O tempo que nos une

O ato educativo é um compromisso com a durabilidade de um mundo histórico

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E, afinal, o que é o tempo?, pergunta-se Agostinho em Confissões: “Se ninguém me pergunta eu o sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada”. De fato, sabemos o que queremos dizer quando afirmamos que não temos tempo, quando perguntamos há quanto tempo algo aconteceu ou quando constatamos que “o tempo voa”. Mas essa familiaridade com alguns usos cotidianos da noção de tempo não implica que compreendamos a natureza da experiência humana com o tempo.

Para Agostinho a experiência humana do tempo não é a mera passagem contínua de instantes desconexos, mas um presente que se reparte em três dimensões interligadas: a lembrança, que faz o passado tornar-se presente; a expectativa, que faz o futuro mostrar-se como uma possibilidade presente e o próprio presente, em que manifesto a atenção do momento. O tempo não é, pois, algo externo ao homem, mas uma dimensão de sua estrutura psíquica que, no presente, distende-se para o passado e para o futuro. A experiência dessa temporalidade é, pois, o que nos faz seres enraizados no passado e capazes de projetos futuros; que nos transforma em seres atuantes ao longo de um tempo que tem duração e se prolonga entre o passado e o futuro. Trata-se, portanto, de uma experiência que nos aparta dos outros animais que só vivem num eterno presente, sem rastros do passado nem expectativa quanto ao futuro.

Em um sentido muito amplo, a educação é um processo de iniciação e vinculação à experiência de durabilidade no tempo do mundo humano. Ao participar de um legado de realizações simbólicas e materiais (como uma língua, um mundo de objetos cuja existência nos precede) inserimo-nos em um mundo propriamente humano que nos vincula àqueles que nele nos precederam e nos responsabiliza pela sua continuidade e renovação ao longo do tempo. Por isso educamos aqueles que chegam a esse mundo, de forma que as linguagens, práticas e hábitos que nos constituíram como sujeitos possam se manter vivos e conferir um sentido a cada existência individual.

Essa tarefa de inserção na experiência da temporalidade humana pode tomar – e tem tomado – diversas formas ao longo da história. Por vezes ela se revela na reverência ao passado, como na civilização romana ou no culto à ancestralidade. Noutras, é a dimensão do vínculo com o futuro que sobressai, como na idéia iluminista de uma história linear e pautada pela noção de progresso. Mas em qualquer um desses casos, o vínculo com a história pregressa e futura é o que confere sentido ao presente. E é esse vínculo que parece estar ameaçado por uma cultura, como a nossa, centrada na ideia de gozo do presente como valor máximo da existência humana.

Restrito ao presente, o ser humano perde a profundidade de um ser que tem história; perde a liberdade que o constitui como  ser responsável pelo futuro. Por isso o ato educativo é, necessariamente, um ato de compromisso com a durabilidade de um mundo histórico. E ele só realiza esse compromisso ao assumir a responsabilidade de cuidar dos legados históricos e fincar os compromissos com sua renovação no futuro.

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