O equilíbrio entre afeto e razão

Coletânea reúne relatos de pesquisa sobre ensino e aprendizagem na EJA

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O processo de aprendizagem é determinado pela relação que se estabelece entre o sujeito e o objeto de ensino. Na escola, essa relação é mediada pelo professor. Portanto, a maneira com que o aluno se envolve com o conteúdo está diretamente associada ao modo com que seu professor se vincula com ele e com esse objeto de estudo. Se todos esses intercâmbios forem caracterizados não apenas pela racionalidade, como também pela afetividade positiva, mais chances de sucesso terá esse aluno, diante do complexo desafio da produção de conhecimento.
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A concretização da hipótese acima em sala de aula é demonstrada no livro Afetividade e letramento na Educação de Jovens e Adultos, organizado pelo professor da Faculdade de Educação da Unicamp Sérgio Antônio da Silva Leite. A obra reúne três relatos de pesquisas que analisaram iniciativas bem-sucedidas de alfabetização de adultos na Fundação Municipal para Educação Comunitária de Campinas (Fumec), tendo como principais bases teóricas os trabalhos de Vygotsky e Wallon.


O primeiro capítulo, escrito pelo próprio organizador, traz um cenário bastante completo e atualizado da situação da EJA no Brasil. Além disso, Leite define conceitos como letramento – em linhas gerais, um trabalho de ensino que considera as práticas sociais de leitura e escrita como objeto de conhecimento a ser aprendido pelo aluno em contraposição à decifração de um código – e afetividade – elemento que pode marcar a relação sujeito-objeto-mediador positiva ou negativamente.


Nos demais capítulos, a riqueza de detalhes na descrição dos procedimentos de pesquisa confere ao leitor conhecimentos secundários de como empreender uma investigação científica no campo das práticas pedagógicas. Chamam a atenção algumas metodologias utilizadas: a autoscopia – por meio da qual Daniela Gobbo Donadon Gazoli gravou aulas em vídeo, exibiu para os próprios alunos filmados e coletou os depoimentos dessas pessoas assistindo a si próprias – e o estudo etnográfico da professora-pesquisadora Lúcia Maria de Santis Barella, que analisou sua própria prática em sala de aula, experiência mostrada na última parte do livro.


Os relatos explicitam que, se por um lado, a dimensão afetiva não pode ser ignorada pelo professor que deseja que seus alunos aprendam, por outro, ela sozinha não gera aprendizados e sim, laços afetivos, apenas. O equilíbrio, portanto, entre razão e emoção é condição indispensável para a efetividade da prática pedagógica em EJA e nas demais modalidades de ensino.


Para Paulo Freire, “se a educação sozinha não muda o mundo, sem ela, tampouco, o mundo muda”. Parafraseando o educador e pensador brasileiro, esse livro nos leva a concluir que se a afetividade positiva sozinha não garante aprendizagem, sem ela, tampouco, o sujeito aprende.


Paula Takada é mestre em Comunicação Popular, especialista em Alfabetização pelo Instituto Superior de Educação Vera Cruz e professora em EJA.

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