Empreendedores bem formados valem mais que boas ideias

Investidores de startups mudam o foco e passam a buscar empreendedores que sejam além de criativos, capazes de executar bons planos de negócios

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Há mudança no perfil procurado por investidores que apostam em startups (foto: Shutterstock)

Hoje, os investidores apostam nos jóqueis e não mais nos cavalos”, diz o americano Fernando Sepúlveda, CEO da Impulsa, empresa que desde 2004 auxilia na implantação e crescimento de startups no México e EUA.

Explicando sua metáfora, ele detalha que, ao contrário do que acontecia há alguns anos, as pessoas (jóqueis) que conduzem os negócios são mais importantes que a própria startup ou a ideia (cavalos) que sustenta o negócio. “Um grupo de jovens empreendedores pode ter uma ideia brilhante e altamente viável, mas se eles não se mostrarem preparados para concretizarem sua ideia, não vão conseguir investimentos”, esclarece Sepúlveda.

Nesse sentido, a formação dos jovens torna-se o ponto crucial entre as qualidades exigidas pelo mercado e bases socioemocionais, técnicas e teóricas dos jovens são tão importantes que já está havendo uma mudança de paradigma no perfil procurado pelos investidores que apostam em startups.

No Brasil, o empreendedorismo pegou, mas ainda não decolou. Os motivos para sua popularização nas salas de aula, laboratórios e corredores das instituições de ensino superior são variados, mas já compreendidos: maior volatilidade das carreiras e trabalhos, forte influência do Vale do Silício, exigência do mercado (e muitas dos próprios alunos), valorização da autonomia profissional, dentre outros. Mas os fatores que limitam o empreendedorismo na vida real ainda estão sendo mapeados. Alguns estudos, porém, esclarecem vários pontos.

Na última edição do ranking mundial de empreendedorismo Global Entrepreneurship Index (GEI), de 2018, o Brasil se manteve na nada honrosa 98ª colocação, atrás tanto de países com a economia bem menor (Estônia, Polônia ou Chipre); como de nações com sérios problemas sociais (Botsuana, Namíbia ou Filipinas). O levantamento, coordenado pela organização The Global Entrepreneurship and Development Institute (Gedi), com sede em Washington, analisou o ecossistema empreendedor de 137 países. Os líderes do GEI são, respectivamente, Estados Unidos, Suíça, Canadá, Reino Unido e Austrália.

Uma pesquisa realizada pela aceleradora Startup Farm demonstra que 74% das startups brasileiras fecham depois de cinco anos. E 18% delas antes mesmo de completar dois anos. Os principais motivos para o fracasso não são apenas os “culpados de sempre”, como a falta de investimentos e o governo (inclui-se aqui excesso de custos, impostos, regulação, burocracia e outros encargos). Entre as causas majoritárias estão as brigas entre sócios (num sintoma de falta de preparo socioemocional) e o descaminho entre a proposta apresentada e o interesse de mercado (indícios de um mau projeto ou de um plano de negócios inconsistente).

Outro levantamento, feito pelo jornal Folha de S.Paulo com três das principais aceleradoras de startups do Brasil (ACE, 21212 e Wayra), mostra que em dois anos, dos 60 empreendimentos apoiados, 61,5% fecharam. Um dos motivos para a alta taxa de fracasso deve-se ao fato de que os modelos de negócios das startups não são tão bem recebidos pelo mercado — que não vê solidez ou possibilidade de retorno financeiro, em outro indicativo de que há problemas na formação dos jovens empreendedores. Ainda que muitas faculdades tenham o empreendedorismo em seus currículos, posturas, mantenham incubadoras, aceleradoras e parcerias com empresas privadas, o empreendedorismo no Brasil esbarra tanto em problemas estruturais quanto em falhas na formação dos jovens. Como as IES podem melhorar esse cenário e contribuir para formar empreendedores mais preparados técnica e emocionalmente?

Sem obrigatoriedade

Uma boa forma para começar a mudar é aprender com bons exemplos, e há um aqui perto, no Chile. O país andino é o melhor da América do Sul no ranking de empreendedorismo global, na 19ª posição. Desde 2012 funciona na Universidade Católica do Chile (UCC), em Santiago, o Centro de Inovação Anacleto Angelini, um espaço dedicado à promoção do empreendedorismo. Em entrevista concedida durante o IV Encontro de Reitores Universia, em Salamanca, na Espanha, o diretor do Centro, Conrad Von Igel, explica que desde sua concepção, a ideia era construir algo “multidisciplinar e generalista”, aberto ao público geral, aos alunos professores e faculdades da instituição.

Ao invés de incorporar disciplinas e conceitos sobre o empreendedorismo em determinadas carreiras (como Administração, Engenharias e Economia, por exemplo), o Centro já nasceu com o propósito de ser livre e transversal. Por isso, nenhum aluno é obrigado a frequentar suas aulas e seus laboratórios, mas todos são incentivados. Da mesma maneira, nenhum professor é obrigado a desenvolver atividades pedagógicas no Centro ou dar suas aulas com um viés empreendedor, mas todos são encorajados a adotar tais práticas. Dessa forma, diz Von Igel, “a implantação do empreendedorismo em nossa instituição foi mais harmônica e orgânica, sem aquele autoritarismo hierárquico e sem obrigações rígidas”.

Depois de funcionar por dois anos em dependências já existentes na UCC, o Centro de Inovação inaugurou sua moderna sede própria, totalmente financiada por doações de empresas privadas que abraçaram o projeto. O prédio de onze andares e três pisos subterrâneos, todo em concreto aparente e formas geométricas que remetem ao popular jogo de encaixar peças chamado Tetris, foi projetado para melhor utilizar a luz natural e fazer uso racional da água. Em seu interior, foram utilizadas madeiras de demolição e os espaços foram pensados para proporcionar encontros entre seus frequentadores.

Além de salas de aula para alunos de graduação e pós, o prédio tem anfiteatro, laboratórios digitais, de biologia sintética, salas para reuniões acadêmicas e profissionais, incubadoras e aceleradoras de startups, salas para abrigar os empreendimentos dos alunos e escritórios de empresas parceiras — tais como Google, Codelco (maior mineradora de cobre do mundo), Sonda (empresa chilena líder na América Latina em TI), entre outras. Há ainda um restaurante, uma lanchonete e um banco; sendo que todos esses serviços são abertos ao público-geral, não apenas para alunos e professores, justamente para atrair pessoas interessadas em contribuir e frequentar o Centro.

Resultados

“Empresas privadas sempre foram nossas parceiras, desde o início. Hoje, simplificando, temos dois tipos de apoiadores privados, os investidores pontuais que injetam recursos em nossas startups e as grandes corporações que nos apoiam em projetos maiores, de médio e longo prazo”, detalha o diretor. Atualmente o Centro de Inovação conta com o apoio de mais de 100 empresas chilenas e multinacionais. Além das já mencionadas, grupos como 3M, Accenture, Siemens, Latam, Liberty Seguros, WalMart e até a vinícola Concha y Toro investem nos talentos e nos programas do Centro de Inovação.

Um passo importante para estreitar os laços da academia com o “mundo real”, como definiu Von Igel, foi dado quando o Centro passou a convidar os profissionais para dentro das salas de aula. Assim, muitos executivos, diretores de empresas, pesquisadores e gerentes de projetos do setor privado também ministram cursos e são mentores de alunos. Depois de ter treinado e capacitado centenas de professores e milhares de alunos, o Centro de Inovação Anacleto Angelini, somente em sua incubadora, já impulsionou mais de 140 empresas que seguem atuantes no mercado, contribuindo para a criação de mais de 1.400 postos de trabalho.

Hoje, o Centro possui mais de 80 programas acadêmicos separados em quatro áreas: Artes e Humanidades, Ciências Exatas, Mestrado e Doutorado. E tem ainda os seis programas exclusivos para o empreendedorismo: I-Corps, voltado para a capacitação de acadêmicos e gestores tecnológicos, que facilita a geração e gestão de empresas com tecnologias desenvolvidas na universidade; Jump Chile, desde 2012 o maior concurso de empreendedorismo universitário no Chile; Brain Chile, cujo objetivo é  promover negócios baseados em ciência e tecnologia originados em trabalhos de alunos, pesquisadores e/ou acadêmicos no âmbito de cursos, teses ou projetos de pesquisa; e o Colab Alto Impacto, programa do Laboratório de Inovação Social da UCC, em resposta à necessidade de um espaço inovador para pesquisas e desenvolvimento de ações concretas para atender às necessidades sociais, ambientais e econômicas.

Há ainda o Ruta5, aberto à comunidade de empreendedores, onde eles podem acessar um conjunto de serviços que permitem aprimorar o ciclo de empreendedorismo em suas diferentes fases, e, finalmente, o Incuba UCC, a incubadora de empresas da UCC, com quase uma década de experiência em incubação de empreendimentos, apoio a projetos de P&D, início de comercialização, aceleração de empreendimentos e internacionalização, facilitando o desenvolvimento de empresas através do acesso a diversas redes de contato, subsídios públicos e investidores privados.

Dificuldades a superar

O reitor da USP, Vahan Agopyan, também presente no evento em Salamanca, relatou que a instituição também implantou o empreendedorismo, seus conceitos e práticas de forma transversal nos currículos de diferentes carreiras, numa tentativa justamente de fortalecer o espírito empreendedor, disseminando-o em diversas frentes ao invés de deixá-lo “encaixotado” em disciplinas estáticas dentro de alguns cursos específicos. Mesmo assim, Agopyan admite que teve e ainda tem dificuldades em motivar seus milhares professores a abraçarem a causa e modificarem suas aulas e projetos para contemplarem o empreendedorismo. O corpo docente é muito heterogêneo, com professores de diferentes gerações, distintas formações acadêmicas e inúmeras prioridades em suas carreiras e linhas de pesquisas.

Chile e o empreendedorismo

Centro de Inovação Anacleto Angelini, no Chile: referência na formação de empreendedores (foto: divulgação)

A instituição fomenta o empreendedorismo através da Agência USP de Inovação (Auspin), que funciona desde 2004, mas somente em 2012 passou a dedicar parte de seu trabalho exclusivamente ao empreendedorismo. Apesar dos obstáculos, o número de alunos que procuram os cursos e programas da Auspin aumenta a cada ano.

Um dos trunfos da Agência, disse o reitor, é sua descentralização. Desde o início, a ideia primordial era espalhar polos de inovação nos campi da USP fora da capital paulista. “Percebemos que, se ficássemos limitados a São Paulo, estaríamos prejudicando os alunos e a nós mesmos, pois iríamos abrir mão de potenciais talentos”, disse o reitor. Assim, além do polo central em São Paulo, a Agência mantém centros em Bauru, Lorena, Piracicaba, Pirassununga, Ribeirão Preto e São Carlos.

Hoje, a Auspin mantém uma incubadora, estimula a geração de novas tecnologias por meio da criação de empresas nas diversas áreas de tecnologia; apoia iniciativas como empresas juniores, núcleos e ligas empreendedoras; fornece programas para alunos de graduação e pós, além de cursos e orientação para empreendedores externos. Há ainda uma ênfase na promoção de eventos, que muitas vezes atraem mais a atenção de alunos do que os programas regulares. Os campings de empreendedorismo (um final de semana de imersão no tema), as “hackthons” (maratonas de programação e solução de problemas) e os workshops fazem tanto sucesso que a Agência descobriu aí uma forma de atrair alunos e professores.

*O repórter viajou a convite do Santander Universidades.

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