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Escolas particulares precisam combinar preços baixos e oferta personalizada para atender crescente público da nova classe média em suas salas de aula

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Vanda Papa, do colégio Cerimar: a oferta pedagógica pesa mais que o preço

À medida que a educação se torna um bem de valor para crescente parcela da população e os padrões de consumo da classe C vão aumentando, o mercado potencial de escolas particulares torna-se mais atrativo para a oferta de novos serviços. Considerando a demanda gerada pela nova classe média, as iniciativas voltadas a esse público abrem um campo de possibilidades.

Pesquisa realizada em 2010 mostrou que, de maneira geral, os brasileiros estão mais preocupados com educação, que passou de sétima área de preocupação, em 2006, para terceira, no ano passado, apontada por 27% dos participantes, ao lado de temas como emprego e drogas. Os dados são de pesquisa do Ibope Inteligência.

Atualmente, 49,2% da rede de ensino particular já é constituída por estudantes da classe C, segundo análise do Data Popular com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2009 (Pnad). Do total de cerca de 52 milhões de alunos da Educação Básica, cerca  de 5,5 milhões estudam em colégios particulares.

O Boletim de Tendências do Sebrae-SP de dezembro de 2010 também afirma que as classes C e D já têm representatividade significativa nas matrículas em escolas particulares, embora não cite números. Mas o relatório mostra também que os gastos com educação, de famílias de todas as camadas sociais, ficaram em último lugar nas listas de prioridades, de acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008/2009, do IBGE. Naquele período, 2,5% das despesas de consumo foram destinadas a esse item. As famílias de maior renda destinaram 2,9% para educação, ao passo que aquelas de menor renda destinaram apenas 0,9%.

No entanto, a valorização da educação e a preocupação com questões como segurança e frequência docente, associadas de forma positiva ao universo das escolas privadas, podem significar uma oportunidade para a expansão da oferta.

O que está sendo feito
“Na Educação Básica, ainda vejo poucas iniciativas voltadas para a nova classe média. Neste nível de ensino, o mercado ainda funciona em termos de diferencial de negócio pela qualidade”, afirma o consultor Eugênio Cordaro, da Corus Consultores. Segundo ele, qualidade em educação mede-se tanto pelos resultados médios em avaliações, como no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e nos grandes vestibulares, como por habilidades não medidas nessas provas, entre elas capacidade de articulação oral, expressão musical ou manual, para citar algumas.

Esta é a avaliação de Vanda dos Santos Papa, diretora do colégio Cerimar. “Temos uma proposta pedagógica diferenciada. Nosso ensino não visa só o desenvolvimento cognitivo, mas moral, espiritual e científico”, afirma. A escola, localizada em Cidade Dutra, bairro com perfil de classe C em São Paulo, tem mensalidades entre R$ 180,00 (nível infantil) e R$ 380,00 (ensino médio). Na opinião de Vanda, a oferta pedagógica tem peso maior do que o preço mais baixo em relação a outras escolas da região no histórico de crescimento da escola, que tem 650 alunos. “Em 1997, começamos com 14 crianças e tivemos um aumento gradual nas matrículas”, comenta.

Qualidade de ensino também é citada pela diretora Gislaine Rosati como atrativo do colégio que leva seu nome. “Os pais estão mais preocupados com a consistência da aprendizagem. Eles observam que há muita falta de professor nas escolas estaduais e municipais, por exemplo”, afirma. Gislaine cobra mensalidades entre R$ 300 e R$ 380.
 
Preço justo
O apelo baseado em qualidade e proposta pedagógica combina-se ao fator preço acessível para viabilizar a entrada de crianças da nova classe média em escolas particulares. Uma das maneiras de calcular a mensalidade de uma escola particular para a nova classe média pode se voltar para o bolso do público-alvo. “Considerando que esse grupo tem renda familiar entre R$ 1.126 e R$ 4.807, que preço será possível cobrar?”, questiona o consultor Marcelo Sinelli, do Sebrae-SP.

Do ponto de vista de negócios, o sucesso de escolas montadas para atender a essa demanda precisa encontrar formas de ganho de escala. “Vemos, no ensino universitário, grandes redes que fizeram fusões e aquisições atendendo um grande número de alunos ao mesmo tempo. No ensino básico ainda não temos experiências do tipo, mas será preciso encontrar uma saída”, afirma Sinelli.

O consultor afirma que uma maneira de aumentar o volume de alunos atendidos com compartilhamento de custos é o associativismo. Ele dá o exemplo de lojas de materiais de construção que adotaram esse recurso para obter competitividade frente a grandes redes varejistas. Na gestão escolar, será preciso analisar em que processos é possível trabalhar em conjunto. Segurança e material didático são alguns deles.

Sinelli cita pelo menos dois outros mecanismos que podem auxiliar os proprietários de escolas. “A tecnologia bem utilizada é poderosa, barateia custos, torna a escola competitiva. E investir em professores é necessário, pois eles são os principais atores na qualidade”, considera.

Para Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais, filiado ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, colégios particulares têm chances de ganhar mais alunos porque está disseminada a ideia de que a escola pública é de má qualidade. “Ao mesmo tempo, os governos estão tentando melhorar a escola pública. Por pior que seja, tem melhorado. E tornando-se não tão ruim, não motiva um pai a querer matricular o filho na rede privada”.







Olhares para o novo público

Algumas estratégias devem ser levadas em conta por aqueles que querem voltar-se ao atendimento da classe C na educação. Marcelo Sinelli, do Sebrae-SP, lembra que o “boca a boca” é bastante eficiente na educação, pois trata-se de um segmento em que a recomendação é mais forte do que a propaganda.

Segundo o consultor, deve-se ter atenção especial com público feminino e os jovens, pois grande parte das famílias C, D e E é chefiada pelas mulheres, que decidem a sua compra e a da família. Já os jovens são antenados e cada vez mais fazem escolhas pertinentes a suas vidas, ainda que os pais paguem a conta. Clareza nas condições de pagamento e preço também é recomendável.

Quem estiver disposto a descobrir novas oportunidades deve pesquisar novos mercados emergentes com oferta insuficiente de escolas para esse público. Regiões do interior do Nordeste, por exemplo, que tiveram grande aporte de investimentos nos últimos anos, podem constituir-se em bons mercados. As regiões de Barreiras, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, são exemplos disso.


 


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