidades, disputas de poder. Como avalia nosso ensino superior?

Bem, aprendi nos meus anos acadêmicos como é difícil elaborar opiniões e teses sem uma boa base de dados, estatísticas, informações, sob critérios objetivos. O critério objetivo aqui são os índices de excelência da universidade brasileira, que, na média, são baixos e decepcionantes. Todos sentem que alguma coisa vai mal, e não somente pela clássica “falta de verbas”. Há um gigantismo burocrático no modelo da universidade pública brasileira, que nas últimas décadas foi inteira formatada quase que sob um delírio ideológico de reprodução do próprio Estado. Corporações sindicais de professores e funcionários acabam tendo um poder desequilibrado e desequilibrante do espírito e dos objetivos públicos funcionais da universidade. Há mesmo certos padrões civilizados básicos que foram ao chão: por exemplo, nas últimas eleições, uma comissão de reitores de universidades públicas e laicas, todos em exercício do cargo, foi a Brasília declarar apoio a um dos candidatos. O assustador é que, parece, ninguém achou que isso fosse eticamente inaceitável. Ao mesmo tempo, o desastre monumental do ensino médio brasileiro (e acho que o ensino médio é a tragédia maior da nossa educação e da sociedade brasileira, mais grave e mais danosa do que a própria crise do ensino superior) acabou jogando muito para baixo o padrão universitário. Pela minha experiência de professor, sei o quanto a qualidade do aluno que entra na universidade melhora o padrão do ensino. O modelo inteiro tem de ser radicalmente repensado. Quanto à vaidade, feudos acadêmicos, disputas de departamento, tudo isso são traços universais do ensino desde a academia de Platão. A questão realmente grave é estrutural: o que fazer para valorizar e potencializar de fato a inteligência acadêmica brasileira.

Que estruturas mudaria no ensino superior brasileiro, público e privado?

Sinceramente, não sei. Estou afastado da vida acadêmica já há quase dez anos. Olhando de fora, penso que uma descentralização do modelo permitiria, de fato, uma autonomia real das universidades públicas. Também acho que, pelo fracasso da utopia atual (o vínculo universal entre ensino, pesquisa e extensão), é preciso sim privilegiar centros de excelência, áreas específicas de atuação, etc. O que é importante lembrar é que, de fato, o melhor da inteligência brasileira, num imenso leque de áreas, está na universidade. Fazê-la funcionar melhor, portanto, é crucial para o processo civilizador do país. E a questão do ensino superior está indissoluvelmente ligada à qualidade do ensino fundamental e do ensino médio.

Quanto o escritor Cristovão Tezza deve ao professor Cristovão Tezza?

Gosto de fantasiar que a universidade não influenciou em nada a minha literatura, uma ingratidão típica de escritor. Mas é claro que duas décadas em sala de aula, fazendo mestrado, doutorado, lendo e produzindo textos acadêmicos, tudo isso mexe com a produção literária. O difícil é localizar essa influência. Arrisco dois pontos: passei minha vida acadêmica lendo diariamente textos de estudantes de 18 a 22 anos de idade. Fui acompanhando o “contemporâneo absoluto”; só eu envelhecia. Isso deixa marcas. O segundo ponto é, em certa medida, filosófico: entrei na universidade (tardiamente; fiz vestibular com 25 anos) com um espírito algo selvagem da contracultura, da vida alternativa, de um certo irracionalismo impulsivo e compulsivo. As primeiras aulas de linguística (devo isso ao mestre Faraco) subitamente começaram a me familiarizar com o que chamo de “linguagem da ciência”. Foi um choque “epistemológico”, digamos assim. Isso também deixou marcas e mexeu com as pretensões avulsas da minha cabeça então orgulhosa.

Tanto em O professor como em A tirania do amor vemos personagens portadores de teses que fazem leituras explicativas do país, seja por meio da linguagem ou da relação de cultura e eficácia econômica. Essas grandes sínteses ainda fazem sentido?

Explicações totalizantes não fazem sentido; no entanto tentamos, mal rompe a manhã, como diz o poeta. O Brasil sempre viveu sob a síndrome da autoexplicação: estamos permanentemente atrás de raízes, fundamentos, formações de origem, causas e culpas genéricas etc. Há fraturas demais em toda parte que precisam ser de algum modo interligadas para fazer sentido. Na ficção, apenas tento dar voz, em casos isolados, a esse desejo instintivo de síntese.

A tese de Therèse, de O professor, define as relações no Brasil como pautadas pela ironia, pelo não dito, pelo subentendido. É curioso, visto que uma das nossas matrizes, a portuguesa, é caracterizada pela literalidade absoluta. Seria algo reativo?

Não havia pensando nesse contraste da ironia brasileira com a clássica literalidade lusitana, o que é verdade, e engraçado. Mas, nesse caso, acho que a razão da ambiguidade dos nossos subentendidos seria mesmo uma jabuticaba brasileira: desde o século 17, à medida que a escravidão foi formatando econômica e culturalmente, de uma forma esmagadora, a vida brasileira (e de um modo direto, imediato, dentro de casa, por assim dizer, ao contrário da vida na metrópole portuguesa), a linguagem cotidiana foi duplicando seus sentidos, porque o horror da escravidão precisava ser “naturalizado”. A urbanização teve um papel crucial nesse processo, que entre nós atingiu seu ponto máximo no século 19: brancos, negros e pardos, homens livres, escravizados, libertos, alforriados, todos convivendo cotidianamente quase que ombro a ombro, teriam na “dupla linguagem”, no subentendido, na máscara linguística, a simulação civilizatória, que pressionava cada vez mais em toda parte. Simular era uma condição de sobrevivência física e moral, e isso teria passado à “gramática da língua”, segundo Therèze. Não sei se a tese se sustenta (provavelmente haverá mais variáveis em jogo), mas a ideia me parece ficcionalmente interessante.

Nos dois livros há também uma enorme dificuldade nas relações entre jovens e adultos, sendo que os jovens parecem tender a um radicalismo carente de elementos para a leitura do mundo. Em Literatura à margen (2018), você analisa esse fenômeno – de gerações de jovens mimados – como cíclico. É isso mesmo?

Imagino que a contracultura que se fermentou ao longo dos anos 1950, após a Segunda Guerra, e explodiu no célebre movimento de 1968, é a raiz fundamental do nosso tempo. O radicalismo juvenil é clássico: jovens somos meio incompletos, radicalmente sinceros, inseguros, às vezes desmiolados mesmo, e o peso da civilização e de seu controle, com a ajuda da própria biologia, vai nos amadurecendo e equilibrando. Mas esse processo universal de espírito juvenil de rompimento, uma marca tipicamente romântica, se exacerbou a partir dos anos 1960 em função de outras liberdades que entraram no cardápio civilizador para (felizmente) não mais sair dele: a independência das mulheres, a implosão do racismo de Estado, as urgências identitárias, a urbanização acelerada, a pauta dos direitos do indivíduo sobre a pressão social, tudo isso impulsionado, poucos anos depois, de forma exponencial, pelo advento do mundo digital e da internet. A passagem de um quadro cultural a outro nunca foi tão rápida e violenta como a que vivemos no presente. Processos que em outros tempos levariam literalmente um século para se consolidar, numa lenta substituição de padrões de comportamento, hoje parecem acontecer em pouquíssimos anos. Para entender o que está acontecendo — o que não é simples — talvez seja melhor recorrer a pensadores sociais de assimilação e transformação das culturas (o exemplo que me ocorre é Norbert Elias), do que simplesmente à mecânica das infraestruturas político-econômicas, que foi o forte do século 20 a partir do modelo marxista. Com um pouco de otimismo, diria que a tendência seria naturalmente alguma estabilidade; o que não podemos perder é a medida da civilização, porque na história humana absolutamente nada é garantido para sempre. É muito fácil regredir.

O Otávio de A tirania do amor faz operações complexas e sínteses matemáticas com facilidade, por meio das quais extrai sua compreensão da realidade. Como você enxerga esse crescente domínio da lógica de um mundo estruturado sobre grandes bases de dados e padrões daí decorrentes?

O caso do meu personagem é praticamente o de uma síndrome única: pessoas capazes de extraordinária habilidade matemática, num estalo de dedos. Ele tenta salvar sua vida pela paixão da razão, e de certa forma esta “matemática da vida” estrutura o meu romance. Mas, na vida real (como, aliás, o romance acaba por demonstrar por vias tortas), a lógica ou a matemática que movem a complexidade do mundo não são muito úteis para cuidar das paixões pessoais. Acho que todo mundo vive em boa parte por força do acaso e das emoções, esforçando-se entretanto por se manter equilibrado no fio da razão. Afinal, a espantosa complexidade operacional do mundo atual, tudo que se exige para que as coisas continuem minimamente funcionando, a máquina da lógica e da eficiência, entra em choque com nossa frágil cabeça. Mas não tenho medo da tecnologia — até porque, em todos os momentos históricos em que ela transforma os padrões do mundo, o processo costuma ser irrevogável. Continuo otimista: acho que a criação artística de distopias tecnológicas dominando a vida humana (um tema hoje bastante recorrente na literatura e no cinema) é por si só a defesa da condição humana, o nosso permanente sinal de alerta.

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