O vazio editorial

Os jornais normalmente defendem um ideário na política e na economia, mas não construíram nenhum na educação

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É recorrente no Brasil, em especial nos círculos agora tão alargados da classe média, a atribuição de responsabilidade a terceiros por coisas que afetam a nós mesmos e às quais afetamos, por ação ou inação. Assim, a corrupção e a inépcia são sempre vergonhosas, mas raramente temos algo que ver com isso.


Nós, jornalistas, não fugimos à regra. Nas páginas de jornais e revistas (especializadas ou não), nas telas de TV e ondas do rádio, muito se tem falado, quase sempre de forma ácida, sobre a educação brasileira, que não educa, não forma para o trabalho, não incute os rudimentos da matemática e da língua portuguesa na mente no educando.
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Mas, ao longo dos debates do Seminário Internacional de Educação, Jornalismo e Comunicação, realizado pelas revistas Educação, Negócios da Comunicação e pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais nos dias 9 e 10 de setembro, em São Paulo, tivemos a oportunidade de ver o quanto fazemos parte dessa engrenagem.


Como na sociedade em geral, há um discurso que atribui importância estratégica à educação. Mas, se de um lado não há investimento nem compromisso social equivalentes a essa aludida importância, de outro não há estrutura e nem preparo para a cobertura educacional. Nos nossos jornais, a educação continua sendo um assunto episódico ou resultante da militância do repórter ou editor que gosta do tema. Não é institucional. Não tem editoria específica, como a política ou a economia. Não pressupõe que o jornalista que cobre a área saiba o que são as memórias de Condorcet sobre a instrução pública, ou as escolas-parque de Anísio Teixeira, como o repórter que cobre política deve conhecer Maquiavel, ou o de economia, Marx e Stuart Mill.


Não há espaço fixo, e também não há projeto editorial. Ou seja, os jornais normalmente defendem um ideário (se nos editoriais ou no noticiário, é outra história) na política e na economia, mas não construíram nenhum na educação, a não ser aquele que responde aos clamores do linchamento – dos professores, da qualidade, da escola pública. Tampouco as faculdades de jornalismo têm prestado atenção ao tema.


O panorama sul-americano não é tão alentador: Ricardo Braginski, do Clarín (Argentina), mostrou uma linha editorial clara e bem formulada, porém relegada a segundo plano com as restrições de papel em seu país; Elizabeth Simonsen, do La Tercera (Chile), relatou o quanto a cobertura de seu país acaba balizada pela agenda e por critérios dos economistas, muitas vezes descontextualizados de princípios educativos básicos, em prol de uma objetividade pouco cidadã. Já Silvia Bacher, jornalista da ONG Las Otras Voces, também da Argentina, reportou um estágio mais avançado de cuidados para analisar a qualidade da produção audiovisual para crianças, numa iniciativa da sociedade civil.


Do nosso lado, nem mesmo o aumento no espaço dedicado à educação nos últimos anos é percebido. A cobertura parece restrita a casos de violência, fraudes, problemas cotidianos. O lado estrutural é jogado a escanteio. Temas como currículo, financiamento, formação docente, falta de infraestrutura física e humana parecem provocar bocejos. Mas ainda vão tirar o sono de muita gente, como mostraram as manifestações de junho e a recente paralisação de professores no Rio de Janeiro. Vácuos dessa natureza sempre constituem uma oportunidade. Para o bem, ou para o mal, dependendo de quem os aproveite.

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