Os herdeiros dos primeiros brasileiros

Escavações no oeste de São Paulo indicam a presença de grupos pré-históricos que povoaram a região há cerca de quatro mil anos. Pesquisador acredita que diferentes culturas habitaram a mesma área em épocas distantes ou correlatas

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© Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Pajé Tupi-guarani: em São Paulo: vestígios de seus ascendentes têm sido encontrados no estado

O pequeno município de Presidente Epitácio, lo­calizado na margem es­querda do rio Paraná, no oeste do estado de São Paulo, tem atraído nos últimos anos a atenção de muitos arqueólogos. O interesse não tem qualquer relação com os atuais 43 mil habitantes da cidade, segundo dados do IBGE de 2014. Os olhos dos arqueólogos estão voltados para populações que por ali viveram há muitos séculos, mais de mil anos, estima-se. O foco da atenção é o Sítio Arqueológico Lagoa São Paulo 2 – um local cujas escavações trouxeram das entranhas da terra vestígios dos povos caçadores-coletores da Tradição Umbu e Humaitá, além dos ceramistas-lavradores da Tradição Tupi-guarani, com características não muito comuns de serem encontradas em outros lugares.

“Esse sítio foi um local de atração populacional, uma área de influência. Ele apresenta algumas particularidades, como diferentes tipos de sepultamento, o que não é comum em um mesmo sítio arqueológico nessa região, e diversos tipos de decoração em cerâmica, o que também não é comum”, explica o arqueólogo Jean Ítalo de Araújo Cabrera, que defendeu em fevereiro último tese de doutorado na Universidade Estadual de Presidente Prudente (Unesp) sobre o sítio. Antes do doutorado, cujo tema foi O espaço ocupado pelo homem pré-histórico no Oeste Paulista – o caso do Sítio Arqueológico Lagoa São Paulo 2, Jean Cabrera já havia também dedicado sua tese de mestrado às investigações feitas no território.

Durante as escavações foram encontradas pedras lascadas, fragmentos e vasilhas de cerâmica, ossos e urnas funerárias, além de restos de fogueira. As pedras lascadas indicam a presença dos Umbu e Humaitá, os dois principais grupos pré-históricos a povoar a região onde hoje se localiza o estado de São Paulo, entre os anos 6.000 a.C e 450 d.C. Ambas concentraram seu desenvolvimento na região Sul do Brasil, estendendo-se também pelo território uruguaio e argentino.

O homem pré-histórico

O grupo Umbu é considerado herdeiro dos primeiros habitantes do Brasil, de acordo com a teoria que indica estes primeiros brasileiros vivendo por aqui há cerca de 25 mil anos. A tese não é consenso na comunidade científica; os arqueólogos norte-americanos, por exemplo, defendem a teoria de que o primeiro homem americano tem em torno de 13 mil anos. Jean Ítalo crê que esse ponto ainda deve ser objeto de muitos anos de pesquisa para se chegar a um consenso perante a comunidade científica. Divergências à parte, são significativos os estudos que apontam a existência de uma densa população Umbu há quatro mil anos, período que coincide com a estabilização climática semelhante à que temos hoje. Seus abrigos costumavam ser a céu aberto, em áreas planas de vale, perto de rios e córregos ou em abrigos rochosos.

Os vestígios até hoje conhecidos permitem aos pesquisadores estabelecer a área média de suas povoações entre 20 e 100 metros de diâmetro. Alguns sítios estudados trazem à tona apenas poucas dezenas de peças líticas, enquanto em outros aflora farto material. No Sítio Arqueológico Lagoa São Paulo 2, os estudiosos recolheram seixos e blocos indicando a retirada de lascas, e pedras lascadas de diferentes formas e tamanhos, encontradas em até três metros de profundidade no solo.

 

Urna funerária

 

A origem do grupo Humaitá, também presente em Presidente Epitácio, é incerta. Em sua tese de mestrado, Jean Cabrera pontua o entendimento de que eles tenham mantido contato com povoações do sul do Brasil e região fronteiriça, espalhando-se a partir dali e seguindo ambientes florestais, na transição de um clima mais seco e frio para outro quente e úmido. Suas ocupações predominantes são também a céu aberto e em trechos mais altos, como topos de morros, e sempre próximas a rios ou córregos. Neste aspecto, os Humaitás se diferenciam um pouco dos Umbus (que preferiam áreas de campo), privilegiando regiões de florestas. Isto não significa que não tenham co-habitado os mesmos ambientes, como prova o Sítio Arqueológico Lagoa São Paulo 2.

Identificar quando o material lítico pertence a um ou outro grupo é tarefa mesmo para especialistas. Em sua tese de mestrado, o arqueólogo Jean Cabrera descreve que “é possível identificar a grande variabilidade e multifuncionalidades dos objetos líticos, utilização de diferentes técnicas na debitagem de lascas, morfologia diversa, o que induz a investigação a considerar que diferentes culturas habitaram a mesma área em épocas distantes ou correlatas”. Jean explica que os objetos da tradição Humaitá são feitos a partir de seixos ou blocos, originando ferramentas maiores e mais largas, enquanto os artefatos líticos da tradição Umbu se caracterizam por serem produzidos com lascas muito bem trabalhadas, formando objetos de pequenas dimensões, como pontas de projéteis, raspadores, lâminas e facas.

As marcas Tupis-guaranis

A ocupação seguinte do território onde se localiza o Sítio Arqueológico Lagoa São Paulo 2 ocorreu pela tradição Tupi-guarani, ascendente das populações indígenas existentes no estado de São Paulo quando por aqui desembarcou no século 16 o branco europeu. A mudança é importante. Saem de cena os grupos

caçadores-coletores e surge um povo que maneja a agricultura e as técnicas ceramistas.

Estudos indicam que a origem desse povo indígena com grande habilidade em cerâmica teria sido a região da Amazônia Central, no baixo vale do rio Madeira, há cerca de 3.500 anos. Nos séculos seguintes, sucessivas migrações expandiriam-se pelo território brasileiro; no estado de São Paulo, os vestígios remontam a 1.700 anos, indo até o século 17. Os Tupis-guaranis costumavam se estabelecer em topos de morros ou encostas leves, com as cabanas da aldeia dispostas em formato circular ou alongado, e a população média em torno de 500 pessoas.

Acima, pedra lascada da Tradição Humaitá; abaixo, as formas pontiagudas da Tradição Umbu

A variação de objetos cerâmicos descobertos no Sítio Lagoa São Paulo 2 é bem grande. Ali os arqueólogos encontraram fragmentos pequenos, bordas, pedaços grandes e até urnas funerárias – sendo que os tipos diferentes de sepultamento são uma das características marcantes desse sítio. Mas talvez a revelação mais interessante tenha sido a diversidade da decoração das cerâmicas, um fator relevante para entender os hábitos e o desenvolvimento dessa população. Ao todo, 16 diferentes tipos decorativos (entalhado, marcado, acanalado, escovado, raspado, nodulado, entre outros) surgiram nas escavações, com as peças a até 60 centímetros de profundidade.

A análise dos arqueólogos conclui que o povo de tradição ceramista que ali viveu tinha o domínio de avançadas técnicas de pintura e decoração plástica. As pesquisas ainda indicam que o material encontrado no Sítio Lagoa São Paulo 2 tem fortes semelhanças com aquele descoberto no Sítio Lagoa São Paulo 1, localizado não muito longe, no distrito do Campinal, escavado por arqueólogos da Universidade de São Paulo (USP) em 1982.

Os estudos do Lagoa São Paulo 1 datam a cerâmica ali encontrada como tendo até 1.100 anos. Pela semelhança de técnicas, os pesquisadores acreditam que uma mesma cultura ceramista tenha ocupado os dois sítios, o que colocaria a presença dos Tupis-guaranis no Lagoa São Paulo 2 também no mesmo período, com até 1.100 anos.

Sítio-Escola

Foi a construção da Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta que desencadeou o processo de investigação e descoberta do Sítio Lagoa São Paulo 2 e outros da região. Em obras de grande porte, como hidrelétricas, gasodutos ou projetos de urbanização, a lei brasileira exige a participação de arqueólogos nos Estudos de Impacto Ambiental e Relatórios de Impacto ao Meio Ambiente. Tal obrigatoriedade criou um próspero campo de trabalho para estes profissionais, inclusive com a ação sendo batizada de Arqueologia de Salvamento ou Arqueologia de Contrato.

No caso da Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta, criou-se, em 1997, o Projeto de Salvamento Arqueológico de Porto Primavera. A missão: avaliar os impactos ambientais decorrentes da formação do lago da usina, no próprio sítio e arredores. A primeira fase funcionou de 1998 a 2001, período no qual foram localizados 99 sítios arqueológicos. A segunda fase foi de 2008 a 2011, após a constatação de que oito sítios descobertos na fase anterior estavam sob risco, entre eles o Lagoa São Paulo 2.

Depois de mais de 15 anos de estudo e inúmeras relevantes descobertas, o Sítio Lagoa São Paulo 2 hoje tem um outro projeto: o de se transformar num museu. Mais do que isto, um sítio-escola, atraindo alunos da região, como explica Jean Cabrera. “Será um dos primeiros museus onde as urnas vão ficar in loco, no lugar onde foram encontradas. A intenção é que a população conheça o sítio como ele é, veja a característica de uma escavação e o trabalho dos arqueólogos.”

O projeto do museu é uma parceria entre a prefeitura de Presidente Epitácio, a Unesp de Presidente Prudente e a Companhia Energética de São Paulo. Jean não se arrisca em dizer quando o museu-sítio-escola ficará pronto. Ele acredita que talvez uma primeira fase até o final de 2015 ou começo de 2016. Se comparados ao tempo do homem pré-histórico que ali viveu, ao período de dominação Tupi-guarani e mais muitos séculos de esquecimento de seus vestígios sob a terra, espera-se que a inauguração do museu leve só mais alguns poucos anos. Um tempo curto ante a possibilidade de as pessoas verem de perto esta história de milênios.

 

© Ayrton Vignola/Folhapress
Família Tupi-guarani no bairro de Pirituba, zona oeste de São Paulo

 

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