Na bromélia

A aula continua a ser a vaca sagrada da pedagogia

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Nos seus Ensaios (1580), Montaigne critica os vícios educacionais da sua época:
Esforçamo-nos para preencher a memória e deixamos a consciência e o entendimento vazios. Assim como os pássaros vão à procura do grão e o trazem no bico sem o experimento, para serem provados por seus filhotes, assim nossos mestres vão pilhando a ciência dos livros, alojando-a na ponta da língua, tão-somente para vomitá-la e lançá-la ao vento.

Mais de 400 anos decorridos, outro autor escreve:
cada vez que um professor se dirige a uma sala de aula, reitera a pergunta acerca de como fazer para que as crianças e jovens não se dispersem, não atrapalhem os colegas e, mais ainda, prestem atenção à aula, se interessem pelas atividades propostas.

Cumpre-se o Mito de Sísifo, em cada episódio do drama escolar. A aula continua a gerar desperdício. Alunos escutando MP3 na sala de aula –
As aulas são chatas. Não há como não ouvir música.

Passo pelos corredores das escolas. Salas fechadas, alunos alinhados em filas, olhando a nuca do colega da frente, copiando conteúdo do quadro – É o mundo do giz versus exílio de celular, onde o absurdo acontece: uma professora enviou um bilhete à diretora, dizendo "tenho um aluno a dormir na minha sala, peço providências".

Aquilo que mantém viva a minha esperança é o trabalho de muitos professores, que, anonimamente, vão construindo novas práticas, suportando o desdém de especialistas de coisa nenhuma e críticas vindas de doutorados em inutilidades. Perdoai a redundância – subitamente, faltou-me a paciência – mas, até nas melhores publicações, há quem impute o insucesso dos alunos à influência de novas pedagogias. Haja paciência! Gostaria que me dissessem onde se praticam as "novas pedagogias", eleitas como bode expiatório dos males do sistema. Ou que novas pedagogias esses especialistas terão praticado em sua sala de aula. Provavelmente, nenhuma.

Já tudo foi escrito e reescrito – desde a denúncia da doença ao seu tratamento. Insiste-se em soluções precárias, que não saem do círculo vicioso das referências paradigmáticas vigentes. Teóricos, políticos, gestores, especialistas entretêm-se em discussões estéreis: Qual a melhor idade para começar o fundamental? Qual a melhor idade para ser alfabetizado?…
Assisto à  mumificação de questões bizantinas, em debates sem fim. Ao longo de mais de três décadas, identifiquei e corrigi erros crassos que cometi na minha prática. Erros em que ainda se insiste: redução de alunos por turma, eliminação do multisseriado, recuo da avaliação continuada, aumento de número de horas letivas, classes de reforço… Insiste-se em pôr remendos num modelo obsoleto de organização das escolas, quando se deveria fazer a sua reconfiguração. A aula continua a ser a vaca sagrada da pedagogia, algo considerado indispensável nas práticas escolares. Nunca terá passado pelas eminentes cabeças dos pedagogos oficiais a ideia de que não existe um só modo de fazer escola?

A natureza é pródiga em metáforas. Existe um inseto que cumpre todo o seu ciclo vital sem jamais sair da bromélia, que é a sua casa e o seu túmulo. Mas, como diria o Pessoa,
há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares; é o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.


José Pacheco



Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br

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