O quase mercado escolar

Conheça depoimentos de funcionários de escolas públicas sobre o processo de seleção nas unidades públicas de ensino

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Gustavo Morita
Algumas práticas de seleção de alunos acontecem especialmente no início da segunda etapa do ensino fundamental, segundo pesquisa



A pesquisa Processos velados de seleção e evitação de alunos em escolas públicas, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), indica que escolas de “boa reputação” conseguem, por meio de práticas veladas, selecionar os alunos que entram e, principalmente, que vão permanecer na unidade, como mostra a reportagem “Em busca dos melhores“.

Os mecanismos são variados. Um deles, por exemplo, é a consulta ao histórico do aluno no momento de um pedido de vaga. Ao tentar escolher seus alunos, as escolas visam a manutenção do que consideram um bom ambiente escolar.


O estudo conduzido pelo Cenpec entrevistou funcionários que trabalham em escolas públicas e que estão diretamente envolvidos no processo de matrícula: secretários, agentes escolares e auxiliares técnicos de educação. Confira, abaixo, alguns desses depoimentos.


“Em algumas escolas nós sabemos que, se o aluno é da escola X, [dizem:] eu não tenho vaga, mas se é da escola Y, eu ainda aceito. Então, tem ainda alguma coisa nisso, em relação ao pseudo-desempenho desse aluno”


“A gente diz assim: ”não fica esperando, porque pode não aparecer a vaga, vai ser muito difícil de aparecer vaga, porque está superlotado”. A gente já fala assim para a pessoa não ficar com aquela esperança, e aí já orienta:  ”olha, vai a tal escola, vai a tal outra” e aí a pessoa não fica presa naquela esperança de conseguir vaga na escola”


“Se a mãe manifesta, se ela argumenta que “lá tem um ensino melhor” vem com um argumento bacana, então vai pra lá [o pedido é aceito]. Agora, [se a justificativa é] simplesmente por mudar, aí nós investigamos [o histórico do aluno] até pra ter um feedback”


“Transferência a gente não tem como avaliar. Agora, de final de ano a gente tem. Porque, se o menino está sendo transferido no final do ano e mora no bairro, o que ele tem? É que foi expulso”


“Não, a cor, o sexo, nada disso influenciava. [Quem era aceito] Era aquele que não ia dar problema para ninguém, para direção, para os outros alunos, aqueles que você achava que eram mais calminhos”


“A gente liga na escola para ver como é o comportamento do aluno. Eles não falam: ”não matricula”. Eles falam: ”ah, vocês sabem como é, né? Ele foi convidado”- a gente não fala expulso – ”ele foi convidado a se retirar””


“Quando vem de outra escola, porque às vezes vem de um outro bairro que a gente não conhece a secretária,  a gente abre o sistema para ver como são as notas, se não tem muita falta, se tem nota vermelha”


“Tem alguns casos, por exemplo, de criança que estudou e foi retida por falta muitos anos seguidos, foi e voltou por várias escolas,  o diretor acaba barrando sim a volta dessa criança”


“Tem uma família que tem o sobrenome XXX e todos eles têm algum problema. Os pais não trabalham, querem Bolsa Família, estão todos inscritos nesses projetos sociais, mas não trabalham, só ficam recebendo realmente as bolsas. Então todo aluno que chega lá com esse sobrenome já sabe que… [interrompe]”


“Se é um aluno problema, é passado pelo Conselho Escolar pra ele ser expulso. Mas hoje em dia eu vejo que a coisa é meio liberada, deu problema, vai embora. Tipo: ”joga a bola pro outro, não vamos trabalhar com esse menino””


Leia mais:
– IDEB: As práticas veladas para recrutar os melhores alunos

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