Quando a escola não ensina

Uma camada cada vez maior de brasileiros completa o ciclo da Educação Básica, mesmo assim, persiste a parcela de estudantes que não consegue alcançar habilidades rudimentares de leitura, escrita e cálculo matemático. Como eles conseguiram chegar ao ensino médio?

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Gustavo Morita
Professora Silvia Avlasevicius: “de forma geral, os alunos decifram as letras, mas não leem de fato”

Eles frequentaram os bancos escolares por no mínimo nove anos, passaram por dezenas de professores diferentes, fizeram provas, trabalhos, diversas avaliações internas e externas. Ainda assim, dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) divulgados recentemente apontam que 8% dos jovens que chegaram ao ensino médio no Brasil são considerados analfabetos funcionais, ou seja, têm um conhecimento apenas rudimentar da língua escrita, não conseguem ler e entender textos de média extensão, nem fazer pequenas inferências. De matemática, sabem manusear dinheiro e usar uma fita métrica. Mas é só. Como essas crianças conseguiram passar tantos anos nos bancos escolares sem aprender? E por que não aprenderam?


Entre as possíveis explicações estão problemas no próprio início do processo de alfabetização – apenas a metade das crianças brasileiras estão alfabetizadas aos 8 anos – a dificuldade da instituição escolar em lidar com a diversidade cada vez maior dos alunos que chegam aos seus quadros e as características já intrínsecas ao próprio sistema educacional, como a alta reprovação no ensino fundamental e a evasão no ensino médio. 
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Década perdida
Mesmo com origens tão conhecidas, os dados do Inaf impressionam, por traçarem um diagnóstico do aumento do problema na última década. A taxa de alunos plenamente alfabetizados no ensino médio caiu de 49% em 2001 para 35% em 2011, data do último levantamento. Para se ter uma ideia dos reflexos da diminuição das habilidades adquiridas ao longo da escolaridade básica, no nível superior a proporção de alfabetizados em nível pleno caiu 14 pontos: passou de 76% em 2001 para 62% em 2011. Por outro lado, o índice de alunos no ensino médio com “nível básico” de alfabetização, em que a pessoa está funcionalmente alfabetizada, mas apresenta limitações em operações de maior complexidade, aumentou de 42% para 57% no mesmo período. O atual índice de analfabetos funcionais na etapa também reflete pequena melhora: diminuiu de 10% em 2001 para os atuais 8%.


Mas, em síntese, a constatação da pesquisa é que, embora os níveis de alfabetismo entre a população em geral venham melhorando devido à garantia de acesso à Educação Básica – os analfabetos funcionais no país caíram de 39% para 27% em dez anos -, a qualidade de ensino que a escola oferece está em queda. Há menos gente fora das escolas, mas do lado de dentro ensina-se cada vez menos.


A escola em declínio
Segundo análise feita pelo resumo técnico do estudo, uma iniciativa do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa, o esforço despendido por governos e população para manter as crianças e jovens por mais tempo na escola básica não está resultando nos ganhos de aprendizagem esperados.


“Novos estratos sociais chegam às etapas educacionais mais elevadas, mas provavelmente não gozam de condições adequadas para alcançarem os níveis mais altos de alfabetismo, que eram garantidos quando esse nível de ensino era mais elitizado. A busca de uma nova qualidade para a educação escolar em especial nos sistemas públicos de ensino deve ser concomitante ao esforço de ampliação de escala no atendimento para que a escola garanta efetivamente o direito à aprendizagem”, diz o texto.


Uma das responsáveis pela elaboração do Inaf, a professora Vera Masagão Ribeiro, coordenadora geral da Ação Educativa e especialista em avaliação escolar, acredita que o valor da escola está em declínio, o que precisa ser revertido. “Temos conseguido tirar as pessoas do analfabetismo absoluto, mas todo mundo está parando no básico. A gente não consegue evoluir além disso. Em comparação com dez anos atrás, ter ensino médio valia mais. Claro que estar na escola é melhor do que não estar, mas o avanço na inclusão foi solapado pela baixa qualidade”, avalia.


Vera diz ainda que o ensino médio é o que mais sofre com falta de qualidade, tanto por problemas intrínsecos à etapa, quanto pelo acúmulo de questões mal resolvidas no ensino fundamental. Afinal, se um aluno mal consegue ler e entender adequadamente um texto curto, como poderá refletir sobre um romance? Ou como aprender a resolver uma equação de segundo grau sem um bom domínio das quatro operações?


Para ela, os próprios jovens estão se dando conta da falta de qualidade da escola. “O ensino médio é o mais afetado; falta tudo: recursos, professores, organização, rumo. As matrículas estão diminuindo por pura falta de interesse. Os jovens não veem o valor agregado naquilo. De forma indireta, eles também perceberam o que diz a pesquisa: que a escola não ensina tanto assim”, completa a educadora.


O nó do ensino médio
A chamada “crise de audiência” no ensino médio foi confirmada por dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, divulgada em setembro. Em 2009, 85,2% dos jovens de 15 a 17 anos estavam matriculados na etapa; dois anos depois, em 2011, o porcentual caiu para 83,7%. Ao comentar a pesquisa, o ministro da Educação, Aloísio Mercadante, voltou a defender uma reformulação no currículo do ensino médio e também apontou dois pontos críticos para reverter a situação: aumentar a oferta de ensino profissionalizante e dar mais atenção à gravidez na adolescência, que cresceu de 2009 a 2011.


O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do MEC também mostra que há um baixo aproveitamento generalizado na etapa. A média nacional em 2011 ficou em 3,7, numa escala que vai de 0 a 10. Isso significa que o nível de aprendizado dos estudantes e as taxas de aprovação no nível médio não chegam nem à metade do ideal. Mesmo partindo de um patamar tão baixo, o país não tem conseguindo evoluir quase nada. Em seis anos de pesquisa, de 2005 a 2011, o avanço na nota foi somente de 0,3 ponto, o que dá uma melhora de 0,05 por ano.


Se forem analisados apenas os dados da rede pública no ensino médio, a nota do Ideb 2011 fica em 3,4, três décimos mais baixa que a média geral. Separando os resultados por estados, percebe-se que há situações ainda mais alarmantes. A nota do Pará ficou em 2,8, tendo caído 0,3 em relação a 2009. Alagoas atingiu média de 2,9, após uma queda de 0,2 em relação ao Ideb anterior. Ao todo, outros sete estados apresentaram diminuição de rendimento no Ideb: Maranhão, Bahia, Acre, Amazonas, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Paraná.


Pacto da mediocridade
Embora os dados atuais sejam alarmantes, não é de hoje que se constata a dificuldade em garantir o direito à aprendizagem, mesmo dentro da escola. O antropólogo Darcy Ribeiro chegou a cunhar a expressão “pacto da mediocridade”, designando a situação em que os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. O termo de Ribeiro é lembrado pelo professor Candido Alberto Gomes, pesquisador da Cátedra da Unesco de Juventude, Educação e Sociedade, e da Universidade Católica de Brasília, para tentar explicar como é possível que um aluno chegue ao ensino médio sem saber ler e escrever plenamente.


Na opinião de Gomes, tal cenário só acontece porque existe uma omissão pedagógica. “O aluno é visto como coitadinho e vai ‘sobrevivendo’ aos anos de estudo até chegar analfabeto no ensino médio. Diz-se que é para ele não ficar frustrado, mas isso acaba levando a uma frustração ainda maior, a de estudar e não aprender”, critica. “Pode-se chamar isso de um pacto de silêncio, de indiferença, um pacto de ignorância ou mediocridade, como definiu Darcy Ribeiro”, completa o professor.


Para o pesquisador, os avanços que vêm sendo obtidos na nota do Ideb do ensino médio são pequenos demais para que possam ser definidos como “progresso”. Mesmo as notas para o ensino fundamental, que em 2011 alcançou Ideb 5 para os anos iniciais e 4,1 nos anos finais, não devem ser comemoradas, defende Gomes. “Esses índices criam uma falsa sensação de otimismo. Muitos parecem se esquecer de que estamos falando de uma escala que vai de 0 a 10. Então 5 ainda é uma nota muito baixa.”


Audiência
O fracasso da escola de nível médio em sua tarefa de ensinar de forma satisfatória torna crescente o desinteresse pelos estudos entre os jovens. “A escola não oferece motivo para o aluno permanecer. Uma análise dos censos educacionais mostra que a queda de audiência no ensino médio vem sendo registrada já há dez anos, desde o ano de 2002”, afirma Gomes.


De acordo com o professor, o abandono é mais comum entre as camadas mais pobres, o que acaba perpetuando as diferenças econômicas, pois a recompensa financeira é alta para quem completa todo o ensino básico.  “O aluno não tem a persistência de aguentar mais três anos de estudos de 13 ou mais componentes que não se comunicam entre si para obter um resultado abaixo de modesto em termos de aproveitamento intelectual. Nessa idade eles já têm outros interesses, como o trabalho, a paternidade e a maternidade. Assim, o ciclo de pobreza continua”, diz.


Origem sistêmica
Uma tabulação de dados dos censos escolares de 2008 e 2009 feita por Leonardo Claver Amorim Lima para sua dissertação de mestrado na Universidade Católica de Brasília comprova o que Gomes diz a respeito das diferenças sociais. Cerca de 49% dos alunos do sexo masculino que tinham idade defasada em relação à série e estavam matriculados em escolas públicas do Norte e Nordeste não foram aprovados no último ano do fundamental e, portanto, não ingressaram no ensino médio. No mesmo período, entre as meninas de menos de 15 anos matriculadas em colégios privados, apenas 9% foram reprovadas no ano de conclusão do ensino fundamental.


Logo, pode-se constatar que o drama dos alunos que frequentam a escola sem aprender tem origem sistêmica, mas diversas vezes ele conta com a conivência de professores, diz Gomes. “Muitos não se sentem responsáveis, dizem: ‘o problema não é meu, você já passou por uma série de colegas e continua sem aprender, não há nada que eu possa fazer’. De fato, sozinho um professor não consegue fazer muita coisa. Mas ele deve se sentir responsável, encaminhar aquele aluno para um programa adequado da escola, seja de alfabetização, reforço, recuperação paralela, para que ele alcance um domínio relativo”, recomenda.


Questões políticas também são apontadas pela educadora Telma Weisz, especialista em alfabetização, para resultar na existência de estudantes analfabetos em séries escolares avançadas. Para que isso não ocorra, Telma diz que é necessária uma política de Estado de longo prazo, que sobreviva a vários governos. “É trabalho para uma geração inteira. Em educação, às vezes leva 20 anos para se ter resultados; não adianta exigir mudanças em dois anos. Então, ninguém vai ter uma solução mágica: é um trabalho coletivo que leva tempo. Temos de ir avançando e corrigindo os erros no caminho. Mas aqui no Brasil, quando se troca governo, em geral se joga todo o trabalho anterior fora”, afirma.


Reflexos nas aulas
A incapacidade de ler e interpretar mesmo textos simples, assim como o fato de não conseguir realizar cálculos matemáticos básicos, afeta o rendimento do estudante em praticamente todas as disciplinas. Portanto, ao chegar assim ao ensino médio, o jovem sofre com uma lacuna de conhecimentos generalizada, que dificilmente será reposta, independentemente de esforço próprio e da escola. Ainda assim, muitos professores se desdobram para não reforçar nem aumentar a exclusão dos alunos nessa situação.


Professor de Química na rede estadual de São Paulo, André Luís de Paula Moura transforma os enunciados e explicações escritas em setas, esquemas e desenhos, para poder atender e incluir a todos. “Minha lousa termina a aula parecendo um gibi ilustrado, todo colorido”, diz. O docente reconhece que a “solução” que desenvolveu junto aos alunos passa longe de resolver verdadeiramente o déficit de aprendizado. “Sei que é uma medida paliativa, que dessa forma eles estão somente conseguindo entender sobre o que trata a química, algo muito básico, mas é o que consigo fazer para que eles não fiquem ainda mais excluídos”, afirma.


Por ter estudado toda a sua vida em colégios públicos, Moura reconhece que já esperava que fosse se deparar com tal situação. Ainda que fosse uma realidade conhecida, conta que na faculdade não teve nenhuma aula que o preparasse para enfrentar o problema. “Estudei na USP (Universidade de São Paulo), uma boa faculdade, mas as aulas de pedagogia só tratavam dos grandes pensadores. O que faço em sala foi uma solução minha”, relata. E, com certeza, o analfabetismo não é uma questão pontual em sua vivência do magistério. “Tive analfabetos funcionais em todas as minhas turmas. Em geral, 10% dos alunos não conseguem ler enunciados simples.” Sua constatação empírica está bem próxima ao número registrado pelo Inaf, que encontrou 8% de analfabetos no ensino médio.


Para a professora Silvia Avlasevicius, que leciona filosofia, uma disciplina que exige muita leitura e boa capacidade de interpretação, mesmo entre os que não entram na classificação de analfabetos funcionais, a baixa habilidade na área afeta o entendimento do seu conteúdo. “Só uma minoria lê e interpreta bem. Sinto que sou uma explicadora de textos, comentando linha a linha, palavra por palavra, em vez de uma professora. Se dou um texto de duas páginas já é um drama em sala, todos acham que é muito longo. De forma geral, eles decifram as letras, mas não leem de fato”, afirma. Mais uma vez, a experiência de sala de aula coincide com os dados do Inaf, de que apenas 35% dos jovens no ensino médio têm as habilidades plenas de leitura e escrita, desejáveis para todos que concluíram o fundamental. Tendo de trabalhar com tal cenário, Silvia diz que não consegue passar da interpretação dos textos; a parte de reflexão sobre os temas abordados acaba quase inexistente. “Dou aula para classes de Educação de Jovens e Adultos em uma escola mais central, onde os temas evoluem um pouco melhor, os alunos são mais esclarecidos. Mas na outra escola, que é de periferia, com turmas regulares, a situação é crítica”, relata.


Outro problema, segundo a professora de filosofia, é que os alunos que passaram tantos anos na escola sem aprender chegam ao ensino médio sem o hábito de serem exigidos.  “Depois de tanto tempo, um professor que resolve cobrar um pouco mais de empenho é visto como ‘louco'”, diz. 


Indisciplina
A vivência nas escolas mostra ainda que a parcela de alunos que permanecem em sala de aula sem saber ler e escrever causa uma outra dificuldade para os professores: a indisciplina. “Um aluno analfabeto automaticamente representa um problema grave de disciplina. Afinal, o que mais ele pode fazer em classe além de bagunçar?”, questiona a professora de português e inglês Kátia Aires, que atual­mente atua como professora-mediadora em uma escola pública da zona norte de São Paulo.


Assim, nem que seja para preservar o andamento das aulas para o restante da turma, o professor deve fazer um esforço para incluir esse aluno em vez de, mais uma vez, simplesmente abandoná-lo. “Quando se tem turmas grandes, às vezes de mais de 45 alunos, não se trata de apenas um aluno, mas de um grupo de alunos nessas condições. O professor precisa criar estratégias para que o aluno se sinta útil, ter outros mecanismos de avaliação. Caso contrário, não consegue dar aula”, aconselha Kátia. Acima de tudo, porém, a função do docente é ensinar a todos. “O que o professor não pode é desistir, usar as dificuldades como desculpa para não fazer nada. Quem faz assim não pode se considerar um educador”, completa.


Direito e repetência
Priscila Cruz, diretora-executiva do movimento Todos pela Educação, acredita que os caminhos para melhorar a qualidade do ensino de forma geral são conhecidos por governantes e pedagogos, mas exigem coragem política e cuidado com a implementação, algo que não tem acontecido. Ela cita como exemplo o que ocorre com a progressão continuada em muitos municípios e estados. “Os alunos têm o direito de aprender sem repetência sim, mas isso significa que precisa haver um bom esquema de reforço para que eles não cheguem ao fim do fundamental sem aprender. Mas, em vez de enfoque na aprendizagem, o sistema vira só a não repetência”, afirma.


Já a falta de vontade política, diz Priscila, tem empacado as tentativas de finalmente se montar um currículo nacional. “Precisamos de uma diretriz, um documento que sirva como eixo, para que todos saibam o que o aluno deve aprender. Há gestões e gestões, ministros e ministros, todos prometem, mas não conseguem enfrentar as pressões e colocar isso em prática”, afirma.


Mais uma vez, o desenho ruim, engessado e inchado de disciplinas, é apontado com fator que atrapalha o desempenho das escolas de ensino médio. “E ainda há senadores com a coragem de tentar aprovar novas disciplinas”, critica Priscila. “O currículo também é pouco flexível; o jovem não pode exercer sua capacidade de escolha, testar caminhos, se concentrar em certa área.”


Para a diretora do Todos Pela Educação, separar o ensino médio profissionalizante daquele mais teórico, que prepara para o ingresso em uma universidade, seria um bom caminho. “Temos de flexibilizar. Por que o profissionalizante, com conteúdos básicos de português e matemática, não pode bastar como ensino médio e é preciso fazer também o tradicional?”.


Embora o número de universitários no Brasil ainda esteja aquém do desejável, dificilmente todos ingressarão no ensino superior. Então, é necessário haver opções mais interessantes para estes jovens. “Hoje, 12% dos jovens vão para a universidade. Claro que temos de aumentar esse número, chegar a 50%, 60%. Ainda assim, por que os outros 40% precisam fazer o mesmo ensino médio?”, diz Priscila.


Outro ponto primordial para conseguir atrair o jovem para a escola e fazer com que todos que estejam em sala aprendam de fato é melhorar a capacitação dos docentes. Os professores precisam não apenas de bagagem teórica, mas também dispor de um repertório de estratégias práticas para atingir, em meio a uma classe numerosa, alunos com perfis diferentes, que aprendem das mais variadas formas.







Professor reflexivo
No livro A escola e o fracasso escolar, as professoras Rosário Genta Lugli e Regina Ellero Gualtieri advogam a incorporação nos cursos de pedagogia e licenciatura de um sistema próximo ao da residência médica, algo que permita que o futuro docente “possa ter a oportunidade de atuar e discutir sua prática em condições reais de atua­ção que, no entanto, precisam ser controladas e discutidas por profissionais mais experientes”.


De acordo com as autoras, a proposta de formação do que chamam de “professor reflexivo” tem o potencial de mudar as representações sociais sobre o ensino, a começar pelo que ocorre dentro das universidades, que hoje têm pensado a formação docente de maneira distanciada das realidades cotidianas das escolas brasileiras.


Há ainda quem defenda que as próprias avaliações externas – ou ao menos o peso dado atualmente a elas – deva ser rediscutido para melhorar o processo de ensino-aprendizagem. “Essas provas estão relacionadas a um nível de qualidade adequado de acordo com critérios globalizados, sob um perspectiva macroeconômica e política. Elas vêm de um anseio do Brasil de se modernizar e atingir padrões internacionais. Temos de discutir por que precisamos nos aliar a esses padrões globalizados”, afirma Maria do Rosário Mortatti, presidente Associação Brasileira de Alfabetização (ABAlf) e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp).


Segundo ela, o fato de as avaliações estarem reorientando os objetivos escolares prejudica o desempenho do papel da escola de ensinar a todos. “Na política de resultados, o processo não importa. Se a indústria tem de produzir determinado número de carros por mês, o processo não faz diferença, contanto que a meta seja atendida. Mas com seres humanos, essa política de resultados não funciona. Por isso estamos vendo o investimento em educação aumentar tanto, sem que os resultados acompanhem esses números”, critica.









O conceito de alfabetismo


O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), feito por pesquisa amostral, foi aplicado pela primeira vez em 2001. Ele inclui pessoas de 15 a 65 anos, de todo o país, das zonas urbanas e rurais. Sua metodologia estabelece quatro níveis de alfabetismo. O primeiro deles é o “analfabetismo”, chamado por muitos de analfabetismo total ou absoluto; quem está nele não consegue ler palavras ou frases, nem realizar operações matemáticas. O segundo é o nível “rudimentar”, ou analfabetismo funcional. Quem está dentro dessa classificação é capaz apenas de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares, além de realizar operações matemáticas simples. No terceiro nível, denominado “básico”, a pessoa já pode ser considerada funcionalmente alfabetizada: lê e compreende textos de média extensão, localiza informações e faz pequenas inferências; na matemática, lê números na casa dos milhões e resolve problemas simples. O último nível, o “alfabetismo pleno”, deveria ser alcançado por todos os que terminam o ensino fundamental. Embora seja o escore máximo do Indicador, não exige habilidades complexas. Estão neles pessoas que conseguem ler textos usuais mais longos, como uma notícia de jornal ou uma bula de remédio, podem analisar e relacionar suas partes, distinguir fato de opinião. Na matemática, resolvem problemas que exijam planejamento, envolvam proporções e cálculo de área. Também compreendem mapas, tabelas de dupla entrada e gráficos.









As metas do Ideb


O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) reúne em um só indicador dois conceitos importantes para a qualidade da educação: fluxo escolar e médias de desempenho dos estudantes em avaliações. Foi criado pelo MEC em 2007, mas foi calculado também retroativamente para o ano de 2005. Ele é realizado a cada dois anos e estabelece metas para cada rede e etapa de ensino. O Plano de Desenvolvimento da Educação colocou como meta para 2022 que o Ideb do Brasil para o ensino médio seja de 5,2. A ideia é alcançar a nota 6 nos primeiros anos do ensino fundamental nessa mesma data. O indicador é calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar obtidos no Censo Escolar, e médias de desempenho em avaliações realizadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Para o ensino fundamental, usa-se a Prova Brasil, aplicada de forma censitária para estudantes de 6º e 9º anos. Para o ensino médio, os exames do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) são amostrais.









A Pnad e o analfabetismo


A mais recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, apontou um dado aparentemente positivo para a educação: a quantidade de analfabetos no Brasil teria regredido 1,2 milhão em relação ao levantamento feito dois anos antes. O número é resultado de uma queda porcentual de 9,7% em 2009 para 8,3% em 2011. Ainda teríamos, no entanto, 12,9 milhões de analfabetos.


Esses resultados, no entanto, são contestados por especialistas em educação por causa da metodologia empregada pela Pnad para definir quem é ou não analfabeto: o IBGE considera na pesquisa como “alfabetizadas” pessoas com mais de 15 anos que tenham no mínimo quatro anos de estudos. O real nível de proficiência nas habilidades de leitura e escrita não é analisado. “Alfabetização é mais do que escolarização”, defende Priscila Cruz, diretora-executiva do movimento Todos Pela Educação. Os dados do Inaf mostram justamente isso: 8% dos jovens que chegaram ao ensino médio, ou seja, completaram ao menos oito anos de estudos, são analfabetos funcionais. Outro ponto contestável da pesquisa é que ela é totalmente baseada na autodeclaração do entrevistado. É comum que, frente ao entrevistador, muitas pessoas se sintam constrangidas pela falta de escolaridade e falem dados inverídicos, o que acaba tornando os dados da Pnad menos fiéis do que estudos que usam o censo escolar como base. 

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