No turbilhão de emoções da adolescência

Representante brasileiro na corrida ao Oscar retrata Leonardo, estudante cego que vira objeto da atenção de uns e do preconceito de outros

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Divulgação
Leonardo (Ghilherme Lobo), de Hoje eu quero voltar sozinho: apesar de cego, vivendo as mesmas angústias e desejos de outros adolescentes

Representante brasileiro na corrida ao Oscar de filme estrangeiro deste ano e agora disponível em DVD e Blu-ray, Hoje eu quero voltar sozinho (2014, 96 min) fez uma boa carreira nos cinemas – cerca de 200 mil espectadores, número expressivo em relação ao circuito restrito de salas em que foi exibido e aos modestos recursos de divulgação – e conquistou dezenas de prêmios em festivais no país e no exterior, com destaque para os atribuídos por júri popular. É um filme de comunicação fácil com boa parcela do público, e que tende a falar ao jovem – seu principal alvo – com um apelo sedutor, submetendo uma abordagem realista da adolescência a um toque discreto de poesia.

Nessa estratégia, a reconstituição do cotidiano escolar exerce um papel fundamental. Acompanhamos o protagonista, Leonardo (Ghilherme Lobo), em sua rotina como estudante de ensino médio – sala de aula, amigos, retorno para casa. Mas ele tem uma particularidade: é cego. Ao mesmo tempo que não deixa de expor como esse dado o transforma em um aluno singular, objeto da atenção de uns e do preconceito de outros, o filme o mostra como alguém com os mesmos desejos e angústias de seus colegas da mesma idade, todos submetidos a ritos de passagem para a juventude. Não procura apresentá-lo como um personagem mais heroico ou fragilizado do que os outros; seus dramas são, na essência, semelhantes.

A trama de Hoje eu quero voltar sozinho se alimenta do desequilíbrio provocado pela chegada à escola de um novo aluno, Gabriel (Fábio Audi), que desperta sentimentos contraditórios em Leonardo e em sua melhor amiga, Giovanna (Tess Amorim). A partir desse triângulo, cujos vértices envolvem outros personagens (como os pais de Leonardo, especialmente zelosos com o filho), o diretor e roteirista Daniel Ribeiro nos leva até o turbilhão de emoções da adolescência, em que a sexualidade, embora decisiva para o andamento da história, configura apenas um dos territórios nos quais se caminha em direção a descobertas-chave para o amadurecimento de cada um.

Premiações
A positiva carreira internacional de Hoje eu quero voltar sozinho teve início em fevereiro de 2014, no Festival de Berlim, em que recebeu os prêmios Teddy (entregue a filme sobre temática homossexual que “contribua para a tolerância, a aceitação, a solidariedade e a igualdade na sociedade”) e da Fipresci (a principal federação internacional de críticos de cinema, que forma júris em diversos festivais).

Escola
O cotidiano de alunos de ensino médio no Brasil é cuidadosamente recriado por Hoje eu quero voltar sozinho, com atenção especial ao fato de o protagonista ser um aluno cego inserido totalmente em uma turma regular. Em sua carteira, por exemplo, há uma máquina de escrever; logo no início do filme, um pequeno conflito em sala de aula surge porque um colega reclama do barulho provocado pelo aparelho.

Curta-metragem
Estreante em longa-metragem, o diretor e roteirista Daniel Ribeiro realizou o curta-metragem Eu não quero voltar sozinho (2010), que apresenta os personagens Leonardo, Gabriel e Giovanna (interpretados pelos mesmos atores que fariam os papéis no longa). Em Hoje eu quero voltar sozinho, além da mudança no título, a narrativa aborda de outra forma a história.


FILMOTECA

Anos de descoberta e angústia

A adolescência já foi mostrada em diversos filmes como um momento delicado em que são feitas muitas descobertas, em paralelo a angústias que parecem insuperáveis. Confira alguns exemplos, de 1999 para cá:

As virgens suicidas (1999)
Filha do diretor Francis Coppola (O poderoso chefão, Apocalypse now), a diretora e roteirista Sofia Coppola estreou no cinema com essa adaptação do romance de Jeffrey Eugenides sobre cinco irmãs (uma delas interpretada por Kirsten Dunst, de Homem-aranha e Melancolia) que recebem de seus pais uma educação ultraconservadora.

Juno (2007)
A escritora Diablo Cody (pseudônimo de Brooke Busey) ganhou o Oscar de roteiro original por essa comédia dramática sobre uma adolescente (Ellen Page, que depois faria Menina Má.com, filme perturbador sobre a adolescência) que engravida do namorado de escola (Michael Cera) e decide entregar o bebê para adoção.

Educação (2009)
O escritor Nick Hornby (Febre de bola, Alta fidelidade) assina o roteiro, baseado em relato autobiográfico da jornalista Lynn Barber, desse drama ambientado na Inglaterra nos anos 1960, sobre uma adolescente (Carey Mulligan, de Shame e O grande Gatsby) que se deixa envolver por um homem mais velho e casado (Peter Sarsgaard, de Blue Jasmine).

Preciosa: uma história de esperança (2009)
Baseado em romance de Sapphire (pseudônimo de Ramona Lofton) e dirigido por Lee Daniels (pouco conhecido no Brasil, mas que realiza filmes muito populares entre o público negro dos EUA), o filme narra os dramas de uma adolescente de Nova York (Gabourey Sibide, indicada ao Oscar de melhor atriz) na década de 1980.

As melhores coisas do mundo (2010)
Responsáveis por Bicho de sete cabeças (2001) e Chega de saudade (2007), a diretora Laís Bodanzky e seu marido, o roteirista Luiz Bolognesi, se inspiraram em personagens criados por Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto para criar Mano (Francisco Miguez), adolescente paulistano que passa por mudanças em diversos aspectos da vida.

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