O desafio da igualdade

Sociólogo francês vê, pouco a pouco, a educação europeia pautar-se pelo modelo americano da meritocracia. E acredita que esse caminho abre as portas da elite somente a
pequenas parcelas das camadas mais baixas da população

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François Dubet, um dos mais respeitados nomes da sociologia da educação nos dias atuais,  não está nada satisfeito com o leque de desigualdades que se aprofundam cada vez mais na própria busca pela igualdade nos mais diversos aspectos da sociedade: na educação, no mercado de trabalho ou no acesso às elites. O sociólogo francês – que se tornou conhecido por seus trabalhos sobre a violência nas escolas, a massificação da educação e a meritocracia – tem centrado suas pesquisas na busca por alternativas a um modelo em que as oportunidades até se multiplicam, mas permanecem concentradas nas mãos dos mesmos grupos de privilegiados. A subida na pirâmide social encontra-se bloquea­da – em algumas sociedades mais do que em outras -,  consequência de uma série de percalços que se instalam desde muito cedo na vida dos cidadãos menos favorecidos.

O autor de obras como A sociologia da experiência (Instituto Piaget, Portugal), O que é uma escola justa? (Cortez Editora) e Desigualdades multiplicadas (Unijuí) lançou em fevereiro Les places et les chances, ainda sem tradução em português, em que questiona a migração do modelo europeu de igualdade de vagas – que busca diminuir as distâncias entre as posições sociais através de uma proteção social forte – para o modelo americano, forjado na oferta de oportunidades para todos e calcada no mérito, mas que não favorece a ascensão social, no ponto de vista do especialista. Na entrevista a seguir, concedida à repórter Lúcia Müzell, o professor da Universidade de
Bordeaux e diretor de pesquisas da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, na França, apresenta seus argumentos e ainda analisa os pontos-chave da educação hoje em dia.


O senhor diz que o modelo americano de busca pela igualdade de oportunidades está se impondo pouco a pouco na Europa, onde sempre se deu preferência à igualdade de vagas. Por que isso acontece agora ?

Existem três grandes razões. A primeira é que os postos são relativamente raros em decorrência do desemprego endêmico. A luta pelo acesso a esses postos vem piorando, e a preocupação com a equidade da concorrência, se acentuando. A segunda razão é que o movimento dos trabalhadores não é mais tão central e há cada vez mais pessoas excluídas. Por fim, as sociedades europeias se tornaram multiculturais e descobrem a segregação, quando a economia não tem mais a mesma capacidade de absorver os migrantes.


O senhor ainda prefere o modelo de igualdade de vagas, apesar das críticas segundo as quais ele não conseguiu efetivamente reduzir as desigualdades sociais, seu maior objetivo?


Não acho que tenha fracassado, se consideramos o longo período de crescimento em que ele é adotado: mesmo assim, as desigualdades sociais se reduziram muito sensivelmente durante o século 20. Mas, há cerca de 30 anos, o Estado de Bem-Estar Social está em crise, os direitos adquiridos fecham a mobilidade social, a redistribuição de renda não é sempre justa. Dizem também que esse modelo não é favorável ao dinamismo das economias confrontadas à globalização. Em uma perspectiva mais ampla, o modelo da igualdade de vagas perdeu um pouco de sua hegemonia política.
O fato é que a esquerda, em praticamente todo o mundo, vive uma crise ideológica maior.


Alguns países, como o Brasil, precisam estabelecer cotas para que as camadas desfavorecidas possam cursar a universidade. Na sua opinião, esse é um meio eficaz para reduzir as desigualdades?


Não existem razões para se opor a essas políticas que aumentam o acesso à elite. Mas, ao mesmo tempo, não há razão para acreditar que, dessa forma, essa política reduz as desigualdades entre as posições sociais, porque muitos desfavorecidos continuarão não chegando à universidade, e se nada é feito para que a sua situação melhore, ela só vai se degradar. Foi isso que se pôde observar nos Estados Unidos, na comunidade negra, em que alguns segmentos chegaram à classe média graças às cotas, enquanto a situação dos outros só piora. O acesso dos mais pobres à elite não impede o aprofundamento das desigualdades. E, ainda por cima, é difícil imaginar os grupos mais favorecidos deixando espaço para os novos ocuparem. É preciso, então, que a redução das desigualdades sociais em si continue sendo um objetivo central.


Possuir um diploma não é mais uma garantia de emprego. Em última análise, a massificação da educação não ajudou a diminuir as desigualdades?


O valor de um diploma depende das relações entre os diplomas e o emprego, logo da raridade relativa de certos diplomas. Sendo assim, os diplomas tendem a se desvalorizar na medida em que o mercado de trabalho não os acompanha mais. De uma forma geral, o valor dos diplomas vai ao encontro das formações mais longas e seletivas, e são os grupos mais favorecidos que possuem um certo monopólio destas formações. A massificação escolar é uma coisa boa em termos de democratização absoluta de acesso às formações, mas o fosso entre as formações continua existindo. É preciso também destacar que nas condições de massificação escolar os jovens que não conseguem um diploma veem a sua situação piorar: é quase um sinal de incompetência social.


O senhor acredita que exista uma verdadeira vontade de ampliar o acesso aos estudos superiores, por parte das instituições?


Na França e na maioria dos países comparáveis a ela, certamente. Muitas grandes écoles e universidades fazem esforços reais, que ainda por cima são bons para a sua imagem. Mas esses esforços são naturalmente limitados pelo fato de que as instituições estão em concorrência umas com as outras e querem continuar no alto da hierarquia. Elas estão prontas a se abrir, mas não querem questionar as desigualdades entre as instituições em si. No final das contas, a democratização do acesso às elites não afeta as hierarquias escolares em si.

Pode-se pensar em aumentar as vagas nas instituições de ensino mais prestigiadas sem antes reformar a qualidade e a estrutura das escolas e colégios públicos?
A igualdade de vagas conduz, antes de tudo, a elevar os esforços no ensino elementar e médio para elevar o nível de base e o nível dos mais fracos. Talvez esta seja também a forma mais segura de se alargar uma elite. Mas esse esforço é muito mais difícil e muito menos popular do que alargar uma pequena elite oriunda do povo. Essa é uma escolha política fundamental, e muitos países ricos escolheram privilegiar o acesso à elite em vez de melhorar o nível de base. Eu sou obrigado a dizer que lamento essa escolha e não estou certo de que uma sociedade ganhe alguma coisa com isso em termos de coesão social, de democracia, de segurança, de saúde pública etc.


Até que ponto o senhor acha que o ambiente em que o estudante vive é decisivo no seu percurso escolar?


O ambiente social e familiar mais decisivo é justamente o da infância e da adolescência. É nesse período que se define o essencial do destino escolar dos alunos. E é por essa razão que, nessa fase dos estudos, deveria haver um esforço público redobrado para proporcionar certas necessidades mínimas de vida para o aluno. Quando, ainda por cima, às condições de vida difíceis se adiciona uma oferta escolar de má qualidade, há poucas chances para que se chegue a uma igualdade relativa. Em termos de igualdade social, a infância e a escola elementar deveriam ser uma prioridade zero.


Para que a educação seja de qualidade, a escola deve também se interessar pela vida pessoal dos estudantes? As escolas de hoje são muito impessoais?


Os estilos educativos variam profundamente entre os diferentes países. A França favorece mais o estilo impessoal. Não me parece que a escola deva se interessar demais pela vida pessoal dos alunos. Por outro lado, as pedagogias mais eficazes são aquelas que individualizam o trabalho dos alunos e que levam em conta o ritmo pessoal de cada um. Na universidade, também é normal que a organização dos estudos deva ser adaptada aos que precisam trabalhar para
poder sustentar seus estudos, especialmente os originários das classes menos favorecidas.


O ensino médio é um desafio na educação dos jovens em vários países do mundo. Como motivá-los a terminar essa etapa?


Parece-me que o perigo que mais ameaça as escolas no mundo inteiro é o abandono escolar. Muitos alunos pensam que a escola não é útil para conseguir um emprego. Eles pensam também que a cultura escolar é muito distante da experiência social deles, enquanto a imprensa parece responder a tudo. Enfim, quando eles fracassam, eles se tornam hostis à escola que os desqualificou. O declínio da motivação dos alunos que não estão certos de vencer nos estudos é um problema enorme e, para o corpo docente, uma dificuldade considerável. Em muitos casos, se precisaria redefinir o “contrato” entre a escola e a sociedade e, talvez, não esperar demais da escola, que não pode resolver todos os problemas sociais. É preciso também que os que não vencem nos estudos encontrem os meios de vencer em outros sistemas de formação menos escolares.


O senhor afirma que os alunos mais pobres percebem a escola como tensa e com uma certa carga de violência, enquanto os de famílias ricas a veem como estressante. Poderia explicar  essas diferenças?


Os alunos desfavorecidos e que não apresentam um bom percurso escolar pensam que a escola lhes diz que eles não valem nada e, muito rapidamente, ou a abandonam, ou se tornam violentos contra essa escola que lhes anuncia a própria exclusão. Os bons alunos, frequentemente das classes favorecidas, sabem que não podem repetir de ano e que precisam ser os melhores se querem realizar os projetos que as suas famílias vislumbram para eles. Como resultado, tornam-se estressados. Em todos os casos, no entanto, quanto mais se instala o modelo da igualdade de oportunidades, mais a escola fica encarregada de distribuir os alunos na escala das desigualdades sociais, em nome do mérito dos indivíduos. Esse modelo é um pouco contestável, em princípio: ele faz da vida escolar uma vasta competição, mais ou menos igualitária, e pode-se temer que a escola perca, cada vez mais, o seu papel efetivamente educativo.

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