O treino do olhar

As histórias do escritor angolano Gonçalo M. Tavares mostram que o mundo não se oferece à visão a qualquer hora. E que é preciso descortiná-lo com pudor

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O angolano Gonçalo M. Tavares (1970- ), referência na atual ficção em língua portuguesa, e já traduzido para muitos idiomas, produz poesia, teatro, conto e romance. Escreve textos que fazem pensar, sofrer e sorrir, o que não é provocar pouco nos leitores, quando se deseja viver uma carreira literária sem falcatruas e literatices.
E nós, leitores, o que esperamos? Esperamos de um escritor que nos conte histórias, em prosa e em verso, e para além do verso e da prosa. Histórias baseadas na vida pessoal e/ou na vida alheia. Histórias carregadas de imagens, de ideias, de intuições, de paradoxos, de humor, de sustos e alívios, de amores e ódios. Histórias várias e variadas, que nos ensinem (dentro ou fora da sala de aula!) a ser mais humanos.
As histórias de Gonçalo não poderiam ficar alheias à educação, porque esse é um tema que ultrapassa os limites do pedagógico, do acadêmico e do escolar.


O que é aprender?


Uma leitura educadora só ensina na medida em que o leitor queira aprender. A sua atenção deve redobrar-se. Não há espaço para a passividade. Para o lugar-comum. Para o comodismo mental. A literatura pede demais. Entre outras coisas, a releitura. O que nos faz "treinar os músculos da paciência", como escreve Gonçalo Tavares em O senhor Calvino (Casa da Palavra, 2007).

O senhor Calvino é alguém que se dedica a aprender por conta própria, realizando atividades não convencionais. Por exemplo, carregar um balão cheio de ar nas ruas, no trabalho, no transporte público, durante o almoço… esta sua dedicação a objeto tão vulgar como o balão ajuda-o a realizar um exercício fundamental: "treinar o olhar sobre as coisas do mundo".

Em casa, o senhor Calvino colocou em sua janela cortinas que devem ser desabotoadas. Sete botões a abrir para ver pela janela, sete botões a fechar depois de ver o mundo. O mundo não está disponível a qualquer hora. É preciso descortiná-lo com pudor. E por isso, daquela janela, "o mundo não era igual".
Criador de seus próprios métodos, o senhor Calvino decidiu colocar uma colherzinha de café ao lado da pá, impondo-se a tarefa de transportar 50 quilos de terra de um ponto a outro usando, não a pá, mas a colherzinha:

Com a colher pequenina cada bocado mínimo de terra era como que acariciado pela curiosidade atenta do senhor Calvino.
Paciente, cumprindo a tarefa, sem desistir ou utilizar a pá, Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.


Religiões existenciais


Os personagens de Gonçalo Tavares, e ele próprio, criam para si religiões existenciais, ritos,  regras, proibições, dogmas. É assim que vão aprendendo a viver. Fazendo experiências paralelas, observando o mundo com novos interesses, testando os objetos e tomando decisões bizarras.
O senhor Juarroz é outro nessa galeria de tipos estranhos, cujos nomes são retirados do universo literário – o senhor Calvino faz lembrar Italo Calvino (1923-1985), o senhor Brecht, que veremos mais adiante, alude a Berthold Brecht (1898-1956), e o senhor Juarroz remete ao poeta argentino Roberto Juarroz (1925-1995).
As atitudes estranhas do senhor Juarroz são metáforas vivas:



Viagem longa




Como gostava de ler e ia para uma viagem longa o senhor Juarroz decidiu pôr na mala seis exemplares do mesmo livro.
(O senhor Juarroz, pela
Casa da Palavra, 2007).

Por que seis exemplares? Esta é a pergunta óbvia e um tanto irritada, pois não faz o menor sentido carregar seis exemplares do mesmo livro, por mais longa que uma viagem seja. A multiplicação absurda fere o bom-senso. A mala ficará pesada à toa. Como pode alguém, que gosta de ler, prender-se a um só título? Que espécie de fanático se dedica a um único livro?
Contudo, procurando pensar de modo inabitual, talvez o inusitado faça sentido. Se relermos várias vezes um texto tão breve quanto enigmático, acabaremos por encontrar nele uma provocação, uma inspiração inédita. Criar hipóteses e interpretações para o que, a princípio, parece mero jogo de palavras, estimula a inteligência
e a sensibilidade.
Talvez o senhor Juarroz tenha um medo patológico de perder livros, e por (in)segurança leva consigo seis exemplares da mesma obra. Ou talvez queira estar prevenido e, encontrando uma oportunidade, presenteie cinco outras pessoas com os exemplares de que dispõe. Ou talvez distribua os exemplares por seis pontos diferentes do local onde estiver, para retomar o fio da meada a qualquer momento. Ou talvez esse livro seja da autoria do próprio Juarroz, e ele leva os exemplares que restaram dos que a editora lhe entregou na ocasião do lançamento. Ou talvez… Ou talvez…
A imagem do mestre
E quem é o professor ou a professora? Numa de suas breves histórias, no livro O senhor Brecht (Casa da Palavra, 2005), o mestre erra:



O mestre


O mestre mais importante da cidade queria desenhar uma circunferência, mas errou e acabou por desenhar um quadrado.
Pediu aos alunos para
copiarem o seu desenho.
Eles copiaram, mas por erro, desenharam uma circunferência.

O próprio texto é uma circunferência. Começa com um erro e com outro erro termina. O mestre quer a perfeição (o círculo). Sua imperfeição leva-o ao inesperado (o quadrado). O mestre não titubeia e, por saber de sua importância na cidade, para não perder o prestígio, resolve pedir aos alunos a cópia servil. Os alunos devem simplesmente copiar o que o mestre fez, desconhecendo, no entanto, a intenção original. Os alunos erram, o que aliás era de se esperar! Mas por um feliz acidente… acabam acertando!
Ensinar e aprender em caminhos opostos e surpreendentes. Errar é humano, isso é certo! A didática deve contar com esse dado irrefutável. Nada de estigmatizar os erros dos alunos, e muito menos dramatizar os erros do professores. Os alunos acabaram aprendendo o que o professor não conseguiu ensinar. Não temos aí um elogio à inteligência dos estudantes? E não temos aí também um elogio (irônico) ao professor que, mesmo errando, insistiu em ensinar?


* Gabriel Perissé


(



www.perisse.com.br



) é doutor em Filosofia da Educação (USP) e professor do Programa de Mestrado/Doutorado da Universidade Nove de Julho (SP)

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