O alívio de não ter que pensar

O desafio de se construir uma escola coerente com a herança histórica de cada povo

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Na década de 70, por indicação de um professor, eu e uma dezena de amigos de uma escola pública nos inscrevemos no processo seletivo de bolsas de estudos para intercâmbios internacionais. Três foram aprovados: uma iria viver na França e dois nos Estados Unidos.

De início não sabia se ficava contente ou triste de ter sido contemplado com a bolsa, em cuja seleção me inscrevi mais pelo impulso gregário de adolescente do que por vislumbrar uma oportunidade educativa relevante. Minha mãe recebeu a notícia com ceticismo e tristeza, mas a euforia loquaz de meu pai não deixava qualquer espaço para o silêncio necessário à dúvida de um espírito jovem.

Pouco a pouco fui me encantando com a ideia e, à medida que ouvia relatos daqueles que de lá haviam voltado, comecei a criar fantasias acerca de um modo de vida mais livre e sofisticado.

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Ocorre, contudo, que acordei desse sonho adolescente num pequeno vilarejo de dez casas em torno a um lago, com uma bela paisagem e mais 364 dias de tédio pela frente. Lá não havia transporte público e a vida se resumia ao cotidiano de uma família católica e conservadora e uma escola em que os jovens pareciam acreditar que o Sol nascia em Nova Iorque e se punha em Los Angeles; que o Brasil era uma selva onde se bebia tequila e se falava espanhol. A maior parte de meus professores me parecia medíocre em termos intelectuais e suspeitos do ponto de vista político.

Essa experiência, difícil e decepcionante, marcou tanto a imagem que construí da escola norte-americana que foi preciso décadas para que nela enxergasse também iniciativas potencialmente interessantes. Como o fato de que, a despeito de medíocre intelectualmente, nela havia espaço para cursos de literatura clássica, pensamento político norte-americano e estudos de minorias, para os poucos jovens que almejavam uma escola mais acadêmica. Mas havia também espaço para quem gostava de trabalhos manuais (aulas de marcenaria, jardinagem, mecânica); e também para os aficionados por artes (música, teatro, artes plásticas), além de um currículo padrão. À tarde, esportes, fotografia ou dança. E jovens com diferentes graus de familiaridade com a cultura letrada, com práticas esportivas e artísticas podiam ter uma experiência escolar interessante.

De fato, a high school americana não era um liceu francês. Mas o que lhe faltava em charme, elegância e refinamento ela compensava em acolhimento, diversificação de práticas e abertura para diferentes linguagens culturais.

E, se não há um modelo redentor, há sempre o desafio de pensar e construir uma escola coerente com a herança histórica de cada povo, com suas expectativas culturais e seus desafios políticos.

Mas há sempre também a possibilidade de renunciarmos ao pensamento e adotarmos o último documento da Unesco que nos promete que a escola é um tesouro e se funda em quatro pilares, seja onde for que ela se instale, sejam quais forem as nossas práticas e expectativas. Ufa, que alívio!

*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII – jsfc@editorasegmento.com.br

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