O precoce adeus a uma amiga

Como revelar esse desatino da vida a quem chegou a ela há tão pouco tempo?

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Moana dizia que Ines era sua melhor amiga. Encontraram-se pela primeira vez quando tinham oito e quatro meses de idade, respectivamente. Desde então, malgrado a distância a lhes separar, viram-se muitas vezes e conviveram de forma estreita neste último ano; até que por um capricho do destino, por um descuido dos homens  – ou por um cochilo de Deus – Ines foi-se embora. Levou seus cachos dourados, seu sorriso maroto e tudo que a força de sua vida prometia para lá, onde o oculto  e o mistério fincam suas raízes.


Como revelar esse desatino da vida para alguém que a ela chegou há tão pouco tempo? Mas como esconder que a amiga nunca mais estará lá para vestir fantasias de princesas, trocar as roupas das bonecas polly pocket? Olhávamo-nos, eu e Diana, perplexos e sem saber por onde caminhar, até onde ir com nossa filha nesse desvelar da frágil finitude da vida. Como saber se é cedo demais? Se a imagem se grava como trauma ou se a ausência de simbolização cria um vazio insuportável? Era como se, em face da experiência do trágico, a delicada condição de nossa existência cravada de incertezas e mistérios emergisse sem véus.


Claro que não faltaram amigos sinceros, que acreditavam possuir uma ciência da formação, a nos aconselhar e prevenir acerca dos efeitos de uma ou outra decisão. Ocorre, contudo, que não havia ciência a nos dispensar de uma decisão ética para a qual não há respostas inequívocas. Ao lidar com a constituição de um sujeito é preciso encarar o desafio de mover-se no escuro; de tatear caminhos cujos contornos não estão dados de antemão. Educar um alguém não se assemelha a fabricar um artefato, pois sempre implica abrir-se para uma experiência que é da ordem do incontrolável. O conhecimento – teórico e prático – e as vivências pregressas podem nos auxiliar a prever os efeitos de nossas ações sobre um objeto, mas costumam ser impotentes em face da urgência de decisões éticas que afetam um sujeito. Nessas condições as respostas não residem no pretenso conhecimento das reações do outro, mas tão simplesmente nos princípios que guiam as nossas ações em relação a esse outro que tentamos educar.


E assim, Ines, que um dia nos ensinara a cantar “Alecrim dourado”, nos dava sua última lição. Não poderíamos saber como   Moana reagiria à decisão – que era inteiramente nossa – de lhe apresentar a mortalidade como constitutiva do caráter trágico da existência humana. Só poderíamos recorrer ao que acreditávamos que era, em si, correto; independentemente de qualquer justificativa que se fundasse numa reação que sabíamos ser imprevisível. E assim o fizemos. Não sem dor, não sem medo.


Moana se inteirou do destino de sua amiga. Vieram lágrimas e perguntas que nos assombram porque as repetimos há milênios, sempre na mesma desesperada e inconsolável ignorância. Perguntas para as quais jamais teremos respostas seguras, mas que ainda assim nos ensinam. Perguntas que nos ajudam a caminhar em meio a incertezas, a tentar ser dignos daqueles com quem partilhamos nossa breve existência. Perguntas que nos ajudam na difícil tarefa de dizer adeus a uma amiga. 


José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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