O bem comum da cultura letrada

Devemos à escola a “revolução” cultural que fez emergir novos hábitos de pensamento

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Devemos a Erik Havelock (1903-1988), um estudioso da era clássica, algumas das mais fecundas investigações acerca da ascensão da cultura letrada e das alterações que esse acontecimento histórico imprimiu às formas de vida social até então baseadas na comunicação oral. Para Havelock “o alfabeto converteu a língua grega falada num artefato, separando-a do locutor e tornando-a uma linguagem, isto é, um objeto disponível para inspeção, reflexão e análise”. Se a oralidade favorece um discurso descritivo da ação, a linguagem escrita cria a possibilidade de um discurso conceitual, capaz de não só descrever eventos, mas de enunciar proposições e submetê-las ao exame crítico e à reflexão permanente.

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Na concepção de Havelock, a cultura letrada não se confunde com a mera invenção das técnicas de escrita. Os sumérios, os egípcios e os maias, por exemplo, desenvolveram a capacidade da escrita, mas jamais lograram criar uma “cultura letrada”. O que define uma cultura como letrada não é, pois, a posse dessa técnica, mas sua expansão. Foi somente quando ela se transformou num “bem comum”, numa prática acessível a um número significativo de cidadãos, que a escrita alfabética logrou se transformar numa “revolução” cultural que fez emergir novos hábitos de pensamento. E isso só foi possível a partir da invenção da skholé: da escola, compreendida como um tempo livre dedicado à formação cultural, da qual o aprendizado da escrita passou a fazer parte.

Mas a história da cultura letrada não é a de um progresso linear. A alfabetização social promovida pelas polei gregas expandiu-se na cultura romana, mas não resistiu à queda de seu império. Bastaram algumas gerações para que o percentual de leitores na população caísse significativamente, de modo que a leitura e a escrita voltaram a ser concebidas como saberes especializados e elementos distintivos de um estamento social: o clero. Foi somente com a invenção da imprensa e o desenvolvimento dos sistemas nacionais de ensino que a cultura letrada voltou a ocupar um lugar central na cultura ocidental (a ponto, por exemplo, de identificarmos de forma imediata a noção de uma “pessoa culta” à sua familiaridade com obras clássicas da cultura letrada!).

A compreensão desse complexo processo histórico parece-me particularmente importante para nós, professores. Em primeiro lugar porque resgata um vínculo histórico – óbvio, mas muitas vezes esquecido – entre a instituição escolar e a expansão da cultura letrada. É à difusão da instituição escolar que devemos a capilaridade da presença da cultura letrada na sociedade moderna. Ao assim fazer, a escola transforma a cultura letrada em um bem comum. Conceber o aprendizado da leitura e da escrita como uma competência – ou mesmo direito – individual é elidir sua importância pública e fundir a noção de bem comum à da somatória de interesses individuais. Um interesse privado – como o bem-estar material de cada um – pode ser extensivo a todos os integrantes de uma sociedade. Mas ele difere, em natureza, de um bem que, mais do que um interesse partilhado por todos, se vincula a um modo de vida comum. Daí a importância de conceber a escolaridade como bem comum e não somente como oportunidade de desenvolvimento individual.

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