O bastão da experiência

Projeto une histórias de pessoas da terceira idade à curiosidade infantil para estimular narrativas e recuperar memória da cidade

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O cenário é uma fazenda, e o personagem principal, um limoeiro. Um limoeiro muito alto e redondo. Era dia de cirquinho, e a agitação tomava conta de todas as crianças da vizinhança da casa de Diva. Diva Nicolucci da Silva, 69 anos, já havia decorado o seu limoeiro, em Ribeirão Preto, com os lençóis e as colchas de sua mãe. Queria montar logo o picadeiro. Para isso, não economizou nos enfeites, colados com cola de farinha e água nos tecidos. Algumas horas depois, a platéia já estava lá. Todos esperavam pela atração principal, o palhaço bêbado, interpretado por Diva. Ela entra no palco imitando o personagem, com a voz distorcida, gritando: “Ah, a minha namorada me deixou, eu tomei umas biritas, perdi o caminho de casa…vou dormir na rua!”, diz. Deita por um ou dois segundos, e finge acordar meio desnorteada. Pergunta à platéia em que lugar está. Todas as crianças berram: “na rua, você dormiu na rua!”. As crianças riem.

A narrativa acima faz parte das lembranças de infância de Diva. Mas agora pertence também à memória dos 1.500 alunos de 1ª a 4ª série das escolas Cemei Eduardo Romualdo de Souza, Emef Jaime Monteiro de Barros e EE Edgardo Cajado, que ouviram e presenciaram a encenação dessa e outras histórias de Diva e suas colegas no fim de junho, na própria escola. A iniciativa é uma das fases do projeto História da Gente, promovido pela Fundação Palavra Viva, com patrocínio do Santander e da Gráfica São Francisco. Há quatro anos, o trabalho leva grupos de mulheres de 62 a 90 anos de idade para contar aos alunos histórias de suas vidas que se confundem com a história de Ribeirão Preto, a “Califórnia Brasileira”, como se dizia anos atrás. O objetivo é resgatar a idéia de cidadania e incentivar a leitura nas escolas. A “história do circo”, como ficou conhecida pelas crianças, teve grande repercussão na sala de aula. “Todos os meus alunos ficaram encantados”, conta a professora Eliana da Costa Gomes, que leciona para as 4as séries da escola Eduardo Romualdo de Souza. Uma de suas alunas, Letícia Gomes, de 10 anos, explica o motivo da boa repercussão na sua turma. “A gente fica imaginando como eram as brincadeiras de antigamente, sabe? Eu gosto porque foram histórias que aconteceram de verdade.”

A “contação” de histórias é apenas uma das fases do projeto. Ele envolve capacitação dos professores para trabalhar com o material das narrativas em sala de aula; a doação de 55 minibibliotecas em forma de caixas para as escolas envolvidas e a publicação, em livro, dos melhores textos e desenhos feitos pelos alunos com base nos causos. O lançamento do material terá direito até a noite de autógrafos, no 2º semestre. “As crianças estão carentes dessa coisa mais lúdica, mais delicada”, afirma Luciana Paschoalin, da Fundação Palavra Mágica. A professora Eliana concorda. Ela está analisando os textos de seus alunos e percebeu uma riqueza de detalhes inédita. “Fiquei surpresa com isso. Foi muito marcante para eles.” Para a professora, o interesse pela leitura nas suas turmas aumentou. “Eles sempre perguntam sobre a caixa, pegam os livros de lá, querem escrever mais”, diz.

As caixas ou minibibliotecas ficam nas salas. Assim, os alunos podem retirar e incluir livros ou histórias pessoais. Letícia quer colocar o livro Os Três Astronautas, de Umberto Eco, na caixa. Sua colega, Liliana Alves Lisboa, 10 anos, já prefere A Colcha de Retalhos, de Conceil Corrêa da Silva e Nye Ribeiro Silva. “A vó do menino faz uma colcha de retalhos, e faz bolo e brigadeiro pra ele também!”, ri. Sobre os textos que estão escrevendo para o livro que será publicado pelo projeto, as duas decidiram ir por caminhos diferentes. Liliana preferiu investir na história do circo. Já Letícia elegeu um pouco de cada história contada pelo grupo de idosos, como a que descreve o Theatro D. Pedro II em outras épocas. “Misturei tudo, achei melhor!”, diz. A estudante diz que seu interesse por leitura aumentou depois de ouvir as histórias dos contadores e de ter acesso à caixa. “Olha, eu sempre gostei de ler, mas agora acho que tenho bem mais vontade”, revela.


Diva Nicolucci da Silva conta a história do palhaço para as crianças da Cemei Eduardo Romualdo de Souza, em Ribeirão Preto: atiçando o desejo de ler

Para que a proposta do projeto seja alcançada, o trabalho das contadoras é fundamental. “Primeiro nós entramos, fazemos a encenação do circo. Aí a gente se troca, e coloca roupas normais para contar outras histórias, pessoais e da cidade”, conta Diva. Um dos relatos que ela faz às crianças é sobre a praça XV de Novembro, marco histórico e geo­gráfico da cidade. “Lá era uma vilinha, no começo. Havia muitos pássaros. Aí, começou a crescer, chegou uma igreja, um bar da cervejaria Antártica e um coreto bem grande. Hoje, a vila não é mais vila, é uma cidade. A igreja virou uma fonte luminosa. O bar, canteiros de flores. E o coreto, uma estátua da Revolução de 1932”, lembra. Quando ainda trabalhava, Diva era costureira autônoma, mas diz que as pessoas sempre foram sua paixão. “Adoro gente. Aliás, crianças em primeiro lugar. Elas riem, riem e eu fico toda feliz!”, brinca.



Leitura eletrônica

Além das conhecidas iniciativas de estímulo à leitura, como o Congresso Brasileiro de Leitura, a Associação de Leitura do Brasil (ALB) encontrou mais um canal de incentivo: a revista eletrônica Linha Mestra. Em sua quarta edição, a revista é bimestral e conta com a colaboração de leitores, além dos textos publicados por membros do conselho editorial. Ezequiel Theodoro da Silva, presidente da instituição, lista três objetivos primordiais da revista. “Colaborar na atualização dos professores relacionados com o ensino da leitura, proporcionar a leitura por entretenimento e abrir espaço para a interação entre os professores para que possam trocar experiências bem-sucedidas na esfera da promoção da leitura e da literatura”, aponta. 

Em sua quarta edição, Linha Mestra é dividida em dez seções, entre elas Conto, Poema, Entrevista e Artigo. O último número, que contempla os meses de julho e agosto, traz um conto de Carlos Eduardo de Oliveira Klébis, poeta, compositor e professor da rede pública estadual. Ele relata o episódio em que percebeu o abismo social que o separava de sua aluna Micaelen. Na entrevista, Linha Mestra traz uma conversa com Carmen Lozza, pedagoga e responsável pelo programa “Jornal e Educação”. Com artigos dos jornalistas Marcelo Pereira e Wagner Geribello, a publicação também discute a contribuição da mídia à leitura. A distribuição é feita pelo  envio de e-mails para as 11 mil pessoas cadastradas no site, mas a revista pode ser acessada no link alb.com.br/pag_revista.asp por qualquer usuário.

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