Pensar a infância

O olhar sócio-histórico tende a negar-lhe o estatuto de um fenômeno universal

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Desde a publicação, em 1960, dos estudos de Philippe Ariès sobre a criança e a vida familiar no Antigo Regime um número crescente de historiadores, sociólogos e filósofos passaram a se interessar pelo tema da infância. Diferentemente das abordagens até então predominantes no campo das psicologias do desenvolvimento, o olhar sócio-histórico tende a desnaturalizar a infância; a negar-lhe o estatuto de um fenômeno universal. O que Ariès nos mostrou é que a infância é mais do que a descoberta da especificidade de uma etapa da vida; ela é sua produção.


Assim, a invenção da infância como etapa formativa não se separa da criação de uma série de dispositivos sociais que produziram uma cisão entre o universo simbólico dos adultos e o daqueles que deveriam aspirar a essa condição. Foi a partir do Renascimento, por exemplo, que se criou uma série de práticas de segregação dos mais novos, identificando-os como uma categoria especial de pessoas. Criou-se, enfim, a noção de que o filho – a criança – é uma “obra” dos pais; de que seu êxito posterior na vida pública ou privada depende dessa etapa e dos esforços nela concentrados. Daí o novo papel da escola, que não mais visava a preparação para um campo profissional, mas a formação geral de um cidadão letrado.


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A partir da década de 80, os estudos históricos e sociológicos sobre a infância se multiplicaram. Por um lado, surgiram teses, como a de Neil Postman, para quem a noção de infância, constituída ao longo da modernidade, estaria em vias de desaparecimento. As novas tecnologias de comunicação social – notadamente a mídia eletrônica – acabariam com a cisão entre os universos adulto e infantil. O mundo da imagem rivalizaria com a cultura letrada. Enquanto esta exige a longa preparação de uma mente para a linguagem conceitual e abstrata dos livros, a cultura imagética é direta e não faz distinções entre adultos e crianças. O resultado teria sido o esvanecimento das fronteiras entre o mundo infantil e o adulto, criando um adulto infatilizado e uma criança precocemente exposta a toda sorte de informações até então consideradas danosas à sua formação.


Já o filósofo francês Alain Renaut encara as transformações contemporâneas nas relações entre adultos e crianças como resultado de um lento, mas crescente processo de consolidação dos ideais modernos de liberdade e igualdade nas relações sociais. Tal como ocorreu em relação às mulheres, as crianças do mundo contemporâneo deixam de ocupar uma posição de submissão para ganhar o estatuto de sujeitos. Sua emancipação em relação à autoridade dos adultos traz à tona novos problemas, mas está longe de ser a dissolução do projeto pedagógico moderno. É, antes, sua radicalização. Em sua visão o grande desafio dos educadores de hoje não é a tentativa de barrar essas transformações, mas a de equilibrar os direitos das crianças com as responsabilidades dos adultos em relação à sua proteção.


Independentemente das polêmicas, Ariès, Postman e Renaut têm um mérito comum: convidam-nos a refletir sobre o sentido das relações entre gerações. Pensar a infância é, pois, pensar as vicissitudes de nossa relação com os que nos precederam e com os que nos sucederão neste mundo comum.


*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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