Mudança com continuidade

Aloizio Mercadante assume o Ministério da Educação com bandeiras semelhantes às defendidas pela gestão anterior, mas já anuncia novas propostas

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Sergio Lima/Folhapress
Fernando Haddad e Aloizio Mercadante durante a cerimônia de posse: sai o advogado, entra o economista

O primeiro discurso de Aloizio Mercadante como ministro da Educação, realizado no final de janeiro, deu dois indícios a respeito do futuro da pasta sob seu comando. Apesar de ter acenado para a manutenção das linhas gerais que orientavam o trabalho do órgão até então, o ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação não deverá se contentar em dar continuidade ao trabalho de seu colega Fernando Haddad, que deixou o posto para disputar a prefeitura de São Paulo nas eleições deste ano. Na cerimônia de posse, Mercadante não só anunciou a intenção de implantar “novos programas”, como também disse que sua gestão não será “um trampolim para projetos pessoais ou partidários”.


A política educacional do ministro incluiu temas, bandeiras e assuntos da gestão anterior, como a valorização docente e a expansão de vagas nas universidades e institutos federais. Uma das intenções de Mercadante é tirar do papel a Prova Nacional de Ingresso na Carreira Docente, projeto que já é trabalhado dentro do MEC desde 2010. O exame, que será como um concurso nacional para professores, teria sua primeira edição em 2012, mas o cronograma deve ser adiado em função das eleições municipais, que dificultariam a adesão das prefeituras ao projeto.


As novas medidas começaram a ser anunciadas já durante a cerimônia. Na ocasião, o ministro instituiu o Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic), que tem como objetivo a garantia de que toda criança esteja alfabetizada até os 8 anos. O projeto, entretanto, não é exatamente novo. De acordo com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o programa está sendo discutido com secretários estaduais e municipais de Educação desde 2011. Além do Paic, outra política a ser adotada pela nova gestão do MEC é o Pronacampo, que tem como objetivo a melhoria da infraestrutura das escolas localizadas em áreas rurais que amargam os piores índices de repetência, evasão e distorção idade-série. A ação também já vinha sendo discutida pelo Ministério no ano passado, sob o comando de Haddad e a pedido da presidente Dilma. Mercadante também anunciou que está “amadurecendo” a ideia de bonificar as escolas que consigam alfabetizar todas as crianças na idade certa. “Temos de valorizar essa conquista. Tem de ser um grande esforço nacional”, disse, em fevereiro, ao jornal O Estado de S. Paulo.


Currículo
A trajetória política e a atuação do novo ministro nos governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são conhecidas do público (veja texto abaixo). O petista, que nunca ocupou cargos executivos na área de Educação, tem graduação em economia, mestrado em ciência econômica e doutorado em teoria econômica. Mercadante carimbou seu passaporte para a vaga graças ao desempenho no comando do Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) ao longo de 2011. Sua gestão teve boa aceitação por parte das entidades científicas e agradou  à presidente Dilma Rousseff.


Isso porque tirou do papel um importante projeto da presidente logo no primeiro ano de mandato: o programa Ciência sem Fronteiras (CsF), que tem a ambição de mandar 100 mil estudantes brasileiros para estudar em instituições estrangeiras até 2014. Os primeiros bolsistas já embarcaram e a ação tem um cronograma bem planejado de quantos alunos viajarão a cada ano e quanto será gasto para cumprir as metas. O CsF virou a menina dos olhos da presidente e deu uma visibilidade inédita ao MCTI.


O novo ministro da Educação foi incorporado ao governo Dilma depois de perder a disputa pelo governo de São Paulo em 2010. Na campanha ao Palácio dos Bandeirantes, Mercadante apresentou suas propostas para a Educação do estado. Uma delas bate de frente com uma das atuais políticas do MEC: a progressão continuada. Enquanto a gestão de Haddad defendeu – com apoio do Conselho Nacional de Educação (CNE) – o fim da reprovação nos três primeiros anos do ensino fundamental, Mercadante condenava essa prática. Dizia que, se eleito, acabaria com a aprovação automática na rede estadual “imediatamente” e investiria pesado em avaliação.


Outra estratégia que defendeu com empenho durante a campanha – e já começa a aplicar agora no MEC em larga escala – é a inserção da tecnologia em sala de aula para melhorar a aprendizagem. Ele é entusiasta do projeto do governo uruguaio que conseguiu colocar um laptop na mão de cada aluno da rede pública. Quando candidato ao governo de São Paulo, o economista prometia levar internet em banda larga para todas as escolas da rede e entregar um computador portátil para cada professor. No MEC, já anunciou a compra de tablets que serão distribuídos a escolas de ensino médio, em um primeiro momento para os docentes.


A trajetória de Mercadante
Novo ministro assume o Ministério da Educação com bandeiras semelhantes às defendidas pela gestão anterior, mas já anuncia novas propostas 


> Eleito deputado federal em 1990 e 1998. Em 1994, abriu mão de uma provável reeleição para ser vice na chapa de Lula à Presidência da República.


> Eleito senador por São Paulo em 2002. Assumiu a função de líder do governo e, posteriormente, da bancada do PT. Em 2006 disputou o governo de São Paulo e
perdeu para José Serra.


> Em 2010 disputou o governo de São Paulo. Perdeu para o tucano Geraldo Alckmin ainda no primeiro turno, ficando em segundo lugar no número de votos. Durante a campanha eleitoral, mostrou-se contra o modelo de progressão continuada e criticou o sistema de bonificação por desempenho aplicado à rede estadual
de educação.


> Anunciado como ministro da Ciência e Tecnologia em dezembro de 2010, no governo de transição da presidente Dilma. Durante sua gestão, lançou o programa Ciência sem Fronteiras.

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