Qual é a sua construção?

A literatura pode atuar como alfinetada numa consciência adormecida. O personagem kafkiano que vive sob a terra tem algo de nós. Ou melhor: em cada um de nós existe um construtor angustiado

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Divulgação
Kafka, de Steven Soderbergh (1991): num dos últimos trabalhos do escritor tcheco, a vida do construtor corre perigo

Na novela A construção,* um dos últimos trabalhos do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), o personagem (não se sabe se é bicho ou se é pessoa) construiu um abrigo subterrâneo. Cavando a terra ao longo de toda uma vida, esconde-se de seus inimigos. Inimigos que jamais aparecem. O único personagem da história é o construtor, perseguido pela angústia, em busca da (impossível) tranquilidade.

Às vezes o construtor encontra um pouco de paz dentro de seu bunker. Mergulhado no silêncio que o protege, percebe, porém, ruídos ameaçadores. O invasor é um animal violento que se aproxima e poderá, subitamente, surgir do chão ou de uma parede. A vida do construtor corre perigo. Mas o tempo passa e nada acontece. O silêncio volta a reinar… ainda que por pouco tempo!

O dono da construção percorre os muitos corredores de sua obra, investigando as mil possibilidades de uma surpresa desagradável. Passou a existência arquitetando planos para tornar sua construção inexpugnável, e continua inquieto por saber que todo seu esforço foi insuficiente: o labirinto em que vive não se transformou numa casa absolutamente segura.

Nossas construções
A literatura pode atuar como alfinetada numa consciência adormecida. O personagem kafkiano que vive sob a terra tem algo de nós. Ou melhor: em cada um de nós existe um construtor angustiado. Se esta hipótese literária é verdadeira, todos temos as nossas construções, no interior das quais nos protegemos de inimigos reais ou imaginários.

Nossas ideias pedagógicas podem se tornar uma construção desse tipo. Dentro delas nos isolamos da realidade, criando um mundo à parte. Em certas pedagogias, as condições de ensino são perfeitas, os professores estão sempre motivados e os alunos adoram estudar. Uma construção pedagógica assim construída torna-se a razão de ser de uma carreira acadêmica. Que seja uma pedagogia aplicável ou não… isso não será tão relevante! Para o construtor, importa encontrar na obra que assinou um abrigo perpétuo, o seu baluarte!

Também nossa sala de aula pode se tornar uma construção fracassada. Dentro dela, continuaremos cavando as mesmas rotinas, percorrendo os mesmos caminhos, oferecendo as mesmas lições de casa, defendendo as mesmas propostas e aprovando as mesmas respostas. Os alunos serão nossos inimigos em potencial. Nessa construção não há lugar para novos planos. Qualquer pessoa que queira invadir esse território para dar indicações ou sugestões sobre nossa atuação será recebida com quatro pedras nas mãos.

Na gestão educacional, também podemos nos isolar. Encastelados em nosso feudo, enviaremos ordens geniais e… irrealizáveis. Ordens elaboradas em reuniões secretas nas salas mais profundas da construção, ordens que não dependem de consulta ao “povo”. Os colaboradores serão vistos como pessoas das quais o melhor é manter distância. O construtor-chefe faz de seu cargo uma proteção contra os problemas reais, acreditando que os professores seriam melhores se soubessem obedecer sem pensar.

Desconfiar ou confiar?
Um dos “benefícios” mais ambicionados na construção é o isolamento, causado pela desconfiança sistemática. O construtor, em infindáveis reflexões, pensa o seguinte sobre sua vida:

[…] não preciso de jeito algum lamentar que estou sozinho e não tenho ninguém em quem possa confiar. Com isso não perco seguramente nenhuma vantagem e é provável que me poupe prejuízos. Confiança só posso ter em mim mesmo e na construção.

Para o personagem de Kafka, “lá fora” é o lugar indesejável e perigoso. “Lá fora”, nada é bom o suficiente e ninguém é digno de confiança. Ora, esta atitude asfixiante mata qualquer iniciativa educacional. Temos de aprender a conviver fora das construções, das estruturas fechadas e autossuficientes.

No entanto, construir é preciso. Construção que não seja obstrução. Construção que tenha portas e janelas para que o ar das ideias circule. Numa construção humana, reunimos e protegemos o maior número possível de pessoas, em nome de um ideal realizável.

Para construir, devemos confiar. Confiar em valores como a solidariedade e a compreensão, acreditando na possibilidade de que outras pessoas aceitem lutar por esses e outros valores. Uma construção é boa quando permite a sintonia de pessoas diferentes em nome de objetivos comuns.

Acontece que a expressão “pessoas diferentes” é uma redundância! A rigor, ser pessoa é ser diferente das outras pessoas. Uma pedagogia aberta a essa realidade terá de construir um corpo teórico que vá ao essencial, porque é no essencial que as pessoas diferentes se reconhecem como pessoas – pessoas interessadas em trabalhar em harmonia.

Precisamos construir o ideal de uma educação essencialmente humana. Esse ideal será capaz de fazer das disparidades, e até das eventuais divergências, uma ocasião de entrosamento e sinergia. Nós, construtores, além de abrigos e refúgios, podemos erguer pontes, abrir acessos alternativos, criar pontos de encontro.

Nas entrelinhas desta novela, Kafka faz ao leitor a seguinte pergunta: “Qual é a sua construção?”.

Esta provocação é importante. O que estamos construindo como educadores? Em que e em quem confiamos? Que valores estruturam nossas construções? Nossas construções são trincheira de autodefesa, ou lugar para onde convergem os esforços de quem acredita numa educação humanizadora?

(*) Kafka, Franz. Um artista da fome e a construção. Trad.: Modesto Carone. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.

*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do Núcleo Pensamento e Criatividade (NPC) – www.perisse.com.br

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