Redundâncias revoltantes

Vamos admitir: redundância, esse irritante chover no molhado, não é “monopólio exclusivo” de ninguém

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Terry JLawrence/iStockphoto
O tema da aula é o papel dos faraós no antigo Egito, mas alguém conhece faraós da Austrália?
O meu último artigo, observei que a expressão “pessoas diferentes” é uma redundância, pois toda pessoa é diferente das outras. Por que declarar duplamente o que já deveria estar mais do que evidente numa única palavra?


Nas leituras dos textos e da vida, deparamos com inúmeras redundâncias. Dos outros e nossas. Saber identificá-las é exercício de esclarecimento conceitual, que ajuda a pensar por conta própria…


Aliás, “pensar por conta própria” é outra redundância. O ato de pensar é tarefa que cabe a cada um realizar. Pensar por conta alheia é uma forma de não pensar.
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Implicância com a redundância
Pode parecer implicância. E é mesmo! Quando alguém diz que participou de um “debate acalorado”, por exemplo, seria o caso de perguntar onde já se viu um debate digno desse nome não ser veemente e inflamado. Um debate frio não bate com o conceito de debate.


O professor de história vai começar a aula e avisa que o tema a estudar é o papel dos faraós no antigo Egito. No entanto, até onde se sabe, esse título era ostentado exclusivamente pelos soberanos do antigo Egito. Não se conhece nenhum faraó da Austrália ou da Colômbia.


Vamos admitir: redundância, esse irritante chover no molhado, não é “monopólio exclusivo” de ninguém. Ora, o que estou escrevendo? Todo monopólio é, desde sempre, por definição, “posse exclusiva”, “propriedade de um só”!


A redundância geralmente dói no ouvido e na mente, mas é ainda mais desagradável quando mexe e remexe no nosso bolso, como é o caso do “piso salarial mínimo”. Quando se chega ao nível salarial mínimo de uma determinada classe de trabalhadores, é porque já estamos no piso. Abaixo do piso será menos que o mínimo! Seria o subsolo salarial.


Podemos, certamente, questionar, no caso do piso salarial docente, se estamos pisando o piso ou se estamos pisados no piso. Tal questão, porém, extrapola os limites deste artigo.


A escola redundante
Ocioso dizer que cometi nova (e velha) redundância ao escrever que aquela questão “extrapola os limites” deste artigo, pois é próprio do extrapolar ultrapassar os limites. A palavra “extrapolar”, sozinha, seria mais do que suficiente. De fato, as redundâncias é que não têm limite!


Onde aprendemos a ser tão redundantemente redundantes? Nos bancos escolares? Diante da tela da televisão? Nos sites da internet? Para não extrapolar outra vez os limites, fiquemos com a escola. Em nosso dia a dia escolar, produzimos redundâncias… e somos por elas produzidos.


Quando, por exemplo, esperamos que os alunos respondam com as respostas esperadas, nada mais fazemos do que afirmar a rotina nossa de cada dia. A rotina que nos protege das surpresas inesperadas, porque preferimos as surpresas já previstas…


Afirmar que as redundâncias são irrelevantes é outra redundância. Basta ler com atenção para descobrir que toda escolha é opcional, que gritar baixo quase não se ouve, que o acabamento final jamais poderia ser inicial.


A redundância extrapola o bom-senso e nos leva a acreditar que comparecemos em pessoa a mais uma redundante reunião para discutir o indiscutível. Nestas reuniões, que nem sempre são a união dos contrários, estaremos presencialmente ausentes, e impessoalmente envolvidos.


A relevância da redundância
Jean-Paul Sartre nos ensinava que pensar é “pensar contra”. Pensar contra as redundâncias foi um primeiro passo. Mas agora podemos dar mais um passo e pensar contra o pensamento que pensa contra as redundâncias.


Ou seja: talvez possamos descobrir a relevância educativa da redundância.


Redundâncias revoltantes nos chamam a atenção para coisas relevantes. Se nos revoltamos com a redundância é porque voltamos a ter consciência daquilo que passava batido. Se percebemos que a redundância é realmente recorrente, já começamos a nos libertar de suas correntes.


Quando denunciada, a redundância torna-se útil. Ao redescobrir a singularidade dos faraós do antigo Egito, podemos repetir  e ampliar a brincadeira com o rei do reino, o imperador do império e o presidente da república.


A escola que toma consciência de suas redundâncias tem as melhores condições para fazer a crítica bem-humorada de suas rotinas, abrindo espaço para novas operações e necessárias superações.


Quando Carlos Drummond de Andrade escreveu o primeiramente escandaloso e agora tão aceito e elogiado poema sobre a pedra no meio do caminho, fez da redundância da pedra ocasião especial para a reflexão sobre as pedras que existem em todos
os caminhos.


E então, sim, nossa escola poderá extrapolar os seus limites, interpolando redundância e relevância, repetição e novidade, rotina e surpresa.


Para que isso aconteça, você e eu devemos dar relevância às nossas redundâncias. E percebermos que não somos educadores que trabalham com a “lógica irrefutável”. Pensemos bem: se toda lógica que se preza é irrefutável, que lógica há em mencionar a “lógica irrefutável”?


É que a lógica também se sente ilógica e insegura. E precisa repetir para si mesma que é irrefutável, irrefutável, irrefutável, irrefutável.


Uma lógica refutável, no entanto, é mais confiável. Porque tem mais a ver com a realidade humana.


*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do Núcleo Pensamento e Criatividade (NPC) – www.perisse.com.br

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