Para gostar de ler

Dedicar-se à leitura exige esforço, concentração e vontade própria. Entenda como ocorre esse processo ao longo da vida e como superar os desafios do professor e da escola no papel essencial de formar leitores

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Em um contexto de pouca valorização da leitura, inclusive entre os próprios professores, como a escola pode contribuir para a formação de leitores no Brasil? Como superar seus desafios e formar leitores autônomos que gostem de ler? Sabe-se que a leitura é algo crucial para a aprendizagem do ser humano. É por meio dela que podemos enriquecer nosso vocabulário, obter conhecimento, dinamizar o raciocínio e a interpretação. Um aluno com dificuldades de leitura e escrita terá todo o seu percurso acadêmico e de construção de raciocínio prejudicado ao longo da vida. Mas, ao contrário do senso comum, o ato leitor – em especial do texto literário – é um processo de aprendizado longo, que exige esforço coletivo. Primeiro de pais e professores. E, depois, do próprio leitor.

“Ler é, sim, maravilhoso, mas não é um prazer nem entretenimento”, explica Christine Fontelles, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, do grupo Suzano. À frente de um projeto que promove a criação de bibliotecas comunitárias e um trabalho de mediação de leitura nesses locais, Christine conhece, na prática, a longa jornada exigida para formar leitores. “É uma prática que requer esforço, foco e que não dá retorno rápido como assistir à TV, por exemplo.” A leitura de literatura é tida por neurocientistas como uma das atividades que mais exigem conexões neurais sofisticadas em nosso cérebro – tal qual a matemática e a música. Por volta dos 11 anos, as consequências de não ter aprendido princípios de sintaxe e regência verbal, por exemplo, começam a aparecer, o que pode explicar as quedas nos índices de rendimento da passagem do EF1 para o EF2, explica a neurocientista Elvira Souza Lima

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Percurso
Se ler, por si só, já é algo que requer labuta, ensinar a ler – para além da decodificação das palavras – é ainda mais complicado. Mas existem caminhos possíveis na arte de educar para a leitura. E especialistas são unânimes: a paixão pela leitura pode ser (re)criada em qualquer etapa da vida.

Como ponto de partida, a vantagem é que somos seres literários. “Naturalmente percebemos as narrativas do mundo”, lembra Rosane Cardoso, professora de letras no Centro Universitário Univates, em Lajeado (RS). Mas, o que nasce de forma natural precisa ser devidamente trabalhado. Segundo Rosane, a criança pequena e a das séries iniciais do Fundamental sente um encanto natural pela leitura. “Junto ao ato de efetivamente começar a ler, ela descobre um poema, uma história, um mundo mágico já revelado a ela através da oralidade, nas histórias contadas desde a mais tenra infância pela família ou pelos professores na educação infantil.”

O problema, de acordo com a professora, acontece à medida que a criança cresce. “Aí reside, muitas vezes, a cisão entre o que é oferecido a elas e os seus interesses de leitura.” O professor, devido a um modelo escolar engessado e pautado em provas, passa a focar apenas as leituras obrigatórias, restringindo a prática da leitura a uma gama pouco variada de textos e autores. O próprio docente muitas vezes não gosta desse texto que ele deve usar porque não teve a oportunidade de trabalhá-lo com mais afinco. E assim o ensino da literatura se torna chato para todos.

Paralelamente, em torno dos 8 anos, a criança começa a formar seu próprio gosto, o que vai se intensificando conforme chega à adolescência – nessa fase, é comum ela querer ler as sagas, trilogias e outras leituras que a fazem pertencer a um grupo. Esse momento da formação de gosto é chave para o educador. É a hora de dar autonomia ao aluno, de escutá-lo, saber quais são suas preferências e referências de vida.

Dar autonomia, no entanto, não significa deixá-lo ler apenas o que ele quer. É papel do educador apresentar livros diferentes – tanto dos escolhidos pelo aluno como dos tradicionais usados em sala de aula – e ajudar a esmiuçar a literatura mais sofisticada. “Para que sejam autônomos e críticos é preciso apresentar variados tipos de textos, e não só os literários. Po­e­­mas­­, contos, biografias, receitas, reportagens, notícias, cartas, obras teatrais entre outros, com atividades diversificadas e que, acima de tudo, valorizem as especificidades de cada texto lido”, afirma Maria Betanea Platzer, doutora em Educação pela Unicamp e docente no Centro Universitário de Araraquara (Uniara), interior de São Paulo. “A formação de leitores deve ser pensada em uma perspectiva crítica e reflexiva, ler de forma a ‘mergulhar’ no texto, sabendo que o estudante, ao longo de sua formação, poderá se envolver e se apaixonar mais ou menos por determinado tipo de texto.” Compartilhar as experiências de leitura em rodas de discussão, através de dramatizações ou até saraus, é uma boa prática para fazer com que os alunos entrem nas histórias lidas, exemplifica.

Siga o mestre
Para ensinar a ler é preciso gostar de ler. E quando o educador não gosta ou não busca novos caminhos para aperfeiçoar sua prática leitora, a chance de seu aluno se interessar pelo tema diminui. E assim segue o ciclo do desinteresse, que pode ser traduzido nos números apresentados na última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro: apenas 28% dos entrevistados gostam de ler no tempo livre (incluindo jornal e revista) contra 85% que preferem ver TV; 56% nunca compraram um livro e 76% não frequentam bibliotecas. Além disso, 48% relataram dificuldades para ler (não compreendem o que leem ou leem muito devagar).

“Trata-se de uma falha na formação de professores como leitores, que deveria ser garantida pelo curso de pedagogia”, critica Maria das Graças Rodrigues Paulino, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da mesma universidade. “Pedagogos vão mediar a relação das crianças com textos por oito anos, no mínimo, anos fundamentais para a iniciação no processo de letramento, que se estende pela vida inteira, mas que tem como um dos agentes a escola. Como formar leitores se eles não receberam essa formação?”

Um dos problemas é a falta de tempo. “Muitos alfabetizadores alegam não ter tempo para ler livros inteiros. De fato, a jornada de trabalho dos professores ultrapassa demais o tempo da sala de aula. Levam exercícios e provas para corrigir em casa, têm de preparar a aula do dia seguinte, trabalham em dois turnos para garantir a sobrevivência, acrescentando um terceiro tempo de tarefas pessoais e domésticas.” Mas a razão mais forte é a da própria formação do professor desde a mais tenra idade. Ele, como aluno, também não teve um professor que dizia, com olhos brilhando, como um romance impactou a sua vida. E, já na faculdade, não é levado a ser um leitor – menos ainda um mediador de leitura. Maria das Graças conta um causo mineiro. Entrevistados por uma pesquisadora sobre livros que estavam recebendo de presente da UFMG, os professores demonstraram que não sabiam distinguir os contos do livro de apresentações críticas. “Não tinham noção de gêneros textuais, liam tudo do mesmo modo. Ou nada liam, apenas guardavam o livro”, conta, revelando a falta de preparo desses professores.

Embora o ideal seja iniciar o processo cedo, nunca é tarde para formar novos leitores. Nem mesmo quando já se é um professor. Daí a quantidade de cursos de formação contínua que surgem em diversas frentes – programas de governo, terceiro setor, universidades. “Não existe caso perdido para a educação, isso é conta de economista, não de educador”, diz Christine Fontelles, do Ecofuturo. Ester Rosa, professora de pedagogia e coordenadora do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), diz que muitos alunos seus tornaram-se leitores depois de adultos por razões diversas: por causa da própria faculdade, do estágio em escola ou até mesmo por causa da maternidade – quando começaram a ler para seus filhos. “Talvez esse professor que se torna um leitor tardio nunca chegue a ser um expert em literatura, mas vai descobrir o material que ele vai usar no dia a dia.”

Culpar a formação dos professores por tudo é um raciocínio linear muito simplista, uma vez que a complexidade da educação é muito grande, avisa a professora da UFPE. Mas ela reconhece que está na hora de mudar alguns paradigmas em sala de aula, na faculdade, para reverberar em novidades na sala de aula onde os docentes atuam. “Podemos, por exemplo, derrubar o mito de que ler é um ato solitário, individual, ou de que só serve para fazer prova. O professor pode criar situações de leitura compartilhada, recuperando, assim, uma tradição ancestral de rodas de histórias”, exemplifica, lembrando que essa prática não precisa ficar restrita ao ensino infantil.

O fato é que o mestre é figura fundamental no processo de formação do leitor. É ele, afinal, o principal mediador de leitura da vida da criança. É quem apresenta aos alunos um repertório variado de textos, traz o que está na narrativa para o plano real, estabelecendo conexões entre a vida do personagem e do leitor. Ele questiona o aluno e o instiga a ir além – será que o autor quis dizer apenas isso? Qual era o contexto no qual o autor viveu? Quais palavras novas surgiram que ainda eram desconhecidas? Quais sentimentos as ações dos personagens despertam? E por aí vai. É um roteiro ilimitado de possibilidades que o professor pode, e deve, explorar em sala de aula.

Sua importância é reconhecida pelos alunos. Na última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2012, 45% dos entrevistados disseram que foi o professor quem mais o influenciou a ler – 43% disseram que foi a mãe, a avó ou outra figura feminina. É nele, portanto, que reside grande parte da mudança do ensino da leitura. E ele, sozinho, não faz a revolução. O corpo docente, de todos os níveis de ensino, precisa do apoio da gestão escolar para conseguir agir de forma mais efetiva.

“A gestão escolar tem um papel especial na disseminação da formação de leitores porque cabe a ela articular esforços e ações para transformar as práticas escolares com os docentes, funcionários e comunidade”, lembra Marcia Coutinho R. Jimenez, coordenadora da Plataforma do Letramento, uma iniciativa do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e Fundação Volkswagen. “Cabe a ela buscar formas e recursos para constituir ou ampliar acervos, organizar espaços e tempos para a inserção de atividades de leitura na rotina escolar, mobilizar os educadores para que experimentem novas estratégias de trabalho e para que socializem com seus pares as experiências exitosas.” Ou seja, é preciso estar atento – e forte – o tempo todo ao que é feito pelos professores em sala de aula e ampliar as práticas para todo o espaço escolar.

“Uma cultura leitora ajuda a formar leitores. O espaço apropriado, a excelência do acervo, a diversificação de texto e, sobretudo, a biblioteca da escola com uma programação sistemática, viva – humanizando e harmonizando os espaços com tal intencionalidade. A gestão tem de conhecer o que caracteriza um ambiente leitor e mediador de leitura e, assim, democratizar o acesso aos livros”, complementa Cláudia Santa Rosa. “Ver e ouvir outros que leem falar de suas experiências leitoras exerce um efeito fascinante.”

Para Marcia, do Cenpec, quanto mais gente estiver envolvida nesta ciranda literária, melhor, incluindo a família. Um dos projetos realizados pelo Cenpec com a Fundação Volkswagen é o Entre na Roda, que oferece desde 2003 a educadores, bibliotecários, agentes sociais e voluntários a formação continuada para a realização de mediação de leitura. Recentemente, também os gestores e técnicos das Secretarias Municipais de Educação vêm sendo atendidos em formação específica para que compreendam as propostas do projeto e criem as condições necessárias à sua implementação. A iniciativa entende que é preciso amarrar todas as pontas nesse pacto coletivo pela leitura – dos professores aos técnicos das prefeituras. Até hoje, 1.317 instituições de 306 municípios foram atendidas. Até o final de 2014, foram formados 2.680 mediadores de leitura.

Marcia lembra que mais que alargar horizontes e ampliar o conhecimento, ler é, acima de tudo, um direito. “A escola deve oferecer todas as possibilidades positivas de contato com a leitura, levando em conta que, para muitos alunos, serão as primeiras aproximações com os livros.” Se a partir daí o sujeito vai se tornar um leitor autônomo, crítico, empenhado, vai depender de uma série de razões que estão além da escola. Nem todo mundo vai ser leitor para o resto da vida, mas a oferta não pode deixar de existir. Afinal, ler é mais que um prazer. É a peça-chave na formação do cidadão. Ajuda na sua maneira de ser, de se representar no mundo, de saber escutar e usar as palavras certas. Gera empatia.

Ensinar algo tão grandioso é uma tarefa hercúlea, mas, talvez por isso mesmo, uma das mais fantásticas que existem. Nas próximas páginas, apresentamos alguns caminhos para percorrer os capítulos dessa aventura.

A morada dos livros

Cláudia Santa Rosa, diretora executiva do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), do Rio Grande do Norte, é uma grande defensora das bibliotecas como um dos principais cenários da possível mudança no retrato da leitura no Brasil. “Ainda não se deu a devida importância à biblioteca da escola, que tem um potencial extraordinário na articulação da política de leitura – trata-se de um equipamento que pode se tornar agregador de uma comunidade de leitores”, diz Cláudia. Ao mesmo tempo, o bom uso das bibliotecas é fundamental para que os brasileiros cheguem aos livros. Considerando que no Brasil há muito mais bibliotecas públicas municipais que livrarias – 79% dos municípios possuíam, em 2009, ao menos uma biblioteca aberta, o que corresponde a 4.763 bibliotecas em 4.413 municípios, de acordo com o Ministério da Cultura – o acesso ao livro pode e deve ser universalizado por esses canais. Ester Rosa, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), desconfia da máxima de que brasileiro não gosta de ler. “Essa crença é alimentada pelo mercado editorial, que tem no livro um bem de consumo. Nós disponibilizamos livros para todos? Dito isso, a frase correta seria: o brasileiro não compra livros.”

 

Depende da escola

No livro Retratos da Leitura no Brasil, fruto da pesquisa de mesmo nome realizada pelo Instituto Pró-Livro, o doutor em Educação Ezequiel Theodoro da Silva defende que, considerando a presente situação de outras possíveis instituições promotoras da leitura (família, biblioteca, etc.), a solução para os problemas brasileiros de leitura depende, necessariamente, das condições para a produção da leitura na escola. “Em outras palavras, sem a melhoria da infraestrutura escolar, sem a melhoria do ensino, sem a qualificação dos professores e sem serviços biblioteconômicos eficientes (…) será muito difícil, ou mesmo impossível, colocar o Brasil num outro patamar de fruição da leitura da escrita, seja ela manuscrita, impressa ou virtual”, escreve o professor. A terceira edição da pesquisa, realizada em 2011, mostrou que a frequência aos livros mediados pela escola subiu de 34% (2007) para 47% (2011). Além disso, a leitura em resposta a exigências escolares ou acadêmicas correspondeu a 36% de toda a amostra. “Assim (…) a tese relacionada à ‘desescolarização da leitura’ muito dificilmente se aplica ao caso brasileiro, a menos que se opte por tentativas pontuais, sazonais, provisórias e muito provavelmente inócuas em termos de transformação radical das características da leitura e/ou dos perfis dos nossos leitores”, conclui o pesquisador.

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