Por que amar Adélia

No ano em que a poetisa mineira comemora 80 anos, um roteiro de leitura de sua obra

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Em 1976 o céu da poesia brasileira triscou-se de modo irreversível. O abalo foi provocado por uma mulher que, no ano anterior, enviara alguns poemas seus para Affonso Romano de Sant’anna. O crítico percebeu a riqueza do material e convocou o próprio Carlos Drummond de Andrade para o parecer final. O entusiasmo do poeta, que considerou fenomenal o que leu, foi expresso numa crônica de 9 outubro no Jornal do Brasil. Estava pronto o cenário para Adélia Prado, a poetisa de Minas Gerais que agora completa 80 anos.

Além da crônica, Drummond recomendou a publicação dos poemas ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira. Bagagem (editora Imago), o primeiro livro de Adélia Prado, teve lançamento concorrido: Antonio Houaiss, Clarice Lispector, Nélida Piñon, Juscelino Kubitschek, Alphonsus de Guimaraens Filho, além dos “padrinhos” que apostaram nas criações da moça nascida em Divinópolis (MG), professora, mãe de 5 filhos, formada em filosofia. Neste breve espaço, pinçaremos poemas de Poesia reunida (São Paulo, Siciliano, 1991), que iluminam nossa condição de leitor. É nossa forma de dizer “obrigado”.
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Primeiro livro

Em “Com licença poética”, poema de abertura, duas constatações: uma reverência ao adentrar o solo sagrado da poesia, tendo-se como matriz o autor de Sentimento do mundo, permeada por um discurso original, numa técnica despojada que funde humor, simplicidade e reflexão:

Quando nasci um anjo esbelto,/ desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira./ Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada./ (…) Vai ser coxo na vida é maldição pra homem./ Mulher é desdobrável. Eu sou.

Estão presentes, neste livro, os fundamentos de uma enunciação calcada no cotidiano, nos lusco-fuscos da memória, na religião como linguagem. Depois de encontrar “sua turma” em textos de Guimarães Rosa, Drummond e Clarice, Adélia moldou sua dicção, timbrada pela particularidade da epifania que resulta da observação sobre homens, bichos, objetos, rituais:

“Meu primeiro livro foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta nesta felicidade. Emoções, para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento. Descobri ainda que a experiência poética é sempre religiosa, quer nasça do impacto da leitura de um texto sagrado, de um olhar amoroso sobre você, ou de observar formigas trabalhando”. (http://www.releituras.com/aprado_bio.asp).

Título

A escolha do título do primeiro livro pareceria mais adequada a quem já houvesse percorrido um longo caminho. No caso de Adélia, contudo, ajusta-se, pois ela se apresentou com visíveis sinais de maturação e originalidade. Assim, o esforço para iluminar o estar no mundo só é exitoso mediante a poesia.

Tem-se essa mesma impressão em “Leitura”:

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras./ As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha/ de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas/ fora do seu tempo desejadas.

Do mesmo modo, é difícil não ser tocado por “Impressionista”, no qual a banalidade da ação quebra-se diante da força do último verso. O poeta pesca a poesia nos atritos da fala, escapável ao sujeito que a manifesta:

Uma ocasião,/ meu pai pintou a casa toda/de alaranjado brilhante./ Por muito tempo moramos numa casa,/ como ele mesmo dizia,/ constantemente amanhecendo.

São muitos os exemplos dessa “luta mais vã”. Nesse sentido, o estranhamento, combustível da poesia, muitas vezes apresenta-se com imagens simples e versos sem contorcionismos sintáticos: “Explicação de poesia sem ninguém pedir”:

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,/ mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,/atravessou minha vida,/ virou só sentimento.

O périplo sobre cotidiano e encantação continua em “Amor feinho”, “Briga no beco” (na 2ª parte); “Dona doida” e “Ensinamento” (na 3ª), que frequenta minhas práticas docentes:

Minha mãe achava estudo/ a coisa mais fina do mundo./ Não é. / A coisa mais fina do mundo é o sentimento./ Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, /ela falou comigo:/ “Coitado, até essa hora no serviço pesado”./ Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água./ Não falou em amor./ Essa palavra de luxo.

Na quarta parte da obra, indico “O retrato”, “Modinha” e “poesia”.

2o e 3o livros

Seu segundo livro, O coração disparado (1978), também se divide em quatro partes. Dele, são constantes em minhas (re)leituras: da primeira, “Dois vocativos”, “Roça”, “Um silêncio”, “Bulha”, “Hora do Ângelus”. Quero destacar, ainda, o que tem me servido tanto para as instâncias gramaticais quanto para a poesia em si. Trata-se de “Solar” e sua impactante simplicidade:

Minha mãe cozinhava exatamente:/ arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas./ Mas cantava.

Da segunda parte, aprecio “Bairro”, “Canícula”, “Gênero” e “Corridinho”; e da quarta, “Fotografia”.

O terceiro livro de Adélia, Terra de Santa Cruz (1981), divide-se em três partes: “Território, “Catequese” e Sagração”. Da primeira destaco “Casamento” – uma cutucada nos feminismos de plantão – envolto numa poesia rés do chão. Aqui, o estado poético é feito com pinceladas:

Há mulheres que dizem:/ Meu marido, se quiser pescar, pesque,/ mas que limpe os peixes./ Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,/ ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar./ É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,/de vez em quando os cotovelos se esbarram,/ ele fala coisas como ‘este foi difícil’/ ´prateou no ar dando rabanadas’/ e faz o gesto com a mão./ O silêncio de quando nos vimos a primeira vez/ atravessa a cozinha como um rio profundo./Por fim, os peixes na travessa./ Vamos dormir./ Coisas prateadas espocam:/somos noivo e noiva.

As recentes

Há ainda O pelicano (1987) e A faca no peito (1988). O primeiro livro está dividido em quatro partes. Na primeira, destaco “Objeto de amor” com seu inexcedível “Cu é lindo!”. Das duas partes do segundo livro, fico com dois poemas da primeira. Um é “Artefato nipônico”:

A borboleta pousada
Ou é Deus
ou é nada.”

Outro é “Parâmetro”:

Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.

Adélia Prado está em plena forma: em 2013 lançou Miserere. Traduzida. Premiada. 8 livros de poesia. 8 de Prosa. Poema para balé. Antologias. Parcerias. Gravação de CD, 2 livros infantis etc.

E mais não digo.

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