Quem precisa de utopia?

No ano que desponta, encarnaremos rotinas estereotipadas, sempre embaladas pela evocação de um futuro redentor, que não virá

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O ano novo se aproxima e, com ele, renascem as expectativas de um mundo melhor, de uma educação mais digna, de uma vida mais honrada nas escolas. Mas não, o próximo ano não será próspero, nem venturoso. As injustiças escolares persistirão, uma a uma. O desrespeito e o preconceito grassarão. Não conheceremos igualdade, tampouco eqüidade. Transformações substanciais do cenário educacional não serão testemunhadas pela atual geração. Tudo permanecerá como agora e antes.

O mundo pedagógico se tornará mais complexo e confuso, porém. As demandas burocráticas recrudescerão. Avaliaremos e seremos avaliados no limite do fastio. Ao final do próximo ano letivo, teremos despendido as melhores horas de nossas vidas a corrigir provas e trabalhos, a preencher relatórios, a convencer o mundo de que aqui merecemos estar ou, pior, a sentenciar a pertença alheia.  

Nesse ínterim, continuaremos a ensinar os alunos pobres a rezar e os ricos a trapacear. Aqui e acolá, milhões de crianças permanecerão alheias à leitura, tanto mais à escrita. Desterradas de nosso mundo comum, jamais poderão dizer do que seus olhos aqui presenciaram. E passarão como se não tivessem havido. Passarão em silêncio. Outras farão ruído, tanto e tanto. Em vão. Não serão ouvidas. E contra todas e cada uma delas nos insurgiremos, transferindo-lhes o ônus desse mesmo mundo que não mais desejamos coabitar. 

No ano que desponta, encarnaremos rotinas estereotipadas, mas sempre embaladas pela evocação de um futuro redentor que, dessa e mais uma vez, não virá. Na mão esquerda, ideais grandiloqüentes; na direita, a primeira pedra. Anestesiados pela crueza imediata do presente, nos alimentaremos de um pão mirrado, sovado pela falta de coragem de mudar travestida em indignação.

Alguns tombarão pelo meio do caminho; a maioria sobreviverá acabrunhada. Uma prostração diuturna será a reação dominante ante os clamores da matéria bruta que pede, ao mesmo tempo, expressão e talhe nas salas de aula. Ali, os dias prosseguirão sem nenhum arrebatamento. Machado persistirá ignorado; Guimarães, desconhecido; Drummond, negligenciado. Nenhuma perplexidade, nenhum inconformismo, nenhum regozijo.

Os sinais continuarão a bater, os pátios continua­rão a ensurdecer, os portões e grades a esconder. Indiferente ao passo arrastado dos dias, no entanto, a vida continuará explodindo a cada manhã na forma de empurrões, alaridos, palavrões. Estirões desenfrea­dos. Do outro lado do balcão, alegaremos cansaço, um cansaço secular e irreparável. E obteremos certa indulgência de nosso respeitável e entediado público. Mas algo penderá no ar, à espera de uma resposta – tímida ou extravagante que seja.

Com sorte, encontraremos alguma alegria incrustada nas intermitências do dia-a-dia. Para conhecê-la, será obrigatório exercitar a arte da parcimônia e da desesperança. Talvez a provemos apenas quando velhos. Justo o bastante.



Julio Groppa Aquino – Professor da Faculdade de Educação da USP –



juliogroppa@editorasegmento.com.br

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