Professores coadjuvantes

Guardiões sedentários, eles têm aversão a tudo aquilo que pode colocar em risco a integridade do frágil mundo

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Depois da vida é um filme japonês moroso, delicado e exige delicadeza. Bem provável que repouse esquecido em alguma prateleira empoeirada. Justo. É iguaria para afortunados.

Toda a ambiência se desenrola numa espécie de antiga hospedaria aonde afluem pessoas de diferentes idades e procedências, após terem falecido. Elas terão como tarefa encontrar, em meio às experiências passadas, um único momento para guardar da vida que tiveram. Haverá “mortos coadjuvantes” (ajudantes, mais precisamente) para amparar cada um dos outros “mortos de passagem” em seu périplo memorialístico, o qual deverá durar exatos sete dias, tempo máximo para selecionarem e re-encenarem a passagem mais marcante de suas vidas, a qual será filmada em seguida. No último dia, as cenas são exibidas e os hóspedes evaporam eternidade adentro, acompanhados apenas dessa breve lembrança. Tudo mais será esquecido. 

As imagens eleitas pelos protagonistas são comoventes por sua simplicidade: uma tarde num banco de jardim, uma dança de criança com um vestido novo, flores de macieira caindo devagar – demonstrando que o inferno humano é tão-somente a vacuidade da memória. Engana-se, portanto, quem imagina um filme sobre a morte. Durante suas duas horas de duração, não se verá consternação nem inconformidade. Ao contrário. O que está em foco é “a vida apenas, sem mistificação”, diria Drummond.

O diretor Kore-Eda ocupa-se da fugacidade da existência para nos lembrar de uma certa durabilidade do mundo forjada pelos feitos humanos, aqui representados pelo fazer  cinematográfico. Mas não só. Talvez a escolarização também. Ambos seriam as últimas práticas públicas por meio das quais seria possível narrar as histórias dos homens, as histórias que nos tornam homens. Ambos lugares onde se fabricam memórias, essa muleta que nos apóia e, por vezes, nos tira o chão.

No filme, aqueles que se incumbem de tal tarefa são os “mortos coadjuvantes”, eles também hóspedes que permaneceram ali por não terem vencido a tarefa comum a todos. Fantasmas cativos daquele lugar, eles perambulam pelo infinito do tempo ofertando ao outro a grande transformação que eles próprios não são capazes de provar.

Nada mais análogo à vida de um professor, essa criatura impassível que possibilita aos mais novos serem diferentes do que são, ao obrigá-los a recordarem o que lhes foi legado pelos que já se foram. Seu apego à memória é a medida mesma de sua força. Daí sua aversão à rapidez, à inconstância, à variação, a tudo aquilo que pode colocar em risco a integridade do frágil mundo. É seu guardião sedentário e aguerrido.

Sua sina é a repetição de uma senha de passagem que, para ele próprio, nada vale. Só conhecerá algum regozijo – tardio, decerto – se intransigente for seu desígnio de levar adiante as conquistas deste mundo, para que, desse modo, outras possam advir mais tarde. Vendo-as em curso, poderá então partir.



Julio Groppa Aquino


Professor da Faculdade de Educação da USP

julio.groppa@editorasegmento.com.br

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