Modos de ler em 2083

Ler é descobrir. É fazer a loucura de colocar-se diante dos personagens, topar com eles como quem encontra alguém na rua, envolver-se, tocá-los, julgá-los, conversar com eles

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Ilustração do livro “A máquina de histórias, de Tom Maclaughlin


Como será o mundo daqui a 70 anos? E a escola, a biblioteca, a prática da leitura, como serão? No livro 2083 (Editora Biruta: 2012), do escritor espanhol Vicente Muñoz Puelles, vemos o avanço da desertificação no planeta, o clima adverso ao humano, a onipresença da tecnologia no dia a dia de todos, incluindo robôs sofisticados, e uma escola baseada em teleaulas e em pesquisa individual. Aliás, David, o jovem protagonista, não entende como as crianças puderam suportar durante anos o ensino nos antigos moldes.

David é órfão de mãe. Seu pai trabalha numa agência de viagens que leva os clientes a visitarem virtualmente o interior dos livros. Utilizam um “amplificador de inteligência”. Os livros impressos são raros, embora seu conteúdo, com alguma sorte, possa ser encontrado na Cosmonet. David terá algumas inesquecíveis experiências de leitura na Bibliotravel.
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O mergulho na narrativa é interativo. Toda a informação contida no livro é enviada ao sistema nervoso do leitor-viajante, que se transforma num dos personagens, podendo, caso deseje, fazer modificações na história, à medida que a vivencia. Em sua primeira viagem, David será o jovem pastor Davi, do Primeiro Livro de Samuel:

Escutei uns balidos. Ali estava eu, em uma espécie de deserto pedregoso, cuidando do rebanho do meu pai. Usava uma saia curta branca com listras e sandálias.

Em sua luta contra Golias, o gigante filisteu, Davi (futuro rei dos judeus, mas naquele momento transformado no leitor espanhol David) consegue derrubá-lo, como sabe quem conhece a história. Contudo, na hora de o vencedor cortar a cabeça do inimigo, o rapaz toma a decisão de poupá-lo. O que faria ele, pensou o novo protagonista, com a cabeça de Golias, gote­jando de sangue?

Elogio da leitura
Numa outra viagem, David se encontra dentro de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes:

Dei a volta e descobri que estava na cozinha da casa de Dom Quixote, no ponto exato do livro onde havia parado de ler na noite anterior. Tinha diante de mim a ama e a sobrinha do engenhoso fidalgo, e também o padre e o barbeiro do lugar, que se diziam amigos seus, mas que me pareceram gente de pouca confiança, desde o instante em que topei com eles.

Ler é descobrir. É fazer a loucura de colocar-se diante dos personagens, topar com eles como quem encontra alguém na rua, envolver-se, tocá-los, julgá-los, conversar com eles. A razão da leitura está em exercitar a imaginação com intensidade. Recontar a história como se fosse pela primeira vez. O leitor enfrentará moinhos de vento, sabendo que são gigantes perversos. A ilusão não é simples ilusão.

Devemos elogiar a leitura de quem se identifica com os personagens. A objetividade da leitura é viver a subjetividade na leitura. David aprende que a leitura é lugar de encontro existencial, para além de restrições que parecem intransponíveis. Quando se torna outro David, no romance David Copperfield, de Charles Dickens, descobre uma possibilidade antes impensada: seu encontro com a mãe ficcional é também o reencontro com sua mãe verdadeira, falecida. Ambas, porém, são reais. Em planos diferentes, mas são reais.

Sonhar o real
Se viajar por dentro de um livro é a verdadeira leitura, e se essa leitura é como um sonho cheio de detalhes, tal a sua força de rea­lidade, o que acontece quando o viajante não quer mais voltar? E se ele descobre que o amor de uma princesa de um reino imaginário é tão ou mais vivo do que o mais vivo dos amores fora dos livros? E se ele resolve viajar de livro em livro, unir as histórias com outras histórias, e nunca mais morrer?

Entrar de corpo e alma no sonho da leitura pode ser a realização de um sonho ainda maior. David, que vive num tempo em que o livro impresso foi quase esquecido, reencontra algo essencial em todo e qualquer tempo: a leitura como ato de liberdade criativa.

Identificando-se com personagens e autores, David opta pela autoria, escreve um livro. Sua inspiração é o estilo do escritor russo Ivan Turgueniev. Nem passa por sua cabeça baixar da Cosmonet algo que pertence exclusivamente ao seu mundo interior, alimentado pela leitura engajada e pela paixão de inventar a realidade.

O leitor que se torna autor tem direito a uma viagem especial. Incorporada ao acervo da Bibliotravel, a história escrita por David poderá ser “viajada” pelo próprio autor. E dentro de uma história inédita, o protagonista realizará seus mais secretos sonhos.

*Gabriel Perissé é professor e pesquisador do NPC – Núcleo Pensamento e Criatividade – www.perisse.com.br

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