Português para refugiados

Curso busca promover a inclusão, por meio da língua, de 3 mil expatriados da guerra e da pobreza

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Refugiados de origem árabe no Brasil: dificuldade de adaptação passa pela barreira da cultura e do idioma.

O Brasil tem seu exército refugiado de outros países. São cerca de 3 mil estrangeiros, dos quais pouco mais da metade na capital de São Paulo, segundo cálculo do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Eles vieram ao país por escolha ou contingência, exilados das guerras, de perseguições ou da pobreza. Alguns, em pior condição financeira ou com forte sentido de urgência, embarcam em navios até sem saber o destino. E descobrem, a duras penas, como a língua é um fator determinante no difícil processo de inclusão numa nação que lhes é estranha.

Um curso chancelado pela ONU busca ensinar português a esses refugiados, mostrando que romper a barreira lingüística é superar a barreira cultural entre povos distintos.

– As nacionalidades acompanham os conflitos mundiais – explica a professora Rosângela Portela, que há cinco anos se dedica ao ensino de português para refugiados.

O curso, dividido em dois módulos, faz parte de uma parceira entre o Acnur, a Cáritas, o Sesc e o Senac. Os dois primeiros respondem pela recepção, atendimento e orientação ao refugiado para tentar integrá-lo à sociedade. Ao Sesc cabe uma parte operacional e logística, voltada a atividades culturais e educativas. É em sua unidade na rua do Carmo, no centro de São Paulo, que são ministrados cursos de português, cuja metodologia educacional e a realização das aulas estão sob responsabilidade do Senac.

As aulas ocorrem duas vezes por semana tanto para iniciantes como para quem está no segundo módulo. Cada módulo tem duração de três meses. Em sua sala, a professora Rosângela recebe alunos de procedência variada. Da vizinha Colômbia à distante Eritréia, no nordeste africano, passando pela República do Congo, Burundi e Líbano.

O primeiro módulo do projeto de ensino de português para refugiados, que existe desde 1996, tem como objetivo fazer com que os alunos comecem a sentir-se "confortáveis com a língua, apreendendo estruturas básicas que permitam falar de si", explica Paulo Rezende, coordenador de idiomas do Senac São Paulo, que atualmente dedica parte de seu tempo à tese de doutorado sobre o resgate da identidade por meio da língua portuguesa, no curso de Lingüística Aplicada da PUC de São Paulo.


Contrastes de linguagem

Os professores atestam as dificuldades dos alunos das mais diversas origens com o português. Nem para quem fala espanhol, com suas aparentes semelhanças, o aprendizado é uma moleza. A existência de menos fonemas do que o português parece fazer com que seja mais difícil o entendimento do novo idioma pelos de fala hispânica.

– Os sons nasais são difíceis – diz o colombiano Berlamino Reis Biavara, de 43 anos.

Belarmino veio ao Brasil há um ano, fugindo das Farc, após receber ameaça de morte por ser considerado espião do FBI. Ele era missionário e desde 2001 as Farc declararam guerra às igrejas evangélicas, acusadas de porta-vozes do imperialismo ianque. Hoje microempresário, fabricante de lousas usadas em escolas, e casado com Sandra, uma colombiana descendente de índios, Belarmino conta que o fato de a sua língua ser parecida com o português às vezes causa constrangimentos.

– Há palavras que são iguais, mas que em português significam palavrões – explica, com um ligeiro riso nos lábios.

Falante, Belarmino diz que optou por fazer o curso porque não sabe escrever em português e, por vezes, não entende o que está escrito em documentos que precisa assinar.


Ícones e dialetos

Se o falante do espanhol enfrenta apertos no aprendizado, a coisa se complica ainda mais com alunos oriundos de países cuja língua pertence a famílias diferentes da do português. É o caso, também, das línguas cuja grafia não é alfabética.

– Em muitas dessas, há um pensar icônico, então é necessário que se pense a língua de forma diferente – destaca o coordenador Paulo Rezende.

Há ainda o caso dos dialetos, sobretudo nos países africanos, que usam muito a inversão da estrutura básica sujeito-verbo-predicado.

– Isso complica bastante na hora de fazermos associações com a mesma idéia dita em outro idioma – completa Rezende.

O resultado são problemas de concordância que exigem muito trabalho de fixação para ser superado. Por isso, os refugiados fazem contínuos exercícios com perguntas e respostas usando pronomes pessoais e verbos relacionados a situações do dia-a-dia. Faz também parte das estratégias a transcrição de entrevistas. O refugiado é levado a entrevistar um colega, escrever o que ele falou e depois contar o relato aos outros alunos, na terceira pessoa. Entre os deveres de casa, há não só exercícios de um livro guia como a produção de textos com base em questões abordadas em aula.


Barreira cultural


PAULO REZENDE, COORDENADOR DE IDIOMAS DO SENAC.

A professora Rosângela Portela destaca que uma das principais dificuldades para o aprendizado da língua é cultural. Muitos refugiados querem enquadrar sua língua mãe na estrutura da língua portuguesa. Isso acontece com freqüência nas conjugações verbais, sobretudo daqueles que tomam por base o inglês, mesmo quando ela não é a sua língua materna.

– Aí tem de bater bastante na conjugação, fixar regras de diferentes formas – diz Rosângela Portela.

O congolês Kalonji Moises tem 37 anos e está há um no Brasil. Depois de assistir a uma palestra sobre cultura brasileira, disse não querer casar com mulheres do Brasil porque "elas não gostam de cozinhar ou fazer trabalhos domésticos". Natural de Kinshasa, capital do Congo, onde trabalhava no setor de cobranças, Kalonji espantou-se com a diferença entre o português da rua e o praticado nos locais de trabalho ou na escola.

– O da rua é mais difícil de entender porque se fala muito "aí", "né". Nas empresas, tem menos gíria, então fica mais fácil – diz.

Já seu conterrâneo Maurice Mpese, de 38 anos, que está em São Paulo há sete meses, aponta a fonética como a parte mais difícil do aprendizado.

– A sílaba forte muda de posição, é diferente do francês – ressalta o pastor protestante que disse ter conhecido o português apenas quando chegou ao Brasil.


Aulas insuficientes

O choque cultural, constatou Rezende, fez com que as 120 horas que compõem os dois módulos do curso se revelassem insuficientes, garantindo apenas o básico para que os alunos possam iniciar seu processo de inclusão numa nova realidade. A barreira começa já no material didático adotado, livros de português para estrangeiros com personagens que, avalia Rezenda, estariam longe de expressar situações semelhantes às dos alunos e que vivem em países do primeiro mundo, como é comum a esse tipo de obra.

Por isso, com apoio de Rosângela, Rezende propôs no ano passado um novo material didático, voltado à realidade dos refugiados. A mudança principal não estaria nos conteúdos programáticos, mas na forma de apresentá-los.

– O material deve ser contextualizado à realidade deles, deve resgatar a identidade dessas pessoas. Por isso, precisa falar de cultura latina e africana – explica o coordenador.

As turmas deste ano, quando o novo material será lançado, continuarão estudando tempos verbais, concordância, uso do plural, dos artigos de gênero, entre outros pontos. A mudança está concentrada nas atividades propostas e nos exemplos utilizados.

– O mote é o resgate da identidade dos alunos, pela valorização das culturas de origem. Esse é um item fundamental para que possam reconhecer a si e aos que estão por perto e, aí sim, relacionarem-se com a cultura local – reforça Rezende.


Contatos culturais

Para Rosângela, a proposição de atividades lúdicas é fundamental no aprendizado da língua, que, segundo ela, deve se dar de forma prazerosa.

– Há também a troca de experiências e a valorização das culturas de cada um em momentos que os alunos são levados a falar de suas histórias, costumes, países – argumenta.

Assim, em uma das aulas do segundo módulo, a professora propõe uma brincadeira em que um aluno interpreta um vidente, que faz previsões sobre o futuro do outro. Na lista de previsões, afirmativas como "você terá um emprego, comprará um carro, casará com uma brasileira".

O contato com a cultura brasileira nas aulas também se dá por meio de filmes – entre eles, uma coleção de DVDs sobre O Povo Brasileiro, de Darci Ribeiro. Além disso, notícias de jornais e questões de uso da língua baseadas em experiências do dia-a-dia. Em ocasiões como essas, os alunos aproveitam para entender o uso de expressões e a grafia das palavras.


Etapas de ensino

Em meio a uma das aulas, o libanês Abbas Hijazi, de 24 anos e no Brasil há sete meses, fica em dúvida com o significado da palavra "etapa". Não se aperta. Vira para o lado e conversa em árabe com o colega libanês Said El Hajj, de 26 anos, que lhe explica, na língua materna, o que quer dizer o vocábulo.

Muito falante, Abbas conta que veio tentar refúgio no Brasil por conta da guerra entre Israel e o Hezbollah e que assolou o sul do Líbano.

– Lá, eu era cabeleireiro. Aqui no Brasil, homem cabeleireiro é considerado veado – diz.

Para os árabes, o uso do plural e dos artigos que determinam gênero são fontes de erros freqüentes. Said, que estudou medicina em Minsk, na Bielo-Rússia, domina bem o português. Conta que estuda muito em casa, pois quer passar no exame de proficiência em português, necessário para que seja aceito na residência em Medicina. Ele veio para o Brasil em um dos aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), que resgatou brasileiros que moravam no sul de seu país.

– Trabalhei como médico, vim como médico – diz.


Perfis de alunos


ROSÂNGELA PORTELA, QUE HÁ CINCO ANOS ENSINA PORTUGUÊS A REFUGIADOS.

Em dez anos de curso, o perfil dos alunos mudou, avaliam os professores.

– As pessoas que chegam aqui têm um nível cultural muito bom – destaca Denise Orlandi Collus, assistente social do Sesc, engajada no projeto com refugiados há sete anos.

Denise conta que houve uma grande ampliação do trabalho desde o seu início, em 1996. Inicialmente, o convênio entre Acnur, Cáritas, Sesc e Sesi incluía atividades físicas, culturais e aulas de português. Hoje, existe o acesso à Internet, o curso de português foi estendido para um segundo módulo, foram incluídas atividades de passeios a museus e parques.

– Antes, os meninos que vinham de navio achavam que estavam indo para a Europa ou Canadá, e quando viam, desembarcavam no porto de Santos. Tinham a idéia de uma passagem temporária pelo Brasil, um trampolim para o outro país. Hoje, vêm mais gente que opta pelo Brasil e quer se aculturar – explica a professora Rosângela Portela.

Ao longo dos anos, também foi criada uma oficina de coral, que incorpora música dos refugiados em seu repertório.

– Como a tendência do refúgio é o isolamento, usamos a música para valorizar o mundo deles. Por conta da música, o assunto refúgio é tratado com menos autodefesa – explica Denise.







 


Preconceito

Estar em situação de refúgio significa muitas vezes ser alvo de preconceito, afirma Denise, já que uma grande parcela da sociedade compara o refugiado a um criminoso.

– Muitos são considerados traficantes ou outras coisas, e não vítimas, o que é, na realidade, a situação deles – argumenta Denise.

Segundo ela, muitos vêm conhecer a noção de preconceito quando chegam ao Brasil. Ela narra a história de um refugiado congolês que se surpreendeu com a baixa auto-estima embutida na linguagem corporal dos negros brasileiros, e com a noção de beleza do Brasil.

– Porque eles andam tão curvados? – foi uma das perguntas que ouviu.

O preconceito também faria com que a sociedade desconsiderasse a possibilidade de que os refugiados fossem pessoas que tiveram vidas comuns em seus países, como estudantes e profissionais. Daniel Medhanie, de 30 anos, deixou seu país, a Eritréia, no noroeste da África, há cerca de oito meses. Lá era veterinário. Gostaria de seguir trabalhando na profissão, mas a prioridade é conseguir emprego, seja em que área for. Daniel tem aluma dificuldade no uso dos substantivos masculinos e femininos, mas não teve nenhuma em escolher um time de futebol para torcer. Na segunda aula assistida pela reportagem, vestia camiseta do São Paulo.


O colombiano Belarmino e o bielorusso Said: dificuldades culturais refletidas no estudo do idioma.

Para personagens como Daniel, superar o idioma português virou uma condição para a própria sobrevivência. Afinal, é impossível sentir-se parte de uma realidade sem interagir com ela. Imagine-se em um lugar onde não é possível entender o que as pessoas falam, tampouco o que significam os milhares de avisos, placas, propagandas espalhados pelas ruas. O escritor Ítalo Calvino diz que vivemos em cidades escritas, que deixamos nossas marcas em cada segmento do espaço urbano. Símbolos que não só refletem o que somos, como também nos situam, dão indicações, informam, permitem nosso passo ou o interditam. Sem a possibilidade de comunicação com o mundo que nos rodeia, nós nos perdemos nele e, com isso, perdemos parte da condição de sujeitos.

Os refugiados que se fixaram no Brasil sentem isso na pele.


OS REFUGIADOS E ASILADOS DO MUNDO

Os levantamentos mais recentes do Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), do fim de 2004, mostram que, no mundo, há 19,2 milhões de refugiados, solicitantes de asilo e outras pessoas de interesse.

Dos refugiados e deslocados espalhados pelo mundo, cerca de 8,5 milhões estão na Ásia; 6 milhões na África, 5,5 milhões na Europa; 1,1 milhão na América do Norte; 76 mil na Oceania e 575 mil na América Latina e Caribe. Desses, apenas 3 mil estão no Brasil.

 

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