O desafio das barreiras culturais

Para disseminar o espírito empreendedor na instituição, gestores do Centro de Empreendedorismo do Unisal Lorena tiveram de estreitar o relacionamento com os professores e conquistar a confiança dos alunos

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CdE UNISAL Lorena 6

Há exatos quatro anos, a unidade de Lorena do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal) deu um importante passo rumo ao futuro e iniciou o desenvolvimento de seu Centro de Empreendedorismo (CdE). Embalado pela tendência à época de formar alunos capazes de identificar problemas e demandas, e, principalmente, de inovar, a direção do campus propôs direcionar o foco da instituição a um horizonte mais abrangente. E com persistência, aprimoramento e muito trabalho, os resultados começaram a surgir. Neste pequeno período de tempo, a comunidade acadêmica foi aderindo aos poucos à novidade, diversas ações foram implementadas e, inclusive, um programa chegou a ganhar destaque em um Prêmio de Educação Empreendedora.
O caminho percorrido antes de todas essas conquistas, no entanto, foi árduo e ainda esbarra – embora cada vez menos – na aceitação de uma nova cultura.

Instituído pela direção de forma unilateral, coube ao atual coordenador do Centro de Empreendedorismo, Leandro Costa, a tarefa de se inserir nos diversos segmentos do ecossistema universitário e, pouco a pouco, disseminar os novos conceitos. Por definição, a palavra ‘cultura’, segundo o dicionário Michaelis, pode ser compreendida como ‘um conjunto de conhecimentos, costumes, crenças, padrões de comportamentos adquiridos e transmitidos socialmente que caracterizam determinado grupo social’. Entendida assim, estava claro que a ‘cultura empreendedora’ não poderia ser imposta. Em vez disso, ela precisava ser divulgada, compreendida e posteriormente aceita pelos envolvidos para que, de fato, se tornasse transversal. E foi justamente esse caminho que Leandro passou a trilhar logo que assumiu o cargo.

No comando do enxuto Centro de Empreendedorismo de apenas duas pessoas – ele mesmo e o assistente Thiago Villela –, Costa deram início a um trabalho efetivo de relacionamento. O primeiro passo foi construir pontes com os professores e funcionários, e assim tentar suprir a carência de recursos humanos. Para isso, passaram a frequentar as reuniões de coordenação dos diversos cursos. O objetivo principal era divulgar o Centro e consolidar vínculos. “Acredito no relacionamento. Desta forma, criamos elos com os docentes e conseguimos fazer ações mais sólidas. Muitas vezes essas ações acabam partindo de conversas espontâneas”, ressalta.

Por que empreender
Porém, o maior entrave no desenvolvimento da cultura empreendedora ocupava o lado oposto ao dos professores nas salas de aula. Costa comenta que o grande desafio foi conquistar a confiança dos alunos e fazê-los entender a importância do empreendedorismo no atual e futuro cenário do mercado de trabalho. Logo no início, o primeiro ato foi romper uma concepção equivocada de boa parte dos discentes. Uma frase comumente ouvida era: ‘Não me interesso porque não vou ter meu próprio negócio’. “Foi preciso mostrar que empreendedorismo não era só uma modinha; era preciso fazer com que o aluno entendesse a relevância para a carreira dele. Empreendedor não é só aquele que tem o próprio negócio, mas sim quem desenvolve competências empreendedoras”, pontua.

Nesse caminho, uma das estratégias desenvolvidas para aumentar o engajamento dos alunos foi a criação da ‘Semana da Integração’. Iniciado no começo do período letivo de 2014, o evento anual visava propagar a semente do empreendedorismo entre calouros logo em suas primeiras experiências universitárias. Atividades como workshops e palestras passaram a ser ministradas com o objetivo de apresentar novos conceitos e ajudar a formular uma cultura mais inovadora. Em sua terceira edição, a atividade já está consolidada e impacta em média 900 ingressantes anualmente. “Passamos em todas as salas e explicamos o que é e o que faz o Centro de Empreendedorismo. Ainda assim sabemos que vai levar um tempo para se desenvolver essa cultura. Mas o bom disso é que já atingimos pelo menos os terceiros anos que estão hoje matriculados”, comenta o coordenador.

Quando assumiu o comando do Centro, em novembro de 2013, ainda com menos de um ano de existência, Costa logo recebeu um conselho que marcou a sua gestão: ‘trabalhe intensamente e tenha muita paciência. Cultura não é um salto e sim pequenos passos’. Com essa ideia em mente e de degrau em degrau, o coordenador começou a desenvolver novos projetos e a capilarizar os conceitos na comunidade acadêmica. Para impactar ainda mais os alunos, o coordenador decidiu assumir também a disciplina de Empreendedorismo, ministrada nos cursos de administração, ciências de computação e ciências contábeis. Com viés inovador e bastante prático, os estudantes passaram a ser desafiados a criar e gerenciar um negócio com investimento inicial de apenas R$ 50,00, o que ficou conhecido como ‘Desafio dos 50’. “A gente proíbe rifas, ações ilegais ou imorais. Não pode ser só vender um bombom. Precisa ser um negócio de verdade. Precisa ter um diferencial competitivo. E no fim, todo o lucro obtido fica com os alunos”, explica o professor.

O resultado do Desafio foi bastante animador e acentuou o desejo de empreender em boa parte dos alunos. As contas do programa ficaram no verde e, em 2016, os R$ 650,00 investidos pela instituição geraram um retorno de R$ 5.415,88. “Ficamos surpresos com os resultados. Criou-se um verdadeiro ambiente de empresa. Um aluno fica responsável pelo setor financeiro, outro pelo marketing, e eles aprendem técnicas de gestão”, ressalta. Dentre alguns dos maiores destaques, um grupo apostou na fidelização de clientes e faturou R$ 1.170,00 com a fabricação e venda do doce palha italiana. Já outra equipe enfrentou um problema bastante comum no mundo empresarial. Restando apenas um mês para o fim da disciplina, o negócio de canecas personalizadas sofreu o calote de um fornecedor e as dívidas alcançaram a cifra de R$ 700,00. Ainda assim, os alunos-empresários conseguiram superar as dificuldades e encerrar o semestre no positivo, com o saldo de R$ 120,00.

Com apenas quatro anos de existência e com um longo caminho ainda a percorrer, o Centro de Empreendedorismo da Unisal Lorena já ganhou um importante destaque e se tornou referência como a única unidade localizada na região do Vale do Paraíba e litoral norte do estado de São Paulo. O seu crescimento gradativo alcançou algumas marcas importantes. A primeira delas, segundo Leandro Costa, foi o reconhecimento dos trabalhos realizados. O coordenador revela que há cerca de um ano e meio, o Centro começou a ser procurado por pessoas de fora da instituição e também por alguns alunos de forma espontânea.

Mas o grande limiar da cultura empreendedora e do desenvolvimento regional ocorreu em novembro de 2016. O marco foi a realização da primeira edição do ‘Startup Weekend Lorena’, evento da Google organizado por alunos da USP, e com o envolvimento do Centro de Empreendedorismo e da comunidade local.

Com baixo orçamento e muita criatividade, o Centro de Empreendedorismo inicia mais um ciclo letivo, desta vez com foco no plano anual 2017-2018. A meta é fortalecer a equipe formando um ‘clube de mentores on-line’. Atualmente, toda a assessoria recebida dos mentores – que colaboram de forma não remunerada com os projetos – é intermediada pelo Centro. A proposta é cortar esse vínculo e com isso os alunos ganharem tempo e terem acesso direto a um banco de especialistas das mais variadas áreas. Mas este é só mais um passo em direção a um projeto ambicioso. O grande objetivo do Centro é o fortalecimento do ecossistema local, que inclui o poder público, a iniciativa privada, incubadoras e aceleradores, para ampliação do desenvolvimento econômico e social da região.

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