O desafio de ensinar em português

Professora brasileira narra a experiência em ajudar os professores timorenses a ensinar em português, num país com mais de 17 línguas faladas e um passado de luta pela liberdade

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O Timor-Leste esteve muitos anos em guerra. Era uma ilha esquecida e subjugada ao destino que outros países lhe conferiam. Felizmente, essa história é passado.

Desde 2002, o Timor Lorosa’e (em tétum, a língua mais falada) é um país independente e tem construído a sua própria história de democracia. Depois do imperialismo português, que muito tirou do país e pouco contribuiu, e de longo período sob o domínio indonésio, que contribuiu um pouco, mas a muito custo e por cima de muita gente (e muito sangue), o povo timorense tomou as rédeas de seu destino.
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O Brasil, assim como outros países de língua portuguesa, tem cooperações com o país. Na área de educação, a Capes costuma enviar, semestralmente, vários professores brasileiros. No segundo semestre de 2012, por exemplo, foram cerca de 30 professores brasileiros. E foi nessa missão que eu conheci essa ilha, em junho de 2012.

A língua oficial
A ilha encantada do crocodilo (diz a lenda que ela se formou a partir desse réptil) tem área menor que a do Estado de Sergipe e convive com 17 línguas. As línguas oficiais são o português e o tétum, mas somente essa última, associada à língua indonésia, é que é falada por boa parte da população. O português, não. Nem pelos professores.

Mas eles têm de ensinar em português. Na verdade, desde que se instituiu o português como língua oficial, em 2002, a população tem estudado bastante, especialmente os funcionários do governo e os professores. Os livros didáticos já são em português. Mas os bons e velhos livros indonésios fazem parte do acervo pessoal e de aula de qualquer professor timorense, e são usados como a referência científica para esses professores, que tentam fazer um paralelo do livro indonésio com o livro brasileiro (sim, o Brasil já produziu livros para o Timor) e o de Portugal, pois são esses livros aos quais os alunos têm acesso. E há mais um agravante: não se ensina em indonésio, necessariamente, do mesmo jeito que se ensina em português. No caso específico da matemática, os métodos podem ser bem diferentes.

Imaginem o que é, para um professor, nascer em uma família que fala macassai (a língua materna do subdistrito timorense de Baucau).

Depois, ter se graduado na Indonésia, aprendendo, portanto, no idioma desse país (embora atualmente já exista universidade no Timor, boa parte dos professores de hoje se graduou na época da ocupação indonésia, em alguma das ilhas que compõem o arquipélago daquele país). Ao retornar para o Timor, usar socialmente a língua tétum, e lecionar em indonésio e tétum. E alguns anos depois, ter de lecionar em português.

É esse desafio que enfrentam os professores timorenses e que o professor Augusto, timorense residente em Baucau, enfrentou e compartilhou comigo.

Realizamos uma formação continuada para um total de 89 professores desse subdistrito. Esse é o segundo maior do Timor (só perde para a capital), mas nem por isso podemos considerar uma cidade “grande” para os padrões brasileiros. Baucau é um lugar lindo, litorâneo, mas com pouquíssima exploração turística. O comércio ainda é majoritariamente realizado nas ruas, muitos moradores moram em casas construídas a partir de palha e toras de madeira, e o transporte público só funciona até por volta das 18 horas – não há taxi.  Boa parte da população usa motos. E o professor Augusto também.

Em sala de aula
Esse jovem professor de matemática, que deve ter por volta de 27 anos, gentilmente permitiu que eu assistisse a uma de suas aulas.  Eu, na minha ignorância e presunção, imaginei que essa história de dar aulas em língua portuguesa era “balela”. Se eles nem bem falam português, conseguiriam ensinar na língua? O professor Augusto, inclusive, mesmo sendo um cursista dedicado, tinha alguns problemas com a fala, como a dificuldade em conjugar verbos e uma espécie de gagueira. Mas, assistir à aula desse professor foi uma experiência que me surpreendeu e me ensinou muito.

A sala era do 10º ano (o que equivaleria ao 1º ano do ensino médio brasileiro), de uma escola pública. Nessa sala de aula, assim como na maior parte das escolas timorenses, não há janelas nem luz elétrica.

Quando o professor Augusto e eu entramos na sala, todos os alunos se levantaram e disseram “Bom dia, professor”. Em seguida, o professor apresentou-me aos jovens, em tétum, e permitiu que eu me sentasse.

Resolvi sentar bem no fundão, e quando me atentei, estava sentada perto dos meninos, visto que as meninas estavam sentadas na frente. Sim, isso tudo lembra a escola brasileira de umas décadas atrás…

correção na lousa
O professor Augusto iniciou a correção de alguns exercícios do conteúdo “polinômios” que ele havia pedido para os alunos realizarem em casa. Ele solicitou que uma aluna resolvesse as questões na lousa (diga-se de passagem, a letra dela era belíssima).  Ele, então, iniciou a correção dos exercícios e o diálogo com os alunos, que pareciam interessados.

Não pude me conter. O professor Augusto tirava as dúvidas dos alunos em português! E os alunos se manifestavam também em português, mas evidentemente, conversando entre si em tétum. Ele explicou, passo a passo, como se realizava a divisão entre dois polinômios, utilizando o vocabulário em português que possuía, com a conjugação verbal que conseguia realizar. Algumas expressões divergiam da maneira como estamos acostumados a falar aqui no Brasil. Por exemplo, “negativo três”, ao invés de “menos três”, algo como “equis quadrado”, ao invés de “x ao quadrado”, entre outras. No entanto, os alunos o ouviam atentamente, respondiam ao que ele solicitava, e até eram parceiros do professor quando ele se equivocava em alguma coisa. Foi realmente lindo de ver.

O professor Augusto resolveu pedir, então, para eu explicar na lousa a resolução do próximo exercício. Nesse momento confesso que fiquei em pânico. E se eu me equivocasse em algum conceito? E se os estudantes não me compreendessem?

Fui à lousa. Para resolver o exercício, adotei como estratégia abordar cada passo com muita calma, falando pausadamente e muito claramente. Os alunos me acompanhavam, pareciam estar compreendendo. E o professor Augusto me observava atentamente. Num outro momento, entendi qual foi a intenção do professor: não foi a de me colocar em uma situação constrangedora mas, na verdade, ele queria ouvir da boca de uma falante nativa de português como se resolvia aquele exercício. Ele queria ampliar seu vocabulário.

lutas desiguais
Ao final da aula, trocamos algumas ideias sobre o que tinha se sucedido. Elogiei muito o professor, pontuei algumas questões, especialmente metodológicas, e ele se mostrou receptivo e grato pela minha presença em aula. Até pediu para que repetíssemos mais vezes.

Sucederam-se novos encontros de formação. O professor Augusto foi o mais assíduo entre os demais durante as formações continuadas em Baucau. Não faltava a um encontro, escrevia os textos que eu sugeria, realizava as leituras, participava das atividades em grupo. Tive nele o exemplo de professor dedicado, ávido por aprender, e disposto a bem ensinar.

Minha jornada no Timor encerrou-se um mês depois, em dezembro. Quando voltei ao Brasil, enxerguei as salas de aula com outros olhos: apesar dos problemas que nossas escolas ainda enfrentam, de maneira geral, elas têm muito mais estrutura que as escolas do Timor. Brigamos por computadores e lousas digitais nas salas de aula? As escolas timorenses não têm nem lousa direito, nem luz elétrica. Lutamos por uma coleção de livros didáticos de qualidade? No Timor a luta é pelo acesso a livros em português, bem escassos. Reclamamos da falta de didática de alguns professores? No Timor, se o professor conseguir se comunicar com seus alunos em português, já é uma grande vitória.

A intenção de realizar essa comparação não é desmerecer as nossas lutas: elas são justas e fazem parte do momento histórico que vivemos. Mas a intenção é sermos gratos a tudo que temos e conquistamos.

Essa foi uma das lições que aprendi nesse país. Lições de um povo guerreiro e lutador; nação orgulhosa e professores dedicados. Eu, uma simples professora brasileira, que em minha vida nada enfrentei em comparação aos desafios que esse povo enfrentou, quando parti para o Brasil tinha um único e intenso sentimento: o de gratidão. Obrigada, Timor Lorosa’e. Obrigada, professor Augusto.

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