No espaço do cuidar

Na educação infantil, os homens passam pelo período “comprobatório” e têm de provar, mais do que as mulheres, suas competências e habilidades

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Gustavo Morita
André Reinach explica aos pais que seu trabalho vai além do cuidado com as crianças

O professor Sandro Vinicius Sales dos Santos é um pesquisador dedicado. O estudo que realiza para sua dissertação de mestrado em educação pode despertar o interesse de qualquer profissional da área. Afinal, foi proposto a partir de uma experiência de sete anos como docente da educação infantil em instituições públicas de Belo Horizonte, função que continua desempenhando. Em busca de captar a percepção das crianças na faixa dos 4 anos de idade sobre a escolarização que recebem, ele acabou encontrando um problema: sua presença na escola onde faz a pesquisa foi o suficiente para provocar uma reação de medo. Assustada ao ouvir rumores de que um homem estava raptando crianças em escolas da cidade, a mãe de uma aluna inferiu que o sujeito só poderia ser o professor, único homem naquele espaço majoritariamente feminino.


Prática, formação em pedagogia, especialização em docência para os pequenos, reconhecimento de colegas de trabalho e de familiares de alunos, aulas ministradas em um curso de magistério, licença da coordenação para acompanhar o cotidiano das crianças… Nada evitou que Sandro fosse chamado de sequestrador. “Essa mãe estava há quase 40 dias sem levar a filha para a escola. Eu expliquei ao marido dela todos os procedimentos éticos do trabalho, apresentei o termo de consentimento livre e esclarecido e passei muitos telefones para que pudessem comprovar que era um engano. Segundo o marido, a mulher ameaçou abandoná-lo, caso ele levasse a menina de volta para a escola”, conta o professor, que cursa o mestrado na Fae-UFMG.


A história de Sandro exemplifica situações de discriminação relatadas por homens que trabalham com crianças da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental no Brasil. Com apenas 2,9% de presença na docência para a faixa de 0 a 6 anos, eles ainda causam estranhamento, tanto da família, quanto da própria escola.


“Uma explicação para a menor presença dos homens na educação infantil é o fato de esta ser a etapa de menor prestígio social e econômico de todas as etapas do ensino e, portanto, a menos atrativa, embora seja pouco atrativa também para mulheres”, aponta o professor de Sociologia da Educação Frederico Assis Cardoso, da Fae-UFMG.

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Olhares
A educação infantil de hoje deve muito de suas técnicas ao alemão Friedrich Froebel (1782-1852), criador do primeiro jardim de infância (Kindergarten), em 1840. Foi a partir de palestras pela Alemanha sobre seu livro Mutter und Koselider (Mães e canções de ninar, em tradução livre), claramente voltado ao público feminino, que o pedagogo incentivou a abertura de outras escolas do tipo ainda naquela década. À época, Froebel jamais poderia prever a relação conflituosa que o pesquisador Joaquim Ramos, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), constatou em 2009, durante seus levantamentos para a dissertação de mestrado Um estudo sobre os professores homens na educação infantil e as relações de gênero na rede municipal de Belo Horizonte.


Motivado por seus mais de 20 anos de experiência como professor e coordenador de escolas de educação infantil em Belo Horizonte, Ramos entrevistou 12 docentes dessa etapa na rede municipal para saber como eles atuam e como suas colegas de trabalho e as famílias das crianças os enxergam. Resultado: além de serem minoria, eles estão sujeitos a percepções paradoxais por parte da comunidade escolar. Ora são vistos como potenciais agressores e abusadores, ora têm sua sexualidade colocada em suspeição. “As pessoas falam isso de forma convicta: se é homem e trabalha com criança pequena, não é homem de verdade”, exemplifica Ramos. No ano da pesquisa, os homens nas UMEIs de Belo Horizonte eram somente 14 em um quadro total de 1.837 profissionais.


Ramos identificou ainda que a relação entre os atos de cuidar e educar, que regem a educação infantil, tende a ser desfeita quando o professor é homem. Ou seja, “são criados mecanismos dentro da instituição para que ele nunca precise dar banhos ou trocar fraldas, para que não tenha de cuidar do corpo da criança”, explica, em entrevista à Educação.


Respaldo da direção
Essa situação também aconteceu com Sandro, no início da carreira. Em 2005, ele foi impedido de ser professor de apoio porque, nessa função,deveria suprir a ausência de profissionais nas turmas de berçário, de 1 e 2 anos, já que o quadro de docentes da escola era pequeno naquele momento.”A diretora deixou claro que não queria problemas com os pais. Então fui trocado de lugar com uma professora e fiquei na regência de uma classe de alunos com 4 anos”, recorda.


Hoje, Sandro diz ter conquistado o respaldo da coordenação e da direção para realizar seu trabalho, o que dependeu de uma predisposição de suas supervisoras para acontecer. Em 2006, ele foi sorteado para a regência de uma turma de crianças de 2 anos. “A mesma diretora que havia me retirado da função de apoio admitiu que eu poderia trabalhar com qualquer faixa etária, porque na visão dela eu estava provando ser tão bom quanto as professoras mulheres”, enfatiza.


A justificativa da diretora remete ao que Joaquim Ramos, em sua pesquisa, chama de “período comprobatório”. Significa dizer que o tempo necessário para que o professor do sexo masculino seja aceito pela comunidade escolar ou a vigilância sobre esse profissional são maiores do que no estágio probatório que qualquer outro servidor municipal precisa cumprir para conquistar a estabilidade no funcionalismo público. “Além da qualificação para o trabalho, o homem precisa provar ter idoneidade moral e física e identidade sexual ilibada”, enumera Ramos. Segundo ele, todos os professores entrevistados em 2009 relataram essa experiência de adaptação.


Pânico moral
A psicóloga Jane Felipe de Souza, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destaca que esse monitoramento de ações está diretamente ligado ao fato de as graves denúncias de violência e abuso sexual terem se acentuado no Brasil a partir da década de 1990, sobretudo com o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90).


Segundo Jane, que integra os grupos de estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE) e de Educação Infantil (GEIN), na UFRGS, conforme as campanhas de combate à pedofilia se fortaleceram, instalou-se “certo pânico moral” de que os homens da educação infantil sejam potenciais abusadores. “É um grande preconceito em relação a esses profissionais”, afirma. “Por isso, como mostrou a pesquisa de Belo Horizonte, as colegas manifestam a preocupação de que os homens estejam em sala de aula cuidando das crianças e tendo de fazer trocas de roupas ou fraldas, pois a sexualidade deles é vista ainda como algo perigoso, incontrolável, quase animalesco”, explica.


O caso mais recente de um docente envolvido com pedofilia foi registrado no mês de maio deste ano, em Mauá, na Grande São Paulo. O professor José Vilson de Sousa, de 46 anos, foi preso com montagens pornográficas feitas com rostos de meninos. As vítimas eram alunos da Escola Municipal Cora Coralina, onde ele dava aulas para crianças com idade entre 6 e 10 anos.


O crime chama a atenção para as ocorrências no espaço escolar, mas, segundo a Secretaria Nacional de Direitos Humanos (SNDH), estima-se que 80% dos abusos sexuais contra crianças e adolescentes acontecem dentro do ambiente familiar e ainda são pouco notificados devido à proximidade dos agressores. A reportagem entrou em contato com a SNDH para perguntar quais locais compõem a estimativa dos outros 20%, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.


Encabeçam a lista nacional de denúncias feitas por meio do Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração contra Crianças e Adolescentes (Disque 100) os estados de São Paulo (6.600), Bahia (5.875), Rio de Janeiro (5.513), Minas Gerais (3.349) e Maranhão (2.896). Os números correspondem ao período entre janeiro e agosto de 2011, no qual a média de notificações recebidas foi de 209 por dia; um total de 50.833 no Brasil. A região Nordeste foi a que mais registrou ocorrências no serviço, seguida por Sudeste, Sul, Norte e Centro-Oeste.


Para Jane, é preciso lembrar que as estatísticas sobre pedofilia raramente fazem menções às mulheres e isso pode estar relacionado justamente à ideia de que elas não são colocadas sob suspeita por exercerem naturalmente o papel da maternagem, associação que nem sempre é real. Entre 2004 e 2010, 68% dos suspeitos de violência sexual nas denúncias do Disque 100 eram do sexo masculino e 32% do sexo feminino, proporção que vale tanto nas situações de exploração sexual como nas de abuso sexual, de acordo com a SNDH.


A pesquisa científica sobre os abusos é uma das metas do Plano Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Infantojuvenil, lançado em 2002, mas até o momento não existem dados consolidados a respeito – segundo a própria SNDH, devido à ausência de troca de informações entre entidades e órgãos públicos que tratam do tema.


Ausência paterna
Quando o homem não é visto como uma ameaça para as crianças da educação infantil, ele é interpretado como uma referência dentro da escola. Esse aspecto destoante dos anteriores também foi constatado por Ramos. “Por ter se transformado em um espaço muito feminino, no momento em que a escola recebe esse profissional e a comunidade o conhece, as pessoas passam a valorizar sua presença como figura equivalente à paterna, principalmente no caso das UMEIs, que são muito carentes de recursos, cujas crianças sempre ficam sob os cuidados das mães, tias e avós”, explica.


Em uma realidade bastante diferente da que vivem as UMEIs, o professor Rafael Carvalho, que dá aulas para uma turma de sete crianças de 2 anos e meio na Red Balloon Educação Infantil Bilíngue, escola particular na cidade de São Paulo, faz a mesma avaliação. “Eu sinto que o pai geralmente é o mais ausente nessa idade, é quem menos vai buscar o filho. Geralmente é a mãe, a avó, a babá, depende de cada realidade. E quando o pai vai, a criança fica muito feliz. Então, é legal ter o homem na sala, porque supre um pouco a ausência paterna”, acredita.


Para Jane Felipe, equilibrar a presença de homens e mulheres nas escolas é importante, mas não no sentido de reafirmar a “normalização coletiva” que já existe. Ou seja, a atuação dos dois gêneros no ambiente escolar não deve ser para promover a ideia de que há “coisas de meninos” e “coisas de meninas”. “Dentro de uma visão muito próxima à psicanálise ou à psicologia, o homem ali remete à autoridade paterna e as mulheres podem acabar, mesmo sendo docentes, atuando dentro da perspectiva socialmente esperada do sexo feminino, de cuidar, de maternar. É como se no fundo as pessoas achassem que um lugar repleto de mulheres não é tão adequado assim para as crianças”, adverte.


Segundo a psicóloga, as próprias instituições, muitas vezes sem se dar conta, acabam discriminando meninos e meninas, em determinadas ações. “Há escolas infantis que oferecem ballet para meninas e judô para meninos como atividades extras”, exemplifica. “Isso diminui consideravelmente as possibilidades de conhecer e explorar o próprio corpo para ambos os sexos. Por isso é necessário que os professores e as professoras percebam quando as expectativas sociais acabam conformando esses indivíduos e que tenham essa visão do desenvolvimento infantil também a partir da cultura e não só dos aspectos motores e cognitivos”, alerta.


Outra situação comum que pode ser evitada acontece na hora de repreender. “Já vi professoras da educação infantil darem como castigo aos meninos bagunceiros serem colocados junto às meninas. Ora, fazer isso é dizer a esse menino que estar com as meninas é um demérito. Quando eles estão conversando demais, dizem: ”parece uma menina pelo tanto de fofoca que faz”. Esse tipo de ação acaba sendo altamente discriminatório”, lembra Jane.


Comportamentos
Para ela, outro equívoco é deixar de cobrar dos meninos que sejam zelosos com seus materiais, devido à percepção de que são mais agitados e desorganizados. “Acontece de o docente achar que a organização deve ser uma característica da menina, que sempre é convocada a ser limpinha, cuidadosa, e ele acaba não exigindo isso do menino. Há a visão de que a menina não pode ser ”desleixada” consigo e com seus pertences, enquanto isso é algo considerado ”natural” para o menino”, indica.


O professor Rafael acredita que esses episódios, vistos por ele em experiências anteriores, podem ser evitados se na mesma sala estiverem um homem e uma mulher, como acontece na turma dele. Ele afirma que os meninos são em geral mais agitados e costumam brincar de derrubar objetos, enquanto as meninas apresentam um comportamento mais centrado, com algumas exceções. “As professoras muitas vezes não têm muita paciência para lidar com esse jeito do menino. Falam ”esse moleque é um capeta”, enquanto que com a menina elas lidam facilmente. Não diria que o homem é melhor que a mulher, de forma alguma; acho que os dois na mesma sala podem harmonizar o convívio entre as partes”, expõe.


Questão de competência
“Não basta só gostar de crianças; a postura do professor dessa etapa deve ser cuidadora, participativa, afetiva e companheira”, define Flavia Queiroz Hoexter, coordenadora pedagógica da Red Balloon. Com 12 anos de experiência em ensino bilíngue e como professora da educação infantil, ela afirma que não há motivos para fechar a porta a um homem que é bom docente e apresenta essas características.


De acordo com a psicóloga Jane Felipe, o que faz um professor competente para essa idade é ele – ou ela – “compreender que os comportamentos são extremamente estabelecidos a partir das relações sociais e culturais em um determinado tempo histórico”, enfatiza. “Dessa forma, ele certamente vai desenvolver práticas que primam pela ação cooperativa e não competitiva, vai permitir que tanto meninos como meninas acessem as mesmas atividades. Se a proposta for uma atividade culinária, por exemplo, ele vai incluir todos igualmente nessa experiência”, explica.


É justamente em uma atividade culinária que Flavia identifica o aspecto integrador no professor Rafael. “Ele me disse que não ofereceria tudo pronto para as crianças, mas misturaria os ingredientes junto com elas. Resultado: na sala dele, os materiais foram apresentados para a turma e depois ele pediu que todos fossem entregando aos poucos para ele. No final da aula, a farinha estava toda espalhada pela mesa, mas ele deixou todas as crianças colocarem a mão na massa”, recorda.


Entre o cuidar e o educar
E por que o cuidado com a criança está tão relacionado à ideia de que se trata de uma função feminina? De acordo com a pesquisa de Ramos, o conceito assistencialista atribuído socialmente à educação infantil, de que a creche substitui a mãe e o papel desempenhado por ela, dificulta que a tarefa seja avaliada como algo profissional pelas famílias. Se esse é o motivo do tabu no ensino público, no privado não é muito diferente, mas existe a tentativa de mudar essa construção social por meio do diálogo.


O professor André Reinach, que trabalha na Escola Viva, na zona sul de São Paulo, afirma esclarecer aos pais nas reuniões que esta é somente uma parte da empreitada, embora não esteja isolada. “Por eu trabalhar com crianças de 3 anos, há a preocupação com o cuidado e eu deixo muito claro que ele existe, é importante e é feito, mas que tem diversos outros aspectos observados aqui: como a criança está brincando, como ela se comporta, como ela se relaciona com os outros”, destaca. “Sempre começo falando com os pais sobre o que a criança é e, se para falar disso é necessário discorrer sobre como ela está se cuidando ou sendo cuidada, eu falo. Porque tudo isso diz muito sobre como ela é. Se ela tenta colocar um sapato sozinha e ainda fica receosa e faz manha para eu ir ajudar, por exemplo, é algo que merece ênfase. E quando a família vai entendendo essa linguagem, ela vê que o trabalho é muito sério”, avalia.


Na mesma instituição há 14 anos, o professor Luiz Alberto Camacho já trabalhou com todas as idades da educação infantil na Escola Viva e atualmente está com uma turma de 6 anos. Ele vê que hoje as famílias já estão se acostumando com o fato de haver professores homens nessa etapa. “Teve um episódio há uns dez anos em que um auxiliar começou a trabalhar e um pai perguntou ”Quem vai trocar meu filho – ele?”, mas foi algo pontual”, lembra.


Por outro lado, quando trabalhou na favela de Paraisópolis, também na zona sul de São Paulo, Luiz verificou que os pais demoraram para se acostumar. “Participei durante cinco anos de um projeto que levava educação para as crianças que estavam sem escola na região e a figura do professor homem era inédita, é algo fora do padrão nas EMEIs [Escolas Municipais de Educação Infantil]”.


Em dez anos, a quantidade de professores homens na rede do município cresceu 0,5%. Em 2012, existem 25.066 professoras e 266 professores (1% do total). Em 2002, eram 17.226 docentes mulheres e 88 homens (0,5% do total), segundo informou a Secretaria Municipal de Educação.


No cotidiano de Rafael Carvalho, os cuidados estão mais relacionados ao brincar. O trabalho de levar ao banheiro ou trocar roupas é comumente feito por babás, mas a coordenadora Flavia Hoexter explica que, se elas estiverem ocupadas, é o professor quem faz essa tarefa. “No início do ano, quando vamos apresenta-lo às famílias, elas lançam todas essas questões: ”mas minha filha vai sentar no colo do professor, quem leva ao banheiro?” e são avisadas de que temos total confiança nesse profissional. Nós lembramos que temos as babás, mas que o professor também está apto”, esclarece Flavia. “Aqui na escola não vemos como um homem ocupar a vaga de babá por uma questão cultural. Nós poderíamos ter, mas não sei se os pais estão preparados para isso e não vamos criar uma situação em que alguns não fiquem tranquilos”, acrescenta.


Subir na carreira
Se o homem, quando professor da educação infantil, levanta questões de preconceito, por outro lado é com naturalidade que ele assume, e é visto, em cargos de gestão. Essa constatação, feita em 1998 pela professora da Feusp Marília Pinto de Carvalho, apareceu nos relatos dos docentes ouvidos por Joaquim Ramos em Belo Horizonte. Um deles foi nomeado coordenador de UMEI em menos de um ano atuando como educador. Outro cursava a graduação quando foi escolhido para a mesma função e acabou abrindo mão dessa colocação, porque considerou não ter os referenciais teóricos necessários. Um terceiro profissional manifestou a expectativa de ascender hierarquicamente.


Para Cesar Augusto Martins Doro, hoje diretor do Departamento de Educação de Mogi Mirim, no interior de São Paulo, o processo não foi tão rápido, mas aconteceu. De quando começou como estagiário, em 1995, até assumir o primeiro cargo administrativo de coordenador de uma escola particular de educação infantil, em 2005, passaram-se dez anos. “Eu sempre gostei de trabalhar com os pequenos e fiquei conhecido na cidade, porque quando eu trabalhei na prefeitura pela primeira vez, há 17 anos, era diferente, não tinha homem trabalhando com essa faixa etária”, recorda.


Cesar acredita que a trajetória de ascensão na carreira se deve ao fato de, segundo ele, o homem dedicado a essa etapa ter de provar, mais do que as mulheres precisam, que está apto a fazer o trabalho. “Eu cresci porque tive de me aplicar um pouco mais do que as minhas colegas, porque a mulher é vista como capaz naturalmente, enquanto o homem precisa provar com todas as forças que é isso mesmo o que ele realmente quer e é capaz de fazer. E eu acredito que esse fator pode influenciar a melhora da qualidade do ensino”, afirma.


Após 14 anos na Escola Viva, o professor Luiz Camacho diz que uma proposta para assumir um cargo administrativo não seria atraente para ele. “Nunca me fizeram uma proposta ou encaminhamento para isso. Se tivesse acontecido, eu não estaria mais lá, porque eu justamente escolhi trabalhar com as crianças para fugir de funções burocráticas. Na ONG e nas escolas públicas onde trabalhei, eu vejo que os homens acabam tomando a dianteira, mas onde estou penso que valorizam o homem na docência”, pondera.








“Ganhar a vida trabalhando só nisso é mesmo difícil”
Luiz Alberto Camacho, 37 anos, 14 deles na educação infantil em São Paulo (SP)






Gustavo Morita
Hoje eu trabalho com 20 alunos de 6 anos, no letramento, mas já passei por turmas de todas as idades desde que entrei na Escola Viva [na zona sul da cidade de São Paulo], aos 23 anos, em 1997. Quando comecei, o único professor que havia nessa etapa estava saindo. Então, durante meus três primeiros anos lá eu fui o único docente homem. Sou psicólogo e quando terminei a faculdade, a perspectiva de ficar confinado em um consultório me dava certa aflição. Por mais que na escola exista uma rotina, as crianças estão cada dia de um jeito e pesou muito na minha escolha a oportunidade de desenvolver um trabalho com essa faixa etária. Isso é diferente de cuidar delas porque são “fofas”. É ver seu trabalho acontecendo ao longo do ano e identificar que ele surte efeito muito rápido nessa idade.


Também influiu na minha decisão o fato de trabalhar nessa escola especificamente, onde posso desenvolver projetos. Se fosse uma escola mais tradicional, eu não sei se me encaixaria. Hoje somos três professores titulares e cinco auxiliares com grande potencial. Vi muitos homens chegarem, ficarem um pouco e irem embora, porque a maioria passou pela educação infantil como uma experiência para outras áreas, como sociologia, psicologia e letras. Eu mesmo optei por permanecer e cursar pedagogia só depois de cinco anos refletindo sobre o que eu faria caso saísse.


Os amigos que passaram por lá justificavam as contas a pagar e eu entendo, porque ganhar a vida trabalhando só nisso é mesmo difícil. É preciso ter uma carta na manga. Durante cinco anos, eu trabalhei em uma ONG, com um projeto que oferecia educação infantil para as crianças que estavam sem escola na comunidade de Paraisópolis. Agora estou reencontrando a psicologia, atendendo crianças mais velhas com dificuldade de aprendizagem, mas nunca pensei em parar de dar aula porque preciso de dinheiro. Fui atrás
de outras soluções financeiras para continuar.









“Eu comecei por acaso”
Rafael Carvalho, 26 anos, três deles na educação infantil em São Paulo (SP)





Gustavo Morita
Na primeira escola em que trabalhei, em 2009, fiquei o período letivo inteiro como estagiário nas salas de 1º e 2º anos do ensino fundamental. A instituição tinha virado bilíngue fazia dois anos e ainda não estava muito claro como seria a incursão no inglês. A experiência de participar do letramento foi muito boa, apesar de uma das professoras ter se referido a mim como “mais uma criança para cuidar”. Isso aconteceu porque eu participava do playground e brincava de jogar os alunos para cima, de pendurar. Agora entendo esse comentário: eu tinha mesmo vários aspectos a lapidar e outra professora me deu várias dicas, para não brincar de alguns modos que pudessem machucar as crianças. Em 2010, eu comecei como assistente na Red Balloon Educação Infantil Bilíngue, onde hoje sou o professor de uma turma de sete alunos de 2 anos e meio e trabalho com uma professora-assistente. A escola também tem outros dois professores homens, que são os especialistas de educação física e de música.


Eu comecei por acaso. Cursei licenciatura em letras na PUC-SP porque gostava de escrever e ler. Tenho vontade de fazer psicologia e o que mais quero estudar é pedagogia, porque é minha área atual. Na prática aprendi muito, e quando me perguntam como eu consigo dar aulas em inglês para crianças de 2 anos e meio, eu não sei responder. Talvez seja porque tem pouca gente fazendo isso e acho que, se mais pessoas fizessem, elas também iriam gostar. Já tentei jogar futebol profissionalmente, fui monitor de acampamento, vendedor de loja, telemarketing e agora estou aqui aprendendo a ser professor, estou me construindo.


Preciso ter muita paciência às vezes, porque as crianças demandam muita energia. Elas choram e você deve estar com ouvido e coração abertos para conseguir lidar com as situações de uma forma justa, atendendo a todos. Para mim é tudo muito prazeroso e meu dia passa muito rápido. Às vezes eu me sinto um pouco cientista com as crianças, pois eu acompanho o desenvolvimento delas e vejo como os adultos, no caso os pais, são parecidos com elas.


Eu não gostava de ter de recortar 20 vaquinhas, 20 carneirinhos. Acho que as mulheres têm mais habilidades manuais, mas fui criando mecanismos: eu ia para a casa dos meus amigos  ver jogo e fazia tudo ao mesmo tempo. Talvez esse tipo de serviço afaste um pouco os homens, porque temos uma exposição social diferente e a expectativa da família em relação a nós.


Às vezes penso em fazer outra coisa para ganhar dinheiro e, no minuto seguinte, volto atrás. Não sei se me vejo dando aulas até os 40 anos, mas, hoje, aos 26, eu gosto do meu trabalho.










“A primeira coisa que perguntam é se eu sou heterossexual”
Sandro Vinicius Sales dos Santos, 32 anos, sete deles na educação infantil em Belo Horizonte (MG)






Ronaldo Guimarães
Escolhi ser professor por influência da minha mãe, que é docente da rede municipal. Em 2004, prestei o concurso e fiz o magistério em um colégio no Rio de Janeiro, em regime semipresencial. Recordo a data em que fui nomeado: 15 de julho de 2005, ano em que comecei a estudar pedagogia no Instituto Superior de Educação Anísio Teixeira, vinculada ao Instituto Helena Antipoff. Até hoje trabalho na rede de Belo Horizonte, atualmente com uma turma de crianças de 3 anos. Além disso, leciono em um curso de formação de professores para a educação infantil da Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais. Na UFMG, onde faço o mestrado, eu me especializei em docência da educação infantil.


Ao longo desses sete anos, coleciono fatos muito positivos, apesar da resistência de alguns pais em certos momentos, sobretudo das mães, à minha presença na escola. Um dia, na hora da saída, um pai me disse se sentir representado ao ver que os filhos dele tinham um professor homem, já que ele não podia estar muito tempo com eles.


Hoje chega a ser engraçado que em todo primeiro dia de aula no curso de magistério, na Escola Estadual Engenheiro Francisco Bicalho, a primeira coisa que perguntam é se eu sou heterossexual. Mas isso vem desde quando comecei na UMEI e uma de minhas primeiras diretoras quis saber como eu fui parar na educação infantil. Respondi que era casado e cuidava da educação das minhas duas filhas. Percebi que, além de questionarem muito isso, elas pensavam: “se é hétero, é preciso vigiar, porque pode ser um perigo para as crianças”. O assunto que fica por último é se sou competente para o trabalho.


Há no imaginário coletivo essa imagem de que a maternagem é uma tarefa única e exclusivamente feminina. Por meio do discurso científico, tento mostrar o que a professora Marília Pinto de Carvalho [Feusp] defende: a maternagem é uma construção social e, portanto, o homem também pode praticá-la.

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