Reflito sobre o que disse

Como o uso do rádio no ambiente escolar em diversos estados brasileiros tem ajudado alunos a produzir coletivamente, perder a vergonha, estruturar o raciocínio e melhorar o português

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Gustavo Morita
Aluna faz entrevista com candidatos que querem entrar na rádio da EMEF Prof. Julio Marcondes Salgado

Às margens do rio Tapajós e Arapiuns, um aluno carrega óleo diesel para gerar a energia de uma rádio no meio da Floresta Amazônica. Nos troncos das árvores, em cima de canoas que flutuam por lagos e igarapés, e dentro da escola, os estudantes se preparam para produzir mais um programa da Rádio Mocoronga, uma rede de comunicação estruturada a partir de grupos de jovens repórteres distantes do centro urbano de Santarém (PA), cidade que conta com mais de 300 escolas da rede municipal. “A ideia de utilizar o rádio para promover a formação do jovem é porque a gente acredita no potencial da comunicação como mediadora em processos de educação e na valoração da identidade cultural das comunidades”, afirma Fábio Pena, coordenador da Rede Mocoronga de Comunicação, que faz parte do Projeto Saúde & Alegria, organização não governamental que atua desde 1987 na região e atende cerca de 150 comunidades.

Das 30 escolas contempladas diretamente pela Rede, algumas decidiram aderir ao projeto da ONG e incorporaram ao cotidiano escolar as produções radiofônicas. “O rádio é utilizado a pedido dos professores de português e também de história. Trabalhamos interpretação de texto e redação, além da socialização dos alunos através de conteúdos didáticos. Também trabalhamos informações de uma forma geral. Atualmente, temos feito um trabalho para que os alunos entendam como se prevenir de enchentes”, conta o professor de informática Mauro Duarte, da Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, da Comunidade de Maguari, no município de Belterra.

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Protagonismo e participação
Assim como Mauro, docentes de outros locais do Brasil utilizam o rádio para trabalhar conteúdos pedagógicos com seus alunos. Desde 2007, o programa federal Mais Educação, que promove a educação integral no país, sugere que a rádio escolar seja utilizada dentro do ambiente formal da escola como atividade extracurricular.

Em São Paulo, incluir ao cotidiano escolar uma produção coletiva de comunicação através do rádio virou lei em 2002 através da Secretaria Municipal de Educação. Nessa época, o Núcleo de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) era parceiro na implementação do projeto no município. A partir de 2005, o projeto Educom.rádio deu lugar ao projeto Nas Ondas do Rádio. Além do rádio, que foi o veículo que iniciou o programa dentro da rede, o projeto se ampliou para outras mídias e atualmente atende cerca de 7.000 alunos. No entanto, 80% das escolas ainda preferem utilizar o rádio na hora de trabalhar conteúdos relativos à produção de comunicação.

Para o coordenador do programa Nas Ondas do Rádio, Carlos Alberto Mendes de Lima, o projeto possibilita integrar melhor o aluno e a comunidade. “Muitas vezes, o grande problema das escolas é a comunicação. Na Educomunicação, a gente prima muito pelo protagonismo e a participação do aluno. Precisamos ampliar a possibilidade de participação do aluno na hora de integrar a comunidade”, afirma Carlos Alberto (saiba mais sobre Educomunicação no box na página 102).

Entraves na comunicação
Na Escola Municipal Júlio Marcondes Salgado, na zona norte de São Paulo, os alunos do 8º e 9º ano montaram uma rádio escolar com o auxílio do professor de educação física André Jonatas Barbosa. Além de uma programação musical, a rádio JMS 2.0 também desenvolveu uma equipe de repórteres mirins para trabalhar matérias jornalísticas que ajudam a desenvolver o texto e a leitura. “O projeto ajuda os alunos a melhorarem seu desempenho de maneira natural. Durante o processo de redação, eles trabalham o português. Na hora de mapearmos um evento que eles vão visitar, nós trabalhamos a questão geográfica. Os professores também dizem quais alunos têm mais facilidade para trabalhar determinado assunto”, afirma o professor André.

Um dos projetos da rádio é o Com livro, com afeto, em que os alunos aproveitam para conversar sobre obras que eles acham interessantes. “Gravamos o programa de 15 em 15 dias. É como se fosse uma resenha em vídeo. Nós fazemos a conversa e damos a opinião sobre o livro. Geralmente, esse livro está disponível na biblioteca da escola”, explica a estudante Bianca Tavares, do 9º ano do ensino fundamental.

Para o professor André, a rádio escolar poderia ter as atividades ampliadas. Segundo ele, há apenas uma aula por semana e o número de vagas é restrito: somente 22 crianças podem participar.

Produção coletiva
Enquanto as produções coletivas de comunicação engatinham no ambiente escolar formal, estudantes trabalham a Educomunicação em um pequeno sobrado na zona oeste da capital paulista. Três alunos da Escola Estadual professora Lucy Anna Carrozo Latorre, localizada em Osasco, na Grande São Paulo, descascam milho e conversam sobre o programa de rádio que irá ao ar em instantes.

“A gente está falando de produção coletiva de comunicação. Por trás de cada programa há bastante tempo de convivência, de experiência de produzir coletivamente entre essas pessoas. O fato de estar fazendo rádio em grupo colabora para a perda de vergonha e a construção do raciocínio”, explica Isis Lima Soares, que há 18 anos participa dos programas de rádio do projeto Cala-boca já morreu, instituição sem fins lucrativos que nasceu como um braço do Instituto GENS de Educação e Cultura.

Ao lado de Isis, o professor de filosofia Jefferson Santana conta por que trouxe os três alunos da escola Latorre para um programa de rádio do Cala-boca já morreu. “Por influência desse espaço em que nós estamos é que eu ingressei na Filosofia e fui dar aula para os alunos da Latorre. Lá, eu expliquei para a diretora que eu tinha o desejo de relacionar a minha matéria com a produção de comunicação, e criamos um programa de rádio. Eu acredito nesse campo de estudos e venho aplicando isso dentro da sala de aula”, afirma o professor Jefferson Santana, que depois de seis meses à frente do projeto foi mandado embora da escola por questões “burocráticas”.

“Uma visão curta impede que a coisa continue. Enquanto dura nós vemos que o resultado é bom para todos. De 2001 a 2003, Sorocaba, no interior de São Paulo, contou com uma secretária de Educação que entendia que trabalhar com as tecnologias digitais era trabalhar conteúdos escolares. Durante dois anos, nós tivemos essa continuidade. A prefeitura nos possibilitou formar professores, coordenadores, supervisores, famílias, funcionários e alunos. Era um conjunto de pessoas se formando para o que chamamos de direito de comunicação”, relembra a professora Grácia Lopes Lima, que ensina a Educomunicação para seus alunos de pedagogia na Faculdade Sumaré, em São Paulo.

Estação brincadeira
No Rio de Janeiro, o radialista, pedagogo e arte-educador Zé Zuca tem incentivado os professores da rede municipal a utilizarem o rádio para trabalhar com seus alunos. Ao lado da Secretaria de Educação, ele decidiu criar o projeto Estação brincadeira nas escolas, uma seleção de diversos programas infantis veiculados na rádio MEC AM. Segundo a Secretaria, o projeto foi lançado em agosto do ano passado e os professores da pré-escola e do ensino fundamental do Rio receberam CDs com as gravações dos programas infantis para utilizar o material com seus alunos. “As turmas ouvem as faixas em uma rodinha. Temos rodas de conversa, roda de leitura, e a partir da audição dessas faixas realizamos alguma atividade”, explica a diretora Joelma Vieira, da escola municipal CIEP Mestre André, em Bangu, no Rio de Janeiro.

Zé Zuca é uma voz conhecida nas ruas da capital fluminense. Desde 1995, ele tem utilizado uma forma similar ao do Educomunicador Mário Kaplun para disseminar a comunicação nas escolas do Rio. “A rádio Maluca – programa de radioteatro infantil veiculado pela MEC AM – já seguia em fitas cassetes para as escolas e era utilizado em salas de leitura. Esse projeto chegou a alcançar 150 mil pessoas e ficou muito popular, principalmente nas escolas municipais”, diz o radialista, que atualmente pode ser ouvido com o mesmo programa nas rádios Nacional e MEC AM.

Programa de transformação
Para a pesquisadora Adriana Ribeiro, Mestre em Comunicação, Educação e Cultura em Periferias Urbanas pela FEBF/Uerj, produzir um programa em uma rádio educativa tem suas limitações. “Se a gente for pensar na palavra educação, ela remete a muita coisa. Uma rádio comunitária talvez seja mais educativa porque as pessoas se encontram, podem discutir seus problemas, é muito mais efetivo no sentido de transformação, que é uma das propostas da educação, do que você ter um programa didático no rádio”, alerta a professora.

Em sua pesquisa de doutorado, ainda em andamento, Adriana tem comprovado que mais de 60% das crianças se consideram ouvintes de rádio. Na década de 1990, o programa “Rádio Maluca”, veiculado na MEC AM, chegou a ser o quarto lugar em audiência no Rio de Janeiro, perdendo apenas para grandes rádios como Globo, CBN e Tupi. “O fato de não haver programas para esse público é mais uma questão da história do veículo, de como ele se apequenou em função de uma redução de aporte de verba, pois não há mercado. Nesses programas do Zé Zuca, as próprias crianças falam. É um índice que parece ser bem forte no tocante da criança pelo programa, quando há outras crianças fazendo”, afirma a pesquisadora.

Na Amazônia, a produção dos alunos da Rádio Mocoronga, do começo do texto, se tornou mais popular do que o esperado. Os programas das “rádios-poste” – alto-falantes colocados em árvores no meio da floresta – também são veiculados na Rádio Santarém AM, e atualmente alcançam mais de 1,2 milhão pessoas no dial.

Incluindo o aluno
Fazer uma rádio escolar de qualidade também pode ser uma forma de integrar alunos com diferentes dificuldades de aprendizado. Em Brasília, o Centro de Ensino Fundamental do Bosque, localizado em São Sebastião, desenvolveu um projeto de rádio a partir da sala de recursos que atende estudantes entre 11 e 15 anos. Segundo o professor de história Moacir Alfran, a rádio foi criada para atender especialmente os alunos portadores de deficiência mental, deficiência intelectual e transtornos de déficit de atenção, mas todos os alunos podem participar da Rádio Bosque. “A música é uma excelente coadjuvante no desenvolvimento do jovem adolescente. Nessa fase é que eles desenvolvem elementos psicológicos como atenção, concentração, emoção, memória, linguagem, pensamento e aprendizagem”, explica o professor Moacir, que também é musicoterapeuta.

De acordo com ele, os alunos portadores de deficiências que participam do projeto da rádio mostraram melhoras significativas no desempenho escolar. “Os estudantes são atendidos nas áreas de português, matemática, ciências, história e geografia. Foram os próprios alunos que sugeriram o rádio como uma dessas ferramentas de apoio para o processo ensino-aprendizagem. Muitos deles assumiram papel de destaque em suas respectivas séries”, afirma.

Enquanto o projeto durou na Escola Estadual Professora Lucy Anna Carrozo Latorre, em Osasco, os alunos também puderam desenvolver novas formas de aprendizagem. “O professor não dava uma aula que era apenas proposta pela escola. Ele fugia do contexto para a gente interagir em grupos. Isso ajudava bastante para o desenvolvimento das nossas opiniões”, diz o estudante do ensino médio Lennon Buracoff.

Para Jefferson Santana, incluir o aluno na produção de rádio foi essencial para transmitir o conteú-do da sua disciplina. “A filosofia se encaixa na produção de comunicação, na compreensão de mundo, na compreensão epistemológica. Mas como é que você tem um cidadão reflexivo sendo que ele não tem espaço para dizer o que ele pensa e o que ele acha das coisas? A rádio pode ser esse momento onde eu reflito sobre as coisas que eu falei”, conta o professor.

O que é educomunicação?

Nos anos 1970, o argentino e comunicador Mário Kaplun promoveu um intercâmbio de áudio em regiões agrícolas do Uruguai através da cassete-foro, fita cassete que circulava em duas comunidades distintas, possibilitando a cada uma delas gravar uma mensagem em um dos lados da fita. Com o tempo, a prática de Kaplun, assim como de outros intelectuais latino-americanos se tornou conhecida na América Latina e ganhou nome e conceito. “A educomunicação é uma forma de intervenção social. Ela visa fortalecer os indivíduos e mostrar a força política que eles têm usado nas tecnologias que estão presentes nas sociedades. Hoje a gente diz que educomunicação é o mesmo que educação pelos meios de comunicação. É possível as pessoas passarem a pensar no que dizem, a ouvir a própria voz, ver a própria imagem e fazerem uso da tecnologia para comunicar o que sentem e pensam”, afirma a professora Grácia Lopes Lima, da Universidade de São Paulo (USP).

Ao lado do professor Ismar de Oliveira Soares (USP), Grácia ajudou o Núcleo de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo a implantar a proposta da Educomunicação nas escolas. Segundo ela, o rádio é a primeira das tecnologias que deve fazer parte de um trabalho na perspectiva da Educomunicação. “A pessoa pode ser analfabeta, pode ter dificuldades motoras enormes, mas ela pode utilizar a tecnologia para ter o que dizer sobre todos os assuntos do mundo”, diz.

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