O paraíso dos professores

Prefeitura de Nova York aposta em projeto cujo grande diferencial é o salário docente, que será o triplo da média americana

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Um dos bairros mais pobres de Manhattan, Washington Heights pode se tornar o novo paraíso do professor público de Nova York. A súbita mudança não se deve ao aporte divino, no entanto, e sim à coerência e à persistência de um indivíduo para provar o que professa.

Uma escola experimental está sendo montada no bairro latino, um dos de maior contraste social com as regiões mais abastadas da capital mais rica dos Estados Unidos. A tese do professor Zeke M. Vanderhoek, de 31 anos, é que o segredo da qualidade de ensino nas escolas públicas está no salário que o sistema paga para atrair os melhores e mais preparados profissionais.

Vanderhoek é o dono do projeto e será o primeiro diretor da futura escola. Sua iniciativa promete realizar o sonho de muitos educadores: ganhar do Estado o salário que o setor privado oferece. De acordo com a proposta, o professor admitido na escola-piloto terá rendimento anual de US$ 125 mil (cerca de R$ 210,6 mil), o dobro da média de Nova York e o triplo da média dos EUA. Outros US$ 25 mil também podem ser pagos dependendo do desempenho do educador, segundo o programa da Secretaria de Educação local, que concede bônus aos melhores.

No município de Nova York, qualquer educador, egresso do ensino público ou privado, pode apresentar projetos à Secretaria de Educação. Segundo a assessoria da entidade, todos os projetos de escolas municipais vêm ou de escolas que deram certo na rede ou de propostas de fora do sistema público. Segundo a assessoria, o projeto de Vanderhoek "vingou porque é bom". Assim, seco e simples.


Seleção rigorosa


Mas, se o salário é duplicado, ser aceito na nova escola é tarefa bem mais difícil que o normal. A seleção do corpo docente segue critérios rigorosos, com análise da excelência da formação acadêmica e do currículo pedagógico. Especialização e tempo de sala de aula também contam para a contratação. Ou seja, espera-se que os professores tenham alta titulação e sejam bastante experientes em sala de aula.

Programada para abrir suas portas em setembro de 2009, a escola terá sete professores que atenderão 120 estudantes de 5a série no primeiro ano letivo do programa. A meta é que em 2013 a escola tenha 28 professores e 480 alunos de 5a a 8a séries.

A experiência busca colocar em prática a conclusão de estudos sobre o tema: "A qualidade do professor é o fator mais importante para o sucesso acadêmico dos alunos, especialmente aqueles de baixa renda".

Apaixonado pela idéia, Zeke Vanderhoek repete incansavelmente sua filosofia dos três Rs (Rigorosa qualificação, Redefinição de expectativa e Revolucionária compensação) para justificar seus planos inovadores.

"A compensação de professores é um componente crítico para atrair e manter profissionais de alta qualidade. Isoladamente, aumentar o salário dos docentes pode não significar muito. Entretanto, quando usado em conjunto com o critério de rigorosa qualificação, o resultado significa muita coisa", defende Vanderhoek.

O mecanismo central é focar o orçamento escolar no salário dos professores, cortando despesas. A idéia é considerada tão revolucionária que até o diretor da escola ganhará menos: US$ 90 mil anuais (cerca de R$ 151,6 mil). Em Nova York, diretor e professor ganham salários equivalentes.

Mas, em troca da gorda remuneração, o professor terá de trabalhar mais. Para compensar o enxuto quadro de funcionários, passará mais tempo em sala de aula e assumirá tarefas como orientação acadêmica dos alunos. Em outro movimento para cortar despesas, o diretor da nova escola trabalhará sem assistente. 

Vanderhoek defende sua idéia dizendo que prefere mil vezes um mestre, um professor fenomenal, em uma escola com poucos recursos, a um professor medíocre numa escola com toda a tecnologia do mundo.

Há alguns anos, a Prefeitura de Nova York segue a filosofia de que classes com menos alunos funcionam melhor que salas cheias. O projeto-piloto, no entanto, contraria essa regra. O plano é colocar 30 alunos por sala de aula, quase o dobro da média corrente.

Zeke Vanderhoek quer atacar em outra frente para mostrar resultados. Sua escola lecionará música e latim, disciplinas há muitos anos fora da grade curricular de instituições públicas situadas em bairros carentes.

A grade horária também promete ser mais rígida que a normal (seis horas), com aulas adicionais três vezes por semana que começam às 8h30 e terminam depois das 17h. 

Os alunos da escola experimental serão selecionados por sorteio entre crianças e adolescentes pobres de origem latina e demais candidatos do bairro.


Reação

A experiência da escola tem tudo para se tornar o projeto mais acompanhado nos Estados Unidos na área de educação. E essa esperada atenção não se baseia somente no caráter inovador da proposta, mas em seu próprio teor polêmico, sobretudo se der certo.

"Esse é um projeto que nunca foi posto em prática nos Estados Unidos e pode abrir um leque de oportunidades. Esses US$ 125 mil podem ter um efeito catalisador", disse o especialista Frederick Hess ao jornal The New York Times.

Mas o modelo levanta ceticismos. Perguntas não faltam: será que ele consegue gerenciar problemas típicos em escolas localizadas em periferias? Professores com excelentes currículos, normalmente egressos de escolas particulares e graduados em universidades famosas como Harvard, estão prontos para atuar em comunidades carentes e com altos índices de violência?
Zeke Vanderhoek diz que sim, e que quatro anos de teste irão provar sua teoria.

Mas será que aplicar a maior parte do recurso de uma escola em salário de professor não significa negligenciar outros aspectos e ferramentas de ensino para uma boa educação?
Apaixonado pelo tema, o dono da idéia dispara: "Há sempre escolhas a serem feitas sobre como gastar recursos limitados. A questão não é necessariamente investir no item x para contribuir com a qualidade da educação. Ao contrário, a questão é investir no item x para obter resultados mais efetivos do que investir no item y. Nosso projeto acredita que aplicar seus recursos financeiros de forma a maximizar a qualidade do ensino é o mecanismo mais efetivo para elevar o conhecimento dos nossos estudantes", diz. 

O sindicato, em teoria, concorda com a tese. Mas, apesar de apreciar iniciativas que valorizem o educador, preocupa-se com a falta de isonomia salarial da categoria e da não-sindicalização de professores que fazem parte de projetos experimentais.

Já os diretores estão torcendo o nariz sem nenhuma cerimônia. Tradicionalmente no topo da hierarquia salarial, a categoria promete fazer barulho contra o programa que nem sequer começou a funcionar. Segundo o sindicato, receber menos que o professor é uma heresia. 

"Se você inferiorizar o papel do líder da escola, terá anarquia e caos", afirma Ernest A. Logan, presidente do sindicato dos diretores da cidade de Nova York, em entrevista ao The New York Times.


Público e privado


A remuneração da escola experimental colocará o seleto time de professores no topo da cadeia profissional dos Estados Unidos. Longe de ser parâmetro no serviço público, os US$ 125 mil anuais equivalem muito mais ao salário pago na iniciativa privada a um diretor ou vice-presidente de empresas de médio porte do que a um professor do Estado.

"A idéia é genial. Vou me inscrever na seleção. Nós, professores, estamos cansados de ser desvalorizados, cansados de lutar pela bandeira do ensino e não receber nenhum retorno", afirmou Henry Choi, 36 anos.

Há oito anos lecionando em uma escola pública localizada no Bronx – um dos bairros mais pobres de Nova York e conhecido cenário de filmes que têm a violência como tema -, ele tenta quebrar o mito de que todo professor deve ser, sempre, um herói da causa educacional.

"É uma profissão de fé? Talvez, mas não somos heróis, como dizem. Somos humanos e, apesar de amarmos o que fazemos, também temos nossas necessidades e obrigações", completou.

Mas, se no sistema público de ensino a palavra "mercado" é quase um palavrão, a escola-piloto tenta provar que não é pecado usar mecanismos do sistema privado para melhorar a rede pública.

"Concordo que o professor mereça ganhar mais, mas não acho que salários mais altos asseguram uma melhor educação", diz a analista financeira Michele Hilary, 39. Considerada elite no mercado de trabalho – ganha US$ 189 mil/ano -, Hilary diz não achar "saudável a experiência em relação ao restante dos professores públicos, que continuarão recebendo os mesmos baixos rendimentos".

"Você não corre o risco de atrair mercenários para essa escola?", questiona o designer Robert Pendleton, 41, que recebe, por ano, a metade do que ganhará o professor da escola experimental. Pendleton, no entanto, disse valorizar a função do educador. "É uma profissão que faz a diferença. Estudei em escolas públicas e privadas e, sem sombra de dúvida, meus melhores professores estavam no colégio particular", diz, creditando o fato à melhor remuneração. 

Para Vanderhoek, se a iniciativa privada usa o salário para atrair e manter o melhor profissional, as escolas públicas têm o direito de seguir o mesmo princípio.

Ele explica, no entanto, que dinheiro é um meio em seu projeto, não um fim. Se a experiência der certo, a escola-piloto pode lançar um novo olhar sobre o sistema de ensino em Nova York, hoje à mercê de crescentes dificuldades financeiras por causa de orçamentos cada vez mais enxutos.



Uma comunidade multilíngüe

A Prefeitura de Nova York emprega mais de 80 mil professores em mais de 1.450 escolas públicas da cidade. Cerca de 1,04 milhão de alunos são atendidos pelo município, com um orçamento anual de US$ 17 bilhões (dados de 2006). Do total de alunos matriculados no 2º grau, apenas 54,3% conseguem se formar.

A cidade tem seguido a filosofia de implantar pequenas escolas no lugar das tradicionais grandes. Os colégios maiores passam a ser classificados como "campi educacionais", espaços que comportam entre cinco e oito pequenos colégios e funcionam como lugar comum para atividades extracurriculares que uma pequena escola não poderia oferecer.

Em uma cidade em que um terço dos habitantes vem de outros países, cerca de 40% dos estudantes da rede pública pertencem a famílias para quem o inglês não é a língua oficial.

A mistura de culturas e nacionalidades é tão grande que o Departamento de Educação traduz documentos, boletins de notas e avisos aos pais dos alunos da rede pública em mais de oito línguas, incluindo espanhol, chinês, coreano, árabe e russo.

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