O retorno do (ainda) pequeno Nicolau

Escola é deixada para trás e o significado universal das férias escolares é pontuado como tema central no regresso do garoto francês aos cinemas

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Divulgação
Cenas de As férias do pequeno Nicolau: um olhar curioso para o mundo e particularmente irônico para os adultos

Sabe-se que crianças tendem a se identificar mais facilmente com filmes protagonizados por atores da sua idade, vivendo situações parecidas com as que conhecem no cotidiano – ainda que ambientadas em outras culturas. O significado das férias escolares, por exemplo, é universal, por mais que atividades desse período variem muito de acordo com a condição socioeconômica de cada família e com o lugar onde ela vive. Muitos aproveitam para viajar – daí o conceito de “alta temporada”, que encarece os custos de passagens e de hospedagem – e, desses, muitos vão para a praia, como em As férias do pequeno Nicolau (França, 2014, 97 min).

Criado por René Goscinny, Nicolas (na grafia francesa) chegou pela primeira vez ao cinema em meio às comemorações pelo cinquentenário do personagem, em 2009, no longa-metragem O pequeno Nicolau. Com o êxito internacional, realizar uma continuação tornou-se algo inevitável, mas o processo não foi tão rápido que pudesse assegurar a presença do mesmo ator no papel do menino. Manteve-se, no entanto, a abordagem romântica da França dos anos 1950, procurando se aproximar da visão que crianças teriam daquele período histórico.

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Na adaptação do diretor e roteirista francês Laurent Tirard, responsável também pelo primeiro filme, os comportamentos adultos são ironicamente criticados (em alguns casos, ridicularizados), sempre sob a perspectiva das crianças, durante a estadia da família de Nicolau em um balneário. É o que também garante o interesse para adultos dessa comédia de aventuras, mas sem comprometer o divertimento que ela proporciona ao público infantil, numa trama em que a escola só aparece no início para ser animadamente deixada para trás, como sabem todos os que entraram em férias escolares ao menos uma vez na vida.

Goscinny
Muito popular na França, a obra do escritor René Goscinny (1926-1977) inclui o universo de Asterix, ilustrado por Albert Uderzo. Em 1959, em parceria com o desenhista Jean-Jacques Sempé, Goscinny criou “le petit” (o pequeno) Nicolas, que também se enraizou na cultura nacional. Suas aventuras envolvem amigos de nomes extravagantes, como Rufus, Alceste e Clotaire, e um olhar curioso para o mundo.

Elenco
O estreante Maxime Godart, que interpreta Nicolau no filme lançado em 2009, cresceu e precisou ceder o lugar nessa continuação a outro estreante, Mathéo Boisselier. Nos papéis dos pais do menino, permaneceram os atores Valérie Lemercier (Asterix e Obelix: a serviço de Sua Majestade) e Kad Merad (Não se preocupe, estou bem!, A Riviera não é aqui).

Filmografia
O francês Laurent Tirard estudou cinema na New York University e trabalhou como repórter e crítico da revista Studio, pela qual realizou as entrevistas reunidas no livro Grandes diretores de cinema. Estreou na direção em 2004, assinando filmes como As aventuras de Molière (2007), O pequeno Nicolau (2009) e Asterix e Obelix: a serviço de Sua Majestade (2012).

FILMOTECA

Longe da escola

Confira outros longas-metragens em que crianças e adolescentes vivem situações especiais bem longe da escola:

O pequeno fugitivo (1953)
Um marco no uso de crianças como protagonistas e, também, por filmagens nas ruas de uma grande cidade (Nova York). Ao ser convencido de que matou seu irmão mais velho, um menino (Richie Andrusco) se esconde em um parque de diversões.

Os incompreendidos (1959)
Um dos primeiros filmes da “nouvelle vague”, um dos principais movimentos na história do cinema. Jean-Pierre Léaud interpreta Antoine Doinel, personagem que retornaria depois em outros filmes de Truffaut, aqui se rebelando contra a escola e os pais.

Curtindo a vida adoidado (1986)
Tornou-se com o tempo (e as reprises na TV) uma espécie de “filme de culto” sobre dar as costas para a escola e ir ao encontro do mundo. Matthew Broderick é o protagonista, ídolo de diversas gerações ao montar uma estratégia para “matar” as aulas e se divertir.

A fita branca (2009)
Esse drama ambientado um pouco antes da I Guerra Mundial ilustra a “estratégia do incômodo” praticada pelo diretor austríaco Michael Haneke. Crianças e adolescentes se envolvem em situações misteriosas que adultos tentam elucidar.

O garoto da bicicleta (2011)
Os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne (O filho, A criança) apresentam o drama de um menino (Thomas Doret) que, abandonado pelo pai, vive em um orfanato até que uma cabeleireira (Cécile De France) se interessa pela sua guarda provisória.

Tão forte e tão perto (2011)
Um menino (Thomas Horn) se torna obcecado por seguir pistas na cidade relacionadas à memória de seu pai (Tom Hanks), que morreu nas torres gêmeas do World Trade Center, nos atentados a Nova York, em 11 de setembro de 2001.

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