O vínculo do afeto

Fundamental para o processo de aprendizagem, a construção de uma relação de qualidade com os alunos desafia educadores, na mesma medida em que apresenta caminhos concretos para o enriquecimento dos processos em sala de aula

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Afetividade é dar atenção ao que afeta um ser, seja de forma positiva ou negativa

A maioria das pessoas lembra, de alguma forma, como a relação com um ou mais professores marcou sua vida escolar. É simples perceber assim, puxando pela memória, que uma teia de sentimentos, emoções, sentidos e subjetividades se insere na relação entre professor e aluno, determinando a qualidade da escolarização e do processo de aprendizagem. Paradoxalmente, po­rém, nem sempre é fácil trazer esta percepção à luz, transformando o aspecto afetivo em uma parte consciente e intencional da prática cotidiana em sala de aula.

Abordagens afetivas – que enxerguem os alunos integralmente em sua dinâmica de aspectos emocionais, motores, culturais e sociais – não soam naturais para muitos educadores, principalmente depois da educação infantil e dos primeiros anos do ensino fundamental. Uma das causas desta percepção é histórica: a educação ocidental pós-iluminista privilegiou a ideia do aprender associado à aquisição de conhecimento de modo técnico, objetivo e racional. Nesse contexto, alunos e professores pertenciam a universos diferentes e bem determinados, com interação bastante limitada.

À luz do século 21, entretanto, a discussão sobre a afetividade no ambiente escolar ganha nova relevância. Sem outros espaços de convívio e com pais ausentes pelos mais diversos motivos, as crianças estão chegando à escola com uma carência afetiva cada vez maior, apontam especialistas e professores. Problemas da escola atual como violência, indisciplina, desmotivação e dificuldade de manter a atenção podem também ter origem na falta de vínculo com o professor – e, portanto, poderiam ser minimizados na construção deste. Os desafios para transformar uma escola meramente racional em uma escola afetiva, porém, ainda são muitos.

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Nasce o sujeito complexo

Apenas transformações sociais ocorridas muito recentemente (no início do século 20), além dos paradigmas trazidos pela pós-modernidade, abriram caminho para a legitimação de uma visão menos calcada na dicotomia razão-emoções, permitindo uma mudança nas relações também dentro do ambiente escolar.

“O conceito de inconsciente, trazido por [Sigmund] Freud e o movimento psicanalítico, foi um dos que desafiaram a cisão cognição-afetividade, favorecendo uma concepção mais complexa de sujeito. Outros pensadores, como [Jean] Piaget e [Lev] Vigotski, contribuíram para que este novo olhar se disseminasse no campo da educação, trazendo o aluno para um lugar ativo na construção de seu próprio conhecimento”, sinaliza Mário Sérgio Vasconcelos, pós-doutor em Processos Cognitivos pela Universidade de Barcelona e professor de psicologia da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Unesp.

Não é possível afirmar, porém, que as mudanças apontadas pelo especialista tenham sido assimiladas. “Precisamos levar em conta que há uma distância temporal entre o que é produzido na forma de pensamento e o que se estabelece na realidade. Mesmo que contemos com métodos e pensadores que deem centralidade para os afetos, uma parte considerável dos professores ainda tem a crença de que a escola é local de construção de conhecimento e de que este processo se dá apenas pela via da racionalidade”, ressalta Luciano Mendes de Faria Filho, professor de História da Educação da Faculdade de Educação da UFMG.

Mas, afinal, de que afetividade estamos falando? Até mesmo conceituar o termo é difícil, tendo em vista as diversas teorias a respeito (veja abaixo). A definição usada no início desta reportagem – a da construção de uma relação pautada por uma visão de aluno integral, com aspectos emocionais, motores, culturais e sociais – foi escolhida por ser considerada a mais abrangente, capaz de abarcar todos os aspectos da relação entre professor-aluno; aluno-escola. Atente-se, porém, que ela nada tem a ver com “passar a mão na cabeça” ou deixar de estabelecer limites, como evidenciam professores que buscam adotar essa abordagem em sua prática pedagógica (leia nos depoimentos ao longo da reportagem).

Ou que tratar o aluno com afetividade tenha a ver necessariamente com dar carinho ou ser afetuoso. “Trata-se muito mais de dar atenção ao que afeta este ser, seja de maneira negativa ou positiva. Quanto mais o educador tiver consciência do que está presente nas dinâmicas estabelecidas na relação direta com os alunos, maior será a chance de utilizar os recursos corretos para auxiliar o aprendizado”, enfatiza Anita Abed, psicóloga e pesquisadora da Unesco.

Crianças carentes

Além da relação entre alunos e professores, não se deve esquecer que os afetos também determinam a forma como crianças e jovens vivenciam a sua interação com o ambiente escolar – e que este tem um sentido bastante particular dentro do contexto social contemporâneo. “Muitas vezes a escola é o único ambiente em que os alunos podem socializar, compartilhar ideias, se sentirem ouvidos e verdadeiramente valorizados. O que vemos é uma grande carência por parte das crianças e jovens”, explica Ana Maria Império, psicóloga e orientadora Educacional do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo (SP). A diminuição dos espaços de lazer e encontro, o excesso de atividades como cursos e outras obrigações, a diminuição de tempo de convívio com os pais (que realizam jornadas de trabalho cada vez maiores) e a virtualização das relações com o uso das novas tecnologias são alguns dos motivadores dessa carência afetiva, citada também pelos professores ouvidos pela reportagem.

A importância dos afetos sintoniza-se, neste sentido, com o enfrentamento de uma realidade que pode ser observada tanto nas escolas públicas como nas particulares. “O ambiente escolar é atualmente um importante ponto de encontro presencial, tanto entre os alunos quanto desses com os professores. As trocas e atividades possíveis a partir desse encontro devem ser valorizadas ao máximo”, enfatiza o professor Luciano Mendes de Faria Filho.

Valorizados ou não, o fato é que os afetos são parte inerente de qualquer interação humana – dentro ou fora da sala de aula. “Vale lembrar que mesmo o medo, tão usado para coibir crianças e jovens, também é um afeto”, sinaliza o professor Luciano Mendes. O grande desafio é trazer a importância desta dimensão para ações conscientes.

Contrato afetivo

Para Valéria Amorim Arantes, doutora em Psicologia pela Universidade de Barcelona, professora da Faculdade de Educação da USP e organizadora do livro Afetividade na escola – Alternativas teóricas e práticas (Summus Editorial), a atenção para a relação com os alunos é uma chave preciosa, capaz de promover melhorias e transformações positivas e concretas. Ela ressalta que é através de uma espécie de contrato afetivo que o aluno permite ao professor que este o ensine. “O docente é, ainda, uma figura de autoridade e uma referência importante na vida desta criança ou jovem”, aponta Valéria.

É necessário lembrar, ainda, que não é apenas o aluno quem tende a ser beneficiado com uma abordagem mais afetiva. A humanização da relação também pode levar o professor a ampliar o seu desenvolvimento. “Há situações em que o educador se sente profundamente frustrado por não conseguir atingir um aluno da forma como havia planejado. Se tiver a possibilidade de conhecer esse aluno mais profundamente, certamente o profissional perceberá a nature­za das limitações presentes na realidade daquela criança ou jovem. Com esta sensibilidade, o professor passa a compreender melhor o seu próprio trabalho e as direções para as quais o aluno pode avançar”, explica Nina Porto, supervisora de ensino do município de Guarulhos (SP).

Reprodução de modelos

Não se pode negar, entretanto, que a formação dos professores é consideravelmente frágil na oferta de situações de reflexão e prática sobre como estabelecer relações saudáveis e realmente construtivas com os alunos. Sem esta base, muitos profissionais escolhem utilizar o seu conceito pessoal de educação, acreditando ser este o melhor caminho. “É nesse processo, em grande parte das vezes inconsciente, que os educadores acabam reproduzindo os modelos autoritários e de pouco olhar para o outro aos quais eles mesmos foram submetidos em seus lares ou em sua escolarização”, explica Nina Porto. Nina lembra que o modelo de autoridade professor-aluno pode reproduzir ainda outras dinâmicas referenciais da sociedade, como a de classe opressora-classe oprimida ou a de chefe-subordinado.

Para Heloísa Helena de Oliveira Azevedo, professora da pós-graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP), esta irregularidade na formação quando o assunto são as delicadezas presentes na interação com os alunos ajuda a fortalecer uma cultura que enxerga de forma cindida cognição e afetividade. “Existe uma questão de identidade muito interessante que é perceptível em pesquisas que realizo com docentes em formação no curso de pedagogia. A grande maioria afirma categoricamente que ser professor é transmitir conteúdos. Em alguns casos essa concepção acaba até afastando esses profissionais da atuação na educação infantil, fortemente pautada pela interação afetiva e desprivilegiada nos cursos de formação”, assinala a especialista.

“Eu associo muitas vezes a formação do professor com a do médico quando o assunto é a afetividade. Em ambas as carreiras, muitos profissionais saem com uma considerável base teórica, mas pouca consciência de que o sucesso de seu trabalho dependerá, em grande medida, da qualidade na interação com as pessoas”, concorda Ana Maria Império.

Não está apenas nas mãos dos professores, porém, a responsabilidade de construir uma escola mais afetiva. Os gestores também têm um importante papel como reguladores das relações, além de poderem contribuir com informações e estímulos. “Não é fácil mudar uma postura enraizada e solidificada, mas é um processo de longo prazo que vale a pena”, afirma Nina Porto. E, assim como o que se espera em sala de aula, este processo também precisa ser pautado por sentimentos como respeito e confiança.

“Quanto melhores forem as condições dadas aos professores, melhor tenderá a ser sua atuação, inclusive do ponto de vista afetivo. É muito mais complicado dar a devida atenção à relação com crianças e jovens em salas muito cheias ou com paredes muito finas, que obrigam o educador a gritar. O mesmo ocorre se o professor não sentir que pode ter suas ideias ouvidas e respeitadas”, ressalta Luciano Mendes de Faria Filho. “Defendo que é preciso que o cuidado com a afetividade seja nutrido em todas as relações dentro da escola, incluindo aí os funcionários. Desta forma cria-se uma cultura afetiva capaz de influenciar a todos e auxiliar diretamente os professores em seus desafios diários”, completa Ana Maria Império.

Ações para cada etapa

Para que sejam vencidos os desafios da relação com os alunos e a afetividade se transforme em uma ferramenta efetiva, é necessário que estejam claras as intencionalidades do educador em suas ações e escolhas. Na prática, isso significa literalmente prestar atenção na intenção por trás de cada atitude, aproximação, gesto ou fala – percebendo se esta está auxiliando ou não na construção de sentimentos positivos, como respeito e confiança. Isso levando em conta que a natureza dessas intencionalidades pode variar de turma para turma, de aluno para aluno e também de etapa para etapa do processo de escolarização.

Na educação infantil, por exemplo, o contato e a qualidade da relação são culturalmente mais va­lo­rizados, mas o desafio é não resvalar no cuidado inconsciente, de aspecto quase maternal. “Nesta fase toda e qualquer atividade precisa ser pensada como fomentadora do desenvolvimento da criança. Mesmo trocar uma fralda é uma ação que pode ser feita com mais qualidade se o educador estimula o bebê através de sua voz, por exemplo. Esta intencionalidade é fundamental, inclusive, para que esse educador seja legitimado como o profissional especializado que é”, aponta Heloísa Helena de Oliveira Azevedo, que também é autora do livro Educação infantil e formação de professores – Para além da separação cuidar-educar (Editora Unesp).

No Fundamental I, a afetividade continua legitimada, embora já se iniciem aí olhares que separam a cognição dos afetos, processo que ganha ainda mais força no Fundamental II, com a presença dos especialistas. O ensino médio e seu olhar que já aponta o mercado de trabalho tende a ser o momento em que a relação professor-aluno é menos valorizada do ponto de vista afetivo. A possibilidade de estabelecer uma relação intencionalmente voltada a facilitar o desenvolvimento dos alunos, porém, permanece aberta em todas as etapas.

“Cada momento da vida escolar apresenta relação com os questionamentos, angústias e dificuldades experimentadas pelos alunos. No ensino médio o professor pode criar conteúdos ligados ao projeto de vida dos jovens, ajudando-os a tatear possibilidades de futuro e levando-os a questionar o sentido que a felicidade tem para cada um. O ambiente escolar também pode contemplar este tipo de atividade”, enfatiza a professora Valéria Amorim Arantes. Outros caminhos podem ser encontrados dentro da própria cultura escolar e das dinâmicas de cada turma. “Alguns profissionais acham importante buscar embasamento teórico sobre a afetividade. Isso pode ajudar, mas creio que o mais importante seja o professor investir em estar presente, de olhos, ouvidos e sensibilidade bem abertos”, afirma Marcos Cezar de Freitas.

Inteligência e afetividade

Exemplo de como a intencionalidade afetiva e o embasamento teórico podem gerar resultados concretos, o Letras e Livros foi concebido pela doutora em Educação Heloysa Dantas de Souza Pinto e implantado na Escola de Aplicação da Faculdade Educação da USP, na década de 80. Inspirado na relação entre inteligência e afetividade a partir do pensamento de Henri Wallon, o projeto partia do pressuposto de que para algumas crianças, sobretudo nas primeiras séries do ensino fundamental, era necessário um acompanhamento individualizado e mais próximo, que passou a ser construído em sessões de leitura na biblioteca da escola. Laura Dantas de Souza Pinto, Mestre em Educação e filha de Heloysa, levou o projeto para as escolas públicas de Embu das Artes (SP) e, entre 2000 e 2007, verificou resultados extremamente animadores.

“O Letras e Livros cria uma atmosfera que privilegia sentimentos que favorecem o aprendizado, como a alegria. Outro ponto importante é construir relações individualizadas de confiança. Estas possibilitam à criança ou jovem perder o medo da leitura e também de ser julgado por conta de algum fracasso escolar pregresso”, conta Laura Dantas. As escolhas dos livros também são feitas de acordo com o gosto de cada pequeno leitor, e caso seja necessário, o educador lê junto e até para o aluno, em um processo profundamente delicado. Um mapeamento realizado após sete anos do projeto apontou uma diminuição drástica no número de crianças com problemas de leitura no município de Embu das Artes.

Entretanto, é preciso alertar: o uso da afetividade não é sinônimo de sucesso escolar. Mas é essencial para que o aluno dê os passos que é capaz de dar com segurança, mesmo que em princípio isso signifique apenas ir para a escola com mais vontade ou cuidar com mais atenção do próprio caderno. Dependendo do aluno, essas ações podem significar, sim, grandes conquistas. E quanto mais o professor estiver habilitado para enxergar essas singularidades, mais rica e consistente tende a se tornar a sua atuação.

 

 As bases teóricas da afetividade

Lev Vigotski (1896-1934), Jean Piaget (1896-1980) e Henri Wallon (1879-1962) formam uma tríade de extrema importância para o pensamento sobre o desenvolvimento da criança, a construção do conhecimento e da inteligência. Cada um deles, dentro de sua abordagem específica, tratou da importância da afetividade, criando conceitos capazes de auxiliar na compreensão do tema. Abaixo, seguem de forma sintética os caminhos apontados por esses pensadores, um convite para o aprofundamento teórico acerca da relação afetos-aprendizagem.

Lev Vigotski escreveu vários textos relacionados à afetividade, dentre eles A educação do comportamento emocional (no livro Psicologia pedagógica, Vigotski, 2003). Sua grande preocupação se detinha na separação entre afetividade e cognição, influenciada fortemente pelo pensamento cartesiano. Para o pensador, as dimensões do afeto e cognição estão desde cedo dialeticamente relacionadas no desenvolvimento da criança. E o repertório cultural, as várias experiências e interações com outras pessoas também representam fatores imprescindíveis para a compreensão dos processos envolvidos na construção do conhecimento.

Jean Piaget explica o desenvolvimento cognitivo considerando os elementos afetivos como complementares e essenciais. O pensador enfatiza o papel regulador da afetividade por meio de sentimentos de pressão e depressão – processo fundamental, por exemplo, para o desenvolvimento da inteligência sensório-motora, que para Piaget ocorre entre os 6 e os 8 meses de idade e da fala, que se inicia aos 2 anos. O pensador conclui que se toda conduta possui um aspecto afetivo (energético) e estrutural (cognitivo) é fundamental o rompimento da dicotomia entre afetividade e inteligência; ambos devem ser estudados e levados em conta no desenvolvimento infantil.

Henri Wallon defendeu que o ser humano se constrói na interação social, no confronto com o outro. Mesmo o desenvolvimento motor e sensório é fortemente influenciado pela qualidade dos afetos experimentados pelas crianças. Nesse sentido, não apenas o estado afetivo pode resultar em facilidades ou dificuldades na aprendizagem, como o sucesso ou o fracasso na aprendizagem têm o poder de afetar o estado afetivo. Wallon também salienta como as emoções e sentimentos podem contaminar um grupo de alunos e o quanto um ambiente afetivo que promova sentimentos como a alegria pode ser capaz de auxiliar verdadeiramente nos resultados em sala de aula.

 

 “Eles precisam saber que nos importamos”
Mábio Ulisses Gomes

Professor de ciências do 9º ano do Colégio Paulista COPI, (SP), Mábio Ulisses Gomes considera a intencionalidade afetiva uma das principais ferramentas de seu trabalho. “Sei que é importante oferecer ao aluno a possibilidade de construir um vínculo afetivo comigo”, conta o professor.

Dentre as estratégias de aproximação utilizadas pelo professor está falar para os alunos sobre assuntos pelos quais ele próprio tem interesse genuíno, como bandas de rock, a série Star Wars ou o desenho. “Eles começam a me perceber como um ser humano também, alguém com quem podem ter algo em comum, compartilhar e construir junto, sem medo”, relata o professor. Esta postura, porém, não significa deixar os limites de lado. “Eu sinto que eles precisam saber que nos importamos, que somos dignos de confiança, que estamos preocupados com o bem-estar deles. E quem se importa às vezes dá bronca, coloca limites, exige. Mesmo com o lado mais próximo, com os papos e brincadeiras, eles precisam saber quem é a autoridade, o adulto da relação”, completa.

Outro fator que Mábio aponta como de grande importância para que o professor consiga ser assertivo na relação com os alunos é o acesso às informações sobre a realidade deles fora da escola. “Se uma criança está passando por um momento traumático, por exemplo, ela precisará ser observada com mais cuidado. Ignorar isso pode trazer um prejuízo imenso a ela”, aponta. “Eu sinto que o que faço é muito mais do que simplesmente ensinar ciências. Antes, eu sou um professor – o que significa ser uma referência importantíssima para todos que passarem pelas minhas turmas. Há colegas que não concordam com o meu modo de atuar e acreditam que é melhor manter maior distanciamento. Até agora eu não consegui encontrar nenhum motivo para fazer esta mudança.”

 

 “Com afeto é mais fácil chegar até eles”
Lucineide Viana Roque

A professora de língua portuguesa Lucineide Viana Roque não se imagina abrindo mão da afetividade em sua atuação. “Eu já dei aula para alunos de todas as idades e, para mim, todos precisam de atenção, de serem vistos como seres humanos. Ainda mais se levarmos em conta o quanto essas crianças e jovens são carentes”, relata.

Atualmente diante de turmas do ensino médio da Escola Estadual Professor Hernani Furini, em Guarulhos (SP), Lucineide aponta que a aproximação com os alunos exige cuidados e delicadezas. “Eu gosto de gratificar os alunos de forma lúdica: ainda faço coisas como colocar estrelinhas no caderno, por exemplo. Pode parecer uma bobagem, mas funciona e estimula os jovens a realizarem tarefas. Também procuro estar aberta caso eles sintam necessidade de buscar apoio ou conversar sobre algum assunto. É evidente que é necessário colocar limites, mas o que sinto é que esta postura me ajuda”, explica Lucineide. “Eu quase não tenho problemas com indisciplina na sala de aula e sinto que isso acontece por causa da relação de confiança e respeito que construímos.”

Não são todos os alunos, porém, que aceitam ou gostam da forma da professora de se colocar. “Eu já escutei alunos dizerem abertamente que não gostavam do meu jeito. Nessas horas eu busco escutá-los para compreender o que incomoda e como eu posso respeitá-los em seus limites, sem desistir de auxiliá-los em seus processos.” O gasto de energia, afirma a professora, com certeza é maior do que em abordagens mais pragmáticas. “A questão é que eu vejo os resultados e sei que vale a pena. Não tive ênfase nesta parte do ensino em minha formação, mas depois de mais de 15 anos em sala de aula tenho convicção de que, com afeto, é bem mais fácil chegar até eles”, sinaliza.

 

Ser professor não é estar acima da condição humana”
Ricardo Ishiyama Martins 

Para Ricardo Ishiyama Martins, professor de história no Fundamental II da EMEF Joaquim Nabuco, em São Paulo, estabelecer uma relação afetiva com os alunos é, em muitos casos, atentar para pequenos detalhes. “Eu percebo que só de fazer a chamada por nome e não por número já se estabelece um contato mais próximo”, explica. Da mesma maneira, segundo ele, compreender as tendências de cada turma e escutar as expectativas e conceitos de vida dos alunos pode auxiliar, e muito, a criar propostas ligadas aos conteúdos. “Esses papos me ajudam a saber como trazer os temas de forma mais interessante, como é possível envolvê-los e estimulá-los.”

O professor de história lembra que esta abordagem faz com que seja preciso pensar cada turma em sua singularidade – e que nem sempre as estratégias surtem o efeito desejado, por mais afetiva que seja a relação. “Quando, apesar dos esforços, você não consegue tocar um grupo de alunos, o sentimento é de frustração. O importante é não desistir – e lembrar que as frustrações fazem parte de qualquer tipo de relação humana”, pondera Ricardo.

O professor também relata que há um exercício emocional a ser feito no esforço para não deixar que as dificuldades encontradas em uma turma contaminem o ânimo na hora de estar diante de outros alunos. “Ser professor não é estar acima da condição humana, mas temos uma responsabilidade muito grande como referência que somos. O melhor caminho, eu acho, é estar sempre de olho nos afetos e em nosso próprio equilíbrio, fazendo o possível e aprendendo com cada relação.”

 

 “Cada realidade apresenta um desafio”
Professora de escola pública de SP

Professora de 1º a 4º ano do Fundamental I em uma escola pública da rede municipal de São Paulo, essa professora não teve autorização oficial para dar seu depoimento, por isso preservamos sua identidade. Segundo afirma, ela hoje encontra apoio para estabelecer uma postura mais afetiva. “Eu lido com centenas de crianças, cada qual com sua realidade. Tento me aproximar delas e conhecer suas histórias, além de oferecer oportunidades de expressão em minhas aulas. A estrutura que encontro me auxilia, com trocas constantes de experiências e de informações sobre as crianças”, explica. Mas em outros ambientes escolares não era assim. “Em outra escola já fui orientada a não tocar de jeito algum nos alunos, mesmo se esses viessem me abraçar. O temor era de que pudessem surgir processos de agressão ou de assédio. A escola ficava numa área socialmente vulnerável e a relação com a comunidade era tensa”, conta a professora. “Em um contexto assim o professor fica mais travado e tende a se tornar mais frio e distante”, completa.

Da mesma maneira, ser afetivo em cenários sociais marcados por fatores como pobreza e violência pode exigir um nível elevado de preparo emocional por parte do educador. “Você acaba conhecendo as histórias de crianças que passam por coisas terríveis e, como ser humano, se sente tocado também. Então precisa aprender a delimitar a sua atuação para ser afetivo sem perder a própria saúde”, assinala a professora. “Cada realidade apresenta um desafio. E em todas é extremamente gratificante quando você percebe que conseguiu oferecer uma influência positiva e inspiradora”.

 

Leia mais
O afeto na relação professor-aluno em Freud pensa a educação
(Editora Segmento)

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