O que motiva os millennials

Geração hiperconectada impõe desafios aos professores, que hoje enfrentam dificuldade para engajá-los. O uso de metodologias ativas pode ser uma solução, mas ela também tem suas restrições

SHARE
, / 3765 1

Imaginem um grupo de viajantes do tempo, entre eles médicos e professores, que saísse do final do século 19 para visitar o mundo 100 anos depois, no final do século 20. Os médicos ficariam espantados com os avanços da medicina e não saberiam como trabalhar com os novos tratamentos e tecnologias, já os professores entrariam numa escola e, desconhecendo apenas alguns itens novos, não teriam dificuldades em assumir as aulas. A amplamente conhecida parábola que abre o livro A máquina das crianças, de Seymour Papert, enfim, envelheceu.

Hoje muitas das salas de aulas sequer são assim chamadas no ensino superior. Rebatizados de ambientes de estudos ou espaços de aprendizagem, os locais são estruturados para favorecer tanto os trabalhos em grupo como as relações horizontais entre professor e aluno.

Muitas escolas também já abraçaram definitivamente em seus programas de ensino as metodologias ativas, que posicionam o aluno como protagonista em seu próprio aprendizado. Isso sem mencionar o onipresente e indispensável sinal de wi-fi, as lousas interativas e os ambientes de trabalhos virtuais, acessados por smartphones, computadores ou tablets que todos os alunos têm e dominam.

Mas mesmo com todos esses avanços tecnológicos e pedagógicos, muitos professores enfrentam ainda dificuldades em capturar a atenção e engajar a atual geração de estudantes, os tais millennials.

“Os próprios alunos admitem que possuem dificuldades em concentração e foco”, relata Sidney Ferreira Leite, pró-reitor acadêmico do Centro Universitário Belas Artes. Com anos de contato diário com estudantes, o educador constata que a atual geração se dispersa com muito mais facilidade que as anteriores e vê ainda indícios de narcisismo no comportamento deles. “Eles são muito individualistas e competitivos, veem o processo de ensino-aprendizagem de uma maneira muito pragmática. Só fazem algumas das atividades e só se engajam se for em troca de nota ou presença.”

A reitora da FMU, Sara Pedrini Martins, corrobora a experiência relatada e acredita que o desafio extrapola os limites das instituições de ensino. “Não só as faculdades, mas as empresas também estão com dificuldades de se adaptarem aos atuais jovens”, diz ela, mencionando que nesta atual geração a mudança de emprego e a frustração com os afazeres profissionais são constantes.

A complexidade do problema

O neurocientista Fernando Louzada, especialista em educação, acredita que estamos vivenciando um período de “difícil transição” entre dois modelos distintos do processo de ensino e aprendizagem. “Há uma incompatibilidade entre as escolas e o mundo real. Ainda que representem a maior parte, as aulas expositivas muito tradicionais já não fazem sentido. Estudos nos mostram que as metodologias ativas obtêm melhores resultados, mas a solução não é tão simples, a implantação demanda esforços.” Entre as dificuldades apontadas estão problemas com os alunos, com as instituições e também com os professores.

Estudantes de graduação que frequentam aulas noturnas, por exemplo, são mais resistentes em participar de aulas com metodologias ativas, como resolução de problemas em grupo ou discussões no modelo de sala de aula invertida. Isso ocorre porque geralmente esses alunos trabalham de dia e não têm muito tempo para se preparar para as atividades, daí eles mesmos acabam preferindo aulas expositivas, adotando uma postura mais passiva diante dos estudos.

Por outro lado, alunos de pós-graduação, que também conciliam seus empregos com as aulas, procuram se dedicar mais. “O pessoal da pós, mesmo sendo quase tão jovem quanto os alunos da graduação, parece saber gerenciar melhor o tempo; são muito dedicados”, relata Manolita Correia Lima, coordenadora do Núcleo de Inovação Pedagógica (NIP) da ESPM.

Discussões atuais

Uma solução para manter o interesse nas aulas expositivas — criticadas, mas ainda indispensáveis, em muitos casos — é apontada por Antônio Ferreira, pró-reitor de ensino, pesquisa e pós-graduação da FGV: “Trabalhamos com um fio condutor básico, que é o conteúdo programático que deve ser passado pelos professores e aprendido pelos alunos, porém, de forma mais atual”.

O componente atual está ligado à inserção de temas contemporâneos, discutidos pela sociedade e de interesse dos alunos. Assim, no curso de Direito, por exemplo, os estudantes têm aulas de direito e genética, justiça e robótica, empreendedorismo e legislação; e assim por diante. O pró-reitor exemplifica a metodologia com uma analogia pertinente. “O cinema é um divertimento com mais de 100 anos e o espectador é totalmente passivo, mas ele não abandona um filme de que está gostando”, compara.

A experiência nas redes sociais molda a expectativa dos jovens em relação ao ensino: eles também querem ser protagonistas no processo de aprendizagem

Há ainda os casos de estudantes expostos às metodologias ativas que cobram por aulas e avaliações mais tradicionais — isso ocorre porque muitos deles, por terem sido educados a vida toda assim, sentem-se mais seguros inseridos em contextos já conhecidos.

Algumas IES também relatam situações em que pais de alunos reclamam do “excesso de atividades fora da sala de aula e excesso de trabalhos em grupo”, no melhor estilo: “estou pagando a faculdade para meu filho assistir a aulas e não para fazer trabalhinhos”, conta a educadora da UFRJ e diretora do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde (Nutes), Miriam Struchiner.

Ela, que pesquisa, desenvolve e implanta metodologias pedagógicas ativas há anos, afirma haver um quadro de esquizofrenia na relação entre a academia e a sociedade. “Os alunos de hoje cresceram acostumados a serem protagonistas em suas vidas. Na web, nas redes sociais, isso acontece naturalmente. Eles são efetivamente os protagonistas em seus perfis de Facebook, Instagram, Snapchat, mas na faculdade e na vida profissional, isso não é a regra, e sim a exceção. Assim, muitos alunos se decepcionam.”

Por isso, em sua análise, mesmo com as escolas implantando e incentivando as metodologias ativas, há ainda resistência por parte de alguns alunos, pais e mercado de trabalho. “Por mais que se queira inovar, há uma cobrança pela tradição”, confirma Struchiner. Um dos exemplos mais sintomáticos vem de alunos que dependem de provas de entidades de classe para exercerem suas profissões, como estudantes de Direito e Medicina, por exemplo. Muitos deles cobram aulas expositivas e preferem avaliações mais tradicionais, semelhantes aos exames a que serão submetidos futuramente.

A formação dos professores

Analisando a questão sob a ótica dos gestores educacionais e professores, existem alguns obstáculos a serem superados para melhor conquistar e reter atenção dos millennials. Como estamos em um período de transição, muitos professores em atividade têm escassa ou nenhuma familiaridade com as metodologias ativas.

O neuroeducador Fernando Louzada aponta que os programas de mestrado e doutorado que formam os professores, em sua imensa maioria, são voltados para a pesquisa e não para a docência. “Pouquíssimos programas de pós stricto sensu investem em metodologias e práticas de ensino”, afirma. “A produção científica é fundamental, mas é preciso equilibrar a relação e aprofundar o estudo dos diferentes processos de ensino-aprendizagem, das metodologias pedagógicas mais atuais”, completa.

Com isso, a formação, capacitação e atualização desses profissionais acaba ficando a cargo das IES e o ciclo não se completa por diferentes motivos: seja pela falta de interesse e tempo (principalmente no caso dos horistas), seja pela falta de capital e iniciativa das próprias escolas de ensino superior. Para suprir essa deficiência e manter o corpo docente atualizado, a reitora da FMU Sara Pedrini Martins explica que a instituição tem um programa de capacitação perene e mesmo os professores horistas têm de fazer treinamentos presenciais e on-line.

Já a ESPM, desde 2014, tomou a decisão institucional de adotar as metodologias ativas em todos os seus cursos e estruturar programas de ensino mais enxutos, alinhados aos anseios dos estudantes. Para isso ser cumprido, conta Manolita Correia Lima, foi preciso incutir nos gestores e professores uma “visão sistêmica” do projeto educacional a ser desenvolvido, incluindo investimentos em formação, novos ambientes educacionais, infraestrutura e assinatura de bases de dados e de publicações atuais. “O livro-texto é algo do século 19; temos de usar materiais mais dinâmicos e contemporâneos. Os professores têm de ter fluência digital, não basta apenas ‘saber usar’; têm de saber ensinar a usar”, explica.

Outro gargalo que limita a inovação é institucional. As avaliações dos cursos e IES promovidas pelo MEC acabam direcionando o projeto educacional de muitas escolas e influenciado os próximos passos no planejamento pedagógico, avalia Miriam Struchiner. “Isso ocorre frequentemente e nas duas pontas opostas. Instituições com ótimas notas são relutantes em mudar e inovar para não caírem no conceito. E faculdades com notas baixas geralmente recorrem aos métodos tradicionais já ultrapassados, que infelizmente são os que a maioria dos alunos, professores e gestores sabem implantar”, explica a pesquisadora.

Para Struchiner, os gestores podem e devem trabalhar para alterar os processos de avaliação institucionais, para que seja algo mais flexível e atual.

Mudanças simples

Ainda que muitas mudanças nas IES dependam de altos investimentos — como novos ambientes de estudos, infraestrutura digital de ponta, treinamento de professores, entre outros —, alguns resultados palpáveis e duradouros podem ser obtidos por meio de simples alterações na rotina das faculdades, acredita Sidney Ferreira Leite. “Os professores têm de usar cotidianamente as ferramentas que os alunos usam”, diz.

Assim, o corpo docente da Belas Artes criou grupos no Facebook para trocar experiências acadêmicas, discutirem procedimentos em sala de aula e outras informações. “Parece algo trivial, mas funciona bem conosco. A constante troca de informações evita ainda o excesso de reuniões presenciais periódicas para discussão e ajustes nos cursos”, explica Ferreira Leite.

Não há, evidentemente, uma fórmula mágica para sanar todos os problemas na complexa relação entre as escolas de ensino superior e seus jovens alunos, mas sim uma série de ações e práticas contínuas que precisam ser adotadas para manter os estudantes interessados e participativos durante os anos em que frequentam a faculdade.

Dentre os especialistas ouvidos pela reportagem, no entanto, há ao menos uma opinião unânime: quem não mudou já ficou tão desatualizado quanto a parábola de Papert.

Artigos relacionados

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN