Múmias pedagógicas

As amarras contemporâneas

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A escola contemporânea – tal qual a conhecemos enquanto formação experiencial de alunos e professores – é herdeira de necessidades sociais do século 19, ainda que as suas raízes adentrem os séculos anteriores. O modelo "tradicional" de escola adotou formas e procedimentos característicos das instituições mais respeitadas na época em que foi implementado – aplicou modos de organização dos espaços e métodos utilizados em casernas, mosteiros e prisões.

Nos primórdios da instrução pública, foram construídos edifícios dotados de pátios internos, réplicas das praças de instrução militar. Os edifícios destinados à instrução dos jovens eram rodeados de muros altos. As escolas foram divididas em salas (celas dos mosteiros ou das prisões) de janelas estreitas e abertas bem acima da estatura dos alunos. Estes eram instalados em filas, separados em grupos etários uniformes e distribuídos por graus de ensino. Foram instituídos programas iguais para todos e criados dispositivos de controle total das escolas de todos os níveis. O toque de uma sineta passou a marcar a cadência de horários de aula iguais para todos, visando a uniformização e o conformismo consentâneos com as necessidades de uma revolução industrial emergente. Os livros delimitavam a apresentação do conteúdo, a avaliação era (e continua sendo) confundida com a aplicação periódica de provas de padrão único, visando a comparação e a competição entre alunos. Cargos e funções diferenciadas reforçavam a hierarquização já subentendida na relação professor-aluno. A disciplinarização física e psíquica era inquestionável, as regras eram mantidas sem questionamento e eram frequentes as premiações e os castigos. A arquitetura escolar e a prática docente dessas escolas refletiam (e reproduziam) uma visão de homem e de mundo pronta e acabada. No século 19…

No século 21, acompanho o cotidiano de escolas que ousaram operar rupturas com o modelo obsoleto antes descrito, que se preocupam com a formação integral dos jovens, cujos professores se assumiram responsáveis por aquilo que fizeram de si, a partir do que deles a vida (e a escola) havia feito. Que ousaram partir de uma formação experiencial madura no ensino tradicional para novas e melhores práticas. Professores que, reelaborando a sua cultura pessoal e profissional, lograram obter o sucesso pessoal e a rea­lização social dos seus alunos, antes inimaginável.

Uma dessas escolas requereu a sua municipalização. Porém, pretende manter práticas coerentes com o seu projeto. Contatado, um responsável pelo processo de municipalização respondeu, peremptório: Se a vossa escola for municipalizada terá de ser como todas as outras. Nada de projetos!…

Há "projetos" que escapam à compreensão de burocratas pedagogicamente míopes. Argumentando com a lei, abusam do poder para destruir o que não entendem e que nenhuma lei impede. Seria oportuno perguntar-lhes qual lei evocam.

Nas minhas intervenções públicas, sou interpelado por professores e gestores, que afirmam não ser possível "autorizar certos projetos, porque a LDB não permite". Pergunto-lhes pelo artigo da lei que não permite "autorizar". Não sabem dizer qual seja, simplesmente, porque não existe qualquer impedimento legal.

Até quando andará a educação do Brasil ao compasso de mentalidades retrógradas? Até quando certas múmias pedagógicas vão impedir que a educação do Brasil melhore?


José Pacheco


Educador e Escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)



josepacheco@editorasegmento.com.br



 

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